| Subject: Uma certa história sobre dois secretários gerais |
Author:
Paulo Fidalgo?
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Date Posted: 23/11/04 22:55
Uma certa história sobre dois secretários gerais:
Depois do saudoso Bento Gonçalves, pela segunda vez na sua história, o partido da classe operária poderá contar com um secretário-geral de origem operária.
Entre o herói do arsenal do Alfeite, célebre pela sua perspicácia de análise – o livro “Palavras Necessárias” – e energia revolucionária, e o actual, Jerónimo de Sousa, gerado no processo revolucionário da cintura industrial de Lisboa, passaram 7 décadas.
Apesar de pertencerem formalmente à mesma classe social, podemos, à luz do método marxista, encontrar ainda assim enormes discrepâncias entre ambos.
Nos anos 30 do século XX, o torneiro mecânico do Arsenal representava o nervo da classe operária, precisamente aquela que nada tinha a perder com a luta, a não ser as amarras da opressão.
O proletariado industrial das grandes fábricas, organizado então segundo uma divisão de trabalho já complexa e senhor de uma tecnologia, avançada para aquele tempo, transportava uma disponibilidade intuitiva para abraçar e impulsionar a superação radical do capitalismo.
O actual candidato , faz parte de uma classe operária que, pelo contrário, é mais periférica no saber, expropriada da capacidade de organizar a produção e vítima do fenómeno do operário descartável – a ideia de um segmento da classe operária descartável é teorizada pelo marxista argentino, Juan Inigo Carrera. Transformado assim em peça de uma máquina é, de facto, por ela dominado, qual instrumento mecânico despossuído de toda a réstia de humanidade.
Desumanização essa, que é simultaneamente condição incontornável, continuada, da sua valorização social, da obtenção do seu sustento e da sua família.
É um operário forçado a desumanizar-se para defender o que lhe resta de humanidade.
Como corolário da noção de ente descartável, deve somar-se a devastação dos cemitérios da grande indústria e das profissões eliminadas, fruto do progresso tecnológico e da globalização capitalista.
O ex-arsenalista era impulsionado para a linha da frente da história.
O ex-militante da cintura industrial é arrastado para o defensismo, o aconchego da seita e a falta de perspectiva histórica.
A formação de um exército de operários descartáveis é uma diferenciação no seio dos assalariados que condiciona negativamente o amadurecimento de uma consciência de sujeito e agente histórico de transformação.
Ao seu lado desenvolvem-se, impetuosamente, novos segmentos de assalariados, portadores de capacidade tecnológica, detentores de um saber insubstituível na organização da produção e da vida social e que, portanto, fazem tremer o capital no seu papel dominante. Eles são o principal motivo de optimismo de que, afinal, o capitalismo não é o fim da história.
E herdam de facto o espírito do ex-arsenalista. Diferenciam-se pelos determinantes da sua consciência por comparação com os sentimentos que germinam hoje no meio dos operários descartáveis do ex-militante da cintura industrial.
Para a construção de um novo sujeito histórico, problema que hoje mais concentra a atenção dos comunistas, portugueses e no mundo, é fulcral mobilizar ambos os segmentos do movimento dos assalariados, pois só a partir da sua aliança um mundo novo será possível.
Importa por isso contrariar que os segmentos descartáveis do proletariado mais tradicional deslizem para o corporativismo e para o espírito de seita, fruto das ameaças que se erguem sobre o seu futuro.
Deslizes que explicarão aliás fenómenos tão negativos como o voto operário na Frente Nacional neo-fascista em França ou em George Bush nas recentes presidenciais americanas.
Se bem que menos espectaculares, entroncam no mesmo tipo de fundamento sociológico as manifestações de sectarismo, o espírito de capela no seio das organizações operárias tradicionais. E o gravíssimo desvio sectário que leva à nomeação de Jerónimo de Sousa – um processo opaco que destoa da ânsia e tradição democráticas do operariado.
De acordo com Marx, a classe operária, qualquer que seja o conteúdo que hoje atribuímos a este conceito, é historicamente especial. Assume, no empreendimento da sua libertação, a libertação de todos as classes oprimidas. Em frontal oposição ao espírito de capela. E está igualmente no seu desígnio o auto-desaparecimento como classe, na medida em que o futuro comunista é visto como o fim de todas as classes.
É visível que a rota da Soeiro Pereira Gomes está em frontal oposição aos conceitos de totalidade e universalidade tão caros aos clássicos do marxismo, e de entre todos eles, a Lenine.
Pelo contrário, em Bento Gonçalves apercebemo-nos que o herói revolucionário, operário, morto pelo fascismo no Tarrafal, tinha a visão que era já a de um não-operário, mas sim a do cidadão universal.
Nestes dias, em que milhares de comunistas estão perplexos com o blitskrieg que substituiu Carvalhas por Jerónimo, há que dizer que a ideia comunista continua um projecto com futuro.
O reflexo auto-fágico que hoje corrói o PCP, será superado com um mais que necessário sujeito histórico e político renovado.
Por isso, concentremo-nos no que é realmente importante: continuar a trabalhar pela alternativa democrática em Portugal e pela afirmação crescente da ideia comunista.
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