| Subject: Re: PCP: um esboço de SERIEDADE |
Author:
Ângelo Novo
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Date Posted: 22/11/04 16:36
In reply to:
Luis Blanch
's message, "Re: PCP: um esboço de SERIEDADE" on 22/11/04 13:46
>Ângelo Novo teve um percurso inteligente ,
>pensado , crítico e que ao sentir-se "incomodado
>" por certos e determinados eventos e
>situações , aliás pouco ou nada por ele
>explicitados , afasta-se do Partido.
Eu quando saí do partido, em 1988, não saí incomodado com nada em particular no PCP. Eu tinha aprendido, como todos, a encarar a vida no partido com estoicismo, abnegação e paciência, com vista a contribuir com o meu pequenino grama de esforço para um determinado desenlace histórico.
Na verdade, esse desenlace, que seria a vitória do socialismo sobre as potências capitalistas centrais coligadas, já era muito pouco provável quando eu aderi à JCP, em 1984, creio. A minha adesão já foi um pouco um acto de imolação pessoal em desespero de causa, "pour l'honneur". Olhando agora para trás, creio que a crise de 1973 e o surto revolucionário que se lhe associou (e que incluiu o Chile, o Vietname sempre, Portugal e suas colónias, a Argentina, etc.) foi o último ponto em que o equilíbrio de forças se poderia ter inclinado para o outro lado. Mas muito dificilmente, porque o coração da sociedade soviética já estava corroído por uma estagnação letal.
Mas em 1988, finais do gorbachevismo, então é que já estava tudo decidido. Só não via quem não queria. Não precisei de esperar pela "queda do muro de Berlim". A partida estava perdida e eu não via sentido nenhum em manter o meu compromisso pessoal com uma causa totalmente arruinada. Então saí, sem qualquer ressentimento com o PCP, onde nunca ninguém me fez mal, antes pelo contrário. Eu estava com os olhos postos noutro patamar.
Passei então por um período em que me desliguei da política por completo. Andei pela literatura, pela fotografia e, em geral, embriaguei-me com vinho, poesia, música, ciência e filosofia.
Só voltei a sério à investigação marxista lá para 1990-91.
>Até aqui tudo bem ; a partir de dada altura
>sobressae-lhe alguma crispação que, diga-se a
>verdade ,não se traduziu em campanhas desaforadas
> onde não se lhe denotava um ressabiamento
>pouco consentâneo com a imagem que pretende ,e
>bem , cultivar.
>Neste quadro , não entendo a má vontade de
>certas pessoas por este amigo...
>
Bom, eu já estava à espera dessa "má vontade de certas pessoas". Na verdade, o recorte literário da minhas últimas intervenções sobre o PCP é intencionalmente ácido e de uma certa contudência.
E o fundo da questão mantém-se. O repto é este: o partido ou adere, se molda e se submete aos novos ventos da contestação global anti-capitalista ou então, se faz favor, saia da frente. Se não sair, será abatido sem honra nem glória, na contramão da história.
Isto aqui é que não há volta a dar-lhe. Eu não tenho absolutamente nenhum ressentimento contra o PCP. Mas estas são as leis da vida. E eu não sou do género de andar com abaixo-assinados a pedir, por favor, uma aberturazinha, sejam compreensivos, vá lá, por favor. Até porque não estou sequer no partido, há muitos anos.
Se quer, quer. Se não quer, dane-se. Não lhes vou ao funeral nem mando flores sequer. Terei mais o que fazer.
Ângelo Novo
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