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Subject: O essencial e o acessório


Author:
Observador estupecfacto
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Date Posted: 20/11/04 20:39
In reply to: Jorge Nascimento Fernandes 's message, "Inclinação consensualizada" on 18/11/04 12:10

As intervenções que aqui se têm produzido acerca do próximo congresso do PCP têm girado à volta da pessoa “sugerida” pelo grupo dirigente para futuro sg, e à mistura têm aparecido uns epítetos de estalinistas direccionados ao grupo dirigente. O mais importante – a proposta de resolução política e o funcionamento anti-democrático do PCP – pouco ou nada têm sido debatidos, apesar do Redondo ter aqui apresentado umas críticas a aspectos marginais (mas com interesse) da dita resolução.

Comodismo dos intervenientes ou sinónimo de que não estão virados para a discussão, contentando-se com o que lhes é servido pelo grupo dirigente e com o simulacro de democracia que se pratica no interior do PCP?

De há muito, o PCP não pratica a discussão interna com alternativas, ou tal prática é-lhe completamente estranha. Introduzi-la seria apenas factor de desestabilização duma prática tradicional, que se tem mostrado suficiente para gente acomodada e para seguidores fiéis das resoluções e directivas que vêm de cima, características do pessoal pouco dado a pensar para além da recitação das cartilhas (que, mesmo essas, poucos saberão, para além dos chavões da revolução, do marxismo-leninismo e do partido da classe operária) que milita no PCP.

Isto é designado aqui por alguns por estalinismo. Ora, “estalinismo” é muito mais do que esta prática anti-democrática, mas é provável que o próprio projecto político do PCP contenha os germes que levariam à sociedade totalitária que caracterizou o estalinismo e o comunismo em geral. Se sem ter tomado o poder, e usufruindo das liberdades burguesas, o PCP tem estas práticas no seu interior, onde as contradições não passarão de divergências de opiniões e não chegarão a contradições antagónicas, imagine-se o que seria a sua gestão da sociedade, onde as contradições de interesses entre as diversas classes sociais são tudo menos ligeiras.

Estas práticas e o projecto político do PCP são de tal modo perturbadoras, depois do pessoal ter visto o que eram os paraísos socialistas e comunistas, e constituem perspectiva tão pouco animadora que nem motivam a classe social que ele pretende representar. A ligação ao PCP é hoje mais do foro afectivo, baseada nos mitos da sua heróica resistência à ditadura salazarista, mantida por gente com 50 anos ou mais, do que na crença e na esperança duma sociedade mais justa, e daí a decadência que o partido vem vivendo e a incapacidade que vem evidenciando para captar a adesão, a simpatia e o voto das gerações mais novas.

Neste sentido, estalinistas serão não apenas os actuais dirigentes, como os anteriores que se agrupam hoje na Renovação Comunista, assim como os simples militantes, dado que todos comungam ou comungaram de tais práticas e defendem, no essencial, o mesmo projecto político. E, pelo que se tem visto, ninguém tem apresentado qualquer alternativa política que defenda os interesses dos explorados (operários e outros trabalhadores assalariados) que ultrapasse o totalitarismo comunista. Não haverá outros amanhãs para além dos que cantam?

Por outro lado, alguns têm glosado aqui, pelas mais diversas razões, a figura do Jerónimo de Sousa como futuro sg do PCP. Mais uma vez, a questão de fundo, isto é, o modo como funciona o PCP e a “sugestão” de um sg antes mesmo do próprio congresso e da eleição de um novo comité central (aspecto inovador até para a prática tradicional do PCP, motivado eventualmente pela necessidade de cortar cerce a veleidade de outras alternativas que pudessem surgir durante o próprio congresso), pouco tem sido abordado. O fulanismo tem sido mais importante do que o resto, quando o resto é o mais importante.

Não é a origem de classe, mas a situação de classe, que determina o modo de pensar de cada um. Mas o projecto e a prática política do PCP ficaram irremediavelmente marcados pela longa gestão Cunhal, e as opções de classe que se verificam, as suas cedências à pequena burguesia e a tolerância para com o capital monopolista nacional, foram ofuscadas pelo brilho intelectual e pela agudeza táctica do artista Cunhal. Em regime democrático, os de baixo tinham em Cunhal um dirigente que podia ombrear com os dirigentes dos partidos burgueses contemporâneos, ou até ultrapassá-los, e isso bastava-lhes para as discussões políticas que se mostravam dispostos a entabular. Como o Carvalhas não teve tal brilho, parece que ficaram órfãs, e como não há ninguém parecido, nada melhor do que um operário para mostrar a fidelidade do PCP à classe operária.

Na direcção de um partido, mais importante do que a capacidade intelectual é um outro conjunto de capacidades, nomeadamente, a capacidade de gerir as muitas capacidades que se encontram dispersas pelo partido e a coragem de iniciar e conduzir as reformas que se mostrem necessárias. Na direcção de um partido operário, o mais natural seria encontrar-se um operário ou antigo operário. Oxalá o PCP tivesse tido, ao longo da sua história, mais dirigentes de topo operários ou antigos operários. Como não teve, esperemos que agora o operário que lá for posto tenha a coragem de restituir o PCP aos operários e aos trabalhadores assalariados, de modo a que ele possa ser o partido da classe operária que diz ser.

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Subject Author Date
Re: O essencial e o acessórioobservador acidental20/11/04 22:13


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