| Subject: Vital Moreira exagera |
Author:
João Laveiras
|
[
Next Thread |
Previous Thread |
Next Message |
Previous Message
]
Date Posted: 1/12/04 1:27
In reply to:
Vital Moreira (Público)
's message, "O Partido Búnquer" on 30/11/04 10:12
Sim, o PCP será muito disso. Mas ainda se não perdeu a esperança que venha a mudar. E, Vital Moreira, v. não se apercebeu disso enquanto foi destacado militante do PCP?
Estranho, não é.
>O Partido Búnquer
>Por VITAL MOREIRA
>Terça-feira, 30 de Novembro de 2004
>
>Uma das novas palavras de ordem entoadas no congresso
>do PCP, realizado no fim-de-semana passado, foi
>"Partido Comunista / marxista-leninista". O mote foi
>dado pelo antigo secretário-geral, Álvaro Cunhal, cuja
>saudação ao congresso terminava com esse grito de
>guerra da ortodoxia ideológica do partido, levantando
>um aplauso entusiástico de todo o auditório.
>
>E de facto nada poderia resumir tão fielmente o
>inequívoco endurecimento de um partido em retracção
>sobre si mesmo e refém da sua própria história. Ao
>sublinhar a sua "natureza de classe" (obviamente como
>"partido do proletariado"), ao afastar os poucos
>críticos que restavam, recusando qualquer abertura
>para a divergência interna, ao insistir enfaticamente
>no "centralismo democrático" e na recusa das comuns
>regras de democracia partidária, ao preferir
>funcionários do aparelho aos deputados e autarcas no
>comité central (CC), ao colocar condições que
>inviabilizam praticamente uma solução de governo com o
>PS, o PCP optou definitivamente pela imutabilidade da
>sua herança doutrinária e pelo caminho sem regresso do
>declínio em que vai definhando. O novo
>secretário-geral corresponde inteiramente a esse
>perfil do PCP, se possível ainda mais igual a si
>mesmo.
>
>Dos mil e muitos delegados ao congresso só dois
>tiveram a coragem ou tiveram vaga para falar "fora de
>tom" no alinhamento oficialmente estabelecido. O
>primeiro teve escassos aplausos e nutridas vaias,
>sendo depois agressivamente invectivado pessoalmente
>no exterior, como relata a imprensa; o segundo
>encontrou a mesma hostilidade sectária, embora menos
>estridente. Como sempre, quem diverge publicamente da
>orientação oficialmente definida é um "dissidente" ou
>"fraccionista", que deve ser rapidamente expurgado ou
>pessoalmente desqualificado. No final, num universo de
>delegados cuidadosamente seleccionado, poucas dezenas
>deles votaram contra o novo comité central proposto
>pelo CC cessante. Sem o voto secreto, ainda seriam
>menos.
>
>Os primeiros derrotados do congresso foram portanto
>aos autodesignados "renovadores", especialmente os
>quais ainda insistem em se considerar membros do
>partido (porque não saíram nem foram formalmente
>expulsos), mas que obviamente os "verdadeiros"
>militantes já não consideram como tais. Só pode
>relevar da ingenuidade ou do cinismo que ainda haja
>quem julgue haver lugar doravante para qualquer
>renovação ou reforma do PCP. Para os que se não tinham
>dado conta, terminou definitivamente a era das
>contestações colectivas iniciada no final dos anos 80,
>com algumas réplicas posteriores, cada vez mais
>repetitivas e cada vez mais irrelevantes.
>
>Particularmente notória foi a ênfase na defesa do
>"centralismo democrático" - peça essencial da cultura
>marxista-leninista - e a desafiadora recusa da lei dos
>partidos políticos quanto às regras de democracia
>interna. Sob protesto adoptou-se o voto secreto na
>eleição do comité central, mas já não foi assim nas
>eleições dos delegados, dos órgãos executivos, nem do
>novo líder. Como manda a cartilha, não houve listas
>alternativas, mas sim uma única lista apresentada a
>sufrágio pela própria direcção cessante. No modelo de
>organização do PCP não existe direito de candidatura,
>nem as eleições servem para escolher entre
>candidaturas alternativas, apresentadas pelos
>delegados, mas sim em aprovar a lista única
>apresentada pela própria direcção. As eleições (e o
>mesmo sucede com as votações de resoluções ou outras
>tomadas de posição) não passam de procedimentos de
>ratificação de escolhas previamente efectuadas pela
>direcção central, a quem cabe também aceitar ou
>rejeitar livremente os "enriquecimentos" (como se diz
>no jargão partidário) eventualmente vindos de baixo.
>
>Entre os perdedores estão portanto também os que
>acreditaram na possibilidade de democratizar o PCP por
>imposição legal de regras democráticas. O comando
>oligárquico e a cooptação do grupo dirigente, como
>"vanguarda" autodesignada, pertencem à natureza
>intrínseca do genuíno "centralismo democrático". A
>proibição de exteriorizar divergências ou críticas
>fora dos organismos partidários facilita a sua
>filtragem e silenciamento interno e torna impossível a
>criação de correntes de opinião alternativas a nível
>do partido. Descontado um improvável golpe de estado
>palaciano, a conjugação destes mecanismos torna
>inexpugnável e invulnerável o grupo dirigente, que se
>vai auto-reproduzindo.
>
>A terceira consequência deste visível endurecimento
>comunista tem a ver com a acrescida dificuldade, se
>não pura inviabilidade, em equacionar soluções
>governativas com o PCP. Ao insistir sectariamente na
>condenação global das "políticas de direita" do PS
>(omitindo a referência a algumas de esquerda), ao
>recusar liminarmente qualquer reforma dos sistemas de
>saúde e de segurança social - mesmo que sem elas ambos
>caminhem para o desastre -, ao vilipendiar toda a
>ideia de disciplina financeira à luz do Pacto de
>Estabilidade e Crescimento da UE e ao partir em guerra
>contra a Constituição europeia (tal como sempre
>rejeitou a integração europeia, desde o início), o PCP
>não esqueceu de listar e sublinhar nenhum dos tópicos
>que tornam incompatível a sua presença num governo de
>unidade ou coligação à esquerda. A profunda
>divergência com o PS em matéria europeia é porventura
>aquela que levanta mais escolhos a um entendimento de
>incidência governamental. Se, à direita, a actual
>coligação de governo reclamou o apagamento das
>posições eurocépticas do CDS de Portas, à esquerda não
>se vislumbra como é que o PCP poderia fazer conviver o
>seu obstinado e radical antieuropeísmo com o apoio a
>um governo pró-europeu, como será sempre um governo
>socialista.
>
>Entre os vencidos do congresso do PCP estão portanto
>também os que à esquerda, inclusive no PS, têm lutado
>contra a exclusão à partida de alianças de governo com
>os comunistas. As ideias de "maioria de esquerda" como
>solução de governo passaram a fazer ainda menos
>sentido do que antes, a não ser como retórica de
>propaganda eleitoral do PCP. Doravante fica mais claro
>que ele prefere ficar de fora e que um governo à
>esquerda não pode contar com ele para fazer maioria.
[
Next Thread |
Previous Thread |
Next Message |
Previous Message
]
| |