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Subject: Algumas notas sobre Álvaro Cunhal


Author:
Luís Carvalho
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Date Posted: 5/11/04 21:47

Algumas notas sobre Álvaro Cunhal

(in Região de Rio Maior, 5/11/2004)

É hoje um homem velho, prestes a completar 91 anos de idade, "fisicamente debilitado, na visão e na própria locomoção". A última vez que falou em público foi no dia em que fez 90 anos, 10 de Novembro de 2003. Falou então ao telefone para o programa SIC 10 horas de Fátima Lopes. Onde brincou, pedindo que lhe telefonassem daí a 10 anos, no seu centenário. E ainda com Cunhal ao telefone, a assistência cantou-lhe os parabéns. (1)

Na mesma altura foi publicado um pequeno texto com uma análise sua sobre "O Mundo Hoje". (2) Aí manifesta um apego a algumas concepções ultrapassadas, incoerentes e erradas. Como ao considerar a Coreia do Norte como sendo um país com "comunistas no poder". Quando o regime político norte coreano é, por demais evidente, uma variante do modelo estalinista que vigorou nos antigos regimes da União Soviética e da Europa de Leste. Ao qual o próprio Álvaro Cunhal apontou, noutras ocasiões, as seguintes características: "o poder pessoal, o abuso do poder, os métodos repressivos contra os que discordavam ou criticavam, a falta de democracia no partido e no Estado". (3) E considerando-o como "um modelo de sociedade que em aspectos fundamentais se afastou do ideal comunista". (4)

Mas... atente-se na presente situação de guerra e terrorismo no Iraque e noutras consequências da política belicista do actual governo dos Estados Unidos da América. Não é de reconhecer a lucidez com que Álvaro Cunhal afirma que "à acção terrorista de 11 de Setembro, os Estados Unidos responderam fomentando organizações e acções terroristas, desencadeando agressões e guerras que vitimam igualmente milhares de civis" e que "na actual situação mundial, o terrorismo, que prolifera pelo mundo, só pode ser combatido com êxito com orientações, políticas e medidas que façam respeitar (...) a liberdade, os direitos e a independência dos povos e países agredidos"? (5)

Apesar dos seus erros, das suas incoerências e dos seus dogmas ultrapassados, Álvaro Cunhal é como que um monumento vivo da democracia portuguesa.

Foi um verdadeiro herói na resistência à ditadura fascista que oprimiu o povo português durante quase meio século. Um ditadura que manteve durante todo esse tempo o povo português na miséria e que o atirou para uma prolongada guerra colonial.

É certo que Álvaro Cunhal foi, e pelos vistos continua sendo, apoiante de outras ditaduras ( enquanto, por exemplo, Mário Soares foi apoiante da ditadura de Mobuto no Zaire e Cavaco Silva fornecedor de armas a Saddam Hussein - no período mais assassino deste). Mas, para todos os efeitos, Álvaro Cunhal foi um dos fundadores do presente regime democrático português. Não tentou instaurar nenhuma ditadura em Portugal. Antes soube respeitar a legalidade e o voto dos eleitores portugueses (enquanto, por exemplo, líderes de outros grandes partidos políticos foram apoiantes e cúmplices, aqui, em Portugal, de tentativas de golpes de Estado - golpe Palma Carlos e 28 de Setembro em 1974, 11 de Março em 1975) e, pelo menos, de alguma forma coniventes com actos terroristas - rede bombista, MDLP, MIRN, FLA, Moca de Rio Maior...
Mais recentemente, Álvaro Cunhal desempenhou ainda um papel nefasto na degradação do seu partido, o PCP, marcada pela injusta e nada democrática expulsão de pessoas como João Amaral e Carlos Brito.

Porém, como escrevia Zita Seabra, pouco antes de ser expulsa do PCP, "o fundamental, a não perder de vista, foi a luta corrente e sem tréguas contra o regime fascista. Essa luta era travada, não é de mais recordá-lo, com custos pessoais e humanos irreparáveis, de anos de cadeia, anos de clandestinidade, ou mesmo anos de vida... (...) essa luta (...) foi a maior contribuição que era possível dar a todos os que lutavam, em qualquer parte do globo, pela liberdade". (6)

Essa luta pertence ao passado. Mas sem conhecermos o passado, dificilmente compreenderemos o presente do mundo em que vivemos. Creio assim que vale a pena dar a voz ao seguinte testemunho de Álvaro Cunhal:

"A PIDE/DGS, polícia política da ditadura fascista, constituía, no quadro da estrutura do Estado, um corpo especial de perseguição e repressão política, com largos poderes discricionários. Prendia, torturava, matava. Nunca esquecer que a superior responsabilidade pelos seus crimes era do governo fascista, de Salazar primeiro, de Marcelo Caetano depois.

(...)

A primeira vez que fui preso, fui violentamente espancado desde cerca da meia-noite a cerca das quatro da manhã, por uma roda de agentes que se iam revesando. Agrediam a murro e a pontapé, com cassetetes e grossas tábuas com cabo, para as empunharem. Deitaram-me no chão, imobilizaram-me, descalçaram-me os sapatos e com essas tábuas davam violentas pancadas de cutelo nas solas dos pés, que se ressentiam violentamente, por ondas de choque, na cabeça. Depois o espancamento continuava de pé, no meio da roda dos torcionários. Repetiram a operação até eu perder os sentidos. Voltei a mim numa cela de segredo numa outra prisão (Aljube). Quando cerca de 15 dias depois me pude ver ao espelho, não reconhecia a própria cara. O corpo estava também quase completamente coberto de variadas esquimoses.

A última vez que fui preso, a tortura foi diferente. Mantiveram-me num total de quase oito anos (dos quais cerca de um ano e meio incomunicável) isolado numa cela da Penitenciária de Lisboa.

Este o meu testemunho directo sobre o que foram no meu caso os "safanões a tempo" que Salazar dizia serem legítimas formas de interrogatórios da PIDE. Numerosos (...) sofreram torturas mais requintadas; tortura do sono, tortura da estátua, choques eléctricos, queimaduras com borrões de cigarros, além de torturas psicológicas de extrema crueldade. Outros estiveram muito mais tempo presos do que eu. Até mais de 20 anos. Muitos foram assassinados com torturas ou a tiro". (7)


(1) - A Capital, 15/06/2004, pág. 3

(2) - Avante, 6/11/2003, pág. 19

(3) - O caminho para o derrubamento do fascismo, Editorial Avante, 1996, pág. 13

(4) - O Comunismo Hoje e Amanhã, Partido Comunista Português, 1993, pág. 13

(5) - "O Mundo Hoje", Avante, 6/11/2003, pág. 19

(6) - O Nome das Coisas, Editorial Inquérito, 1989, pág. 113

(7) - Público, 22/04/1994

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Re: Algumas notas sobre Álvaro CunhalObservador renovador 6/11/04 9:21


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