Author:
José Manuel Fernandes
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Date Posted: 4/12/04 18:16
Falar verdade nas eleições pode fazer perder votos, porque implica pedir sacrifícios e não prometer o céu, mas alguém tem de fazê-lo. Um dia será ouvido
Agora que vamos para eleições era bom que se falasse verdade aos portugueses. Que em lugar de se prometer o paraíso ao virar da esquina, se dissesse que ainda vamos ter de fazer muitos sacrifícios para que o nosso futuro colectivo seja diferente do que hoje temos pela frente: a decadência irreversível. Não vai ser fácil.
Esta semana a "Business Week" alertava os empresários norte-americanos para a ameaça chinesa e, dirigindo-se aos líderes de uma economia com alta produtividade, ia directa ao assunto: os custos na indústria manufactureira terão de baixar 30 por cento para esta continuar a ser competitiva. Não são conhecidos os números para Portugal, mas ontem, no "Jornal de Negócios", explicava-se que fabricar um par de sapatos em Portugal custa, em média, cinco euros e na China 50 cêntimos. Dez vezes menos. Ora exportar sapatos ainda é uma das nossas raras especialidades...
A elite política e económica, ou o que conta nela, conhece a dimensão do desafio. E muitos empresários começam a investir noutros países porque sabem que em Portugal têm de enfrentar níveis de economia informal, de corrupção, burocracia ou de discricionariedade dos decisores políticos que consomem tanto tempo e dinheiro que inviabilizam os negócios mais elementares, distorcendo as regras do mercado. Porque sabem que o Estado consome 50 por cento dos recursos nacionais, o que se aceitaria se prestasse os serviços que o Estado sueco ou finlandês prestam - mas não presta. Porque têm dificuldade em encontrar mão-de-obra qualificada, infraestruturas adequadas, uma justiça célere (e equilibrada) ou orientações políticas e orçamentais plurianuais, um caminho definido para além das vicissitudes das mudanças de Governo ou de maioria.
E sabe também que não se pode prometer o que não se pode pagar (sejam descidas de impostos ou autoestradas gratuitas); que não se pode continuar uma Administração Pública tão pesada, tão cara e com tantos funcionários; que o sistema de pensões exige um esforço financeiro desproporcionado e que sem medidas radicais acabará por falir; que ainda há demasiada rigidez no mercado de trabalho; que são irracionais os gastos de muitos serviços centrais e locais da administração, desde o gabinete ministerial à rotunda que faz a felicidade do Presidente da Câmara; e por aí adiante.
Daí que seja altura de dizer aquilo que os portugueses começam - por fim - a estar preparados para ouvir: que têm de trabalhar mais e melhor; que têm de suportar taxas mais altas de desemprego enquanto se proceder aos reajustes estruturais; que não podemos, famílias e Estado, continuar a endividarmo-nos; que teremos de viver vidas mais incertas porque mais competitivas. No fundo, que não somos ricos, antes estamos a empobrecer alegre e irresponsavelmente.
Tudo isto passará por coisas tão difíceis como assumir que devemos ter menos universidades e cursos superiores, mas melhores. Que os que vivem em casas com rendas antigas vão ter de pagar mais ou mudar-se para apartamentos mais pequenos. Que temos de pagar mais pelos combustíveis fósseis e pagar mais pela utilização do transporte individual. Que todos os serviços públicos têm de ser avaliados e, se se justificar, encerrados.
Acabou o tempo do fogo de artifício, é tempo de ter os pés na terra. Quem o disser nas eleições talvez não as ganhe - mas um dia será ouvido. Queira o destino que não seja tarde demais. José Manuel Fernandes
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