| Subject: A Eleição Americana de 2004 |
Author:
Richard Wolff
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Date Posted: 11/11/04 10:37
A Eleição Americana de 2004
Por Rick Wolff
O camarada Richard Wolff é um reputado marxista americano, professor de economia na Universidade de Amherst, Massachusetts ocidental. Ele é uma personalidde profundamente empenhada na renovação do marxismo do outro lado do Atlântico, à semelhança de um Lucien Séve em França ou do húngaro a leccionar em Essex, Istvan Meszaros.
O seu nome está indissociavelmente ligado ao projecto da revista Rethinking Marxism, da qual foi editor e fundador.. Tem publicado obras de grande alcance marxista como a recentemente editada em Portugal, pela Campo da Comunicação "Teoria de Classe e História: capitalismo e comunismo na URSS".
Numa altura em que os comunistas se inquietam e reflectem acerca dos resultados da eleição presidencial americana, o testemunho de Rick Wolff é por demais importante para nos ajudar a compreender a dinâmica social e política em camadas sociais desesperadas, de trabalhadores, que decidem seguir consignas e propostas perigosas e ilusórias. Esse perigo é tão importante nos EUA como na Europa e por isso todos temos de apreender o fundamento que explica esse tipo de evolução.
I.
Até há pouco, a crescente exploração dos trabalhadores ao longo da história do Estado Unidos foi acompanhada pelo crescimento dos salários reais (ver o gráfico em baixo). Enquanto os trabalhadores americanos produziram cada vez maiores excedentes (sobre-produto, nota da tradução) para os capitalistas, eles também obtiveram aumentos modestos mas regulares nas quantidades de bens e serviços que eles podiam comprar com os seus salários. Os crescentes excedentes (sobre-produto) encheram cada vez menos e cada vez maiores companhias. Assim, concentrou-se a riqueza produtiva e o poder político numa cada vez menor porção da população*. Por outro lado, os trabalhadores americanos, acostumaram-se ao aumento de salários reais.
Talvez ainda mais importante, a subida de salários reais fosse aceite como compensação razoável para quer a crescente exploração, quer o crescimento das desigualdades económicas, políticas e culturais do modo de vida Americano. Com certeza, sempre houve vozes a apelar aos seus camaradas de trabalho para não aceitarem este tipo de “deal” (compromisso), para exigirem em vez disso que fossem os trabalhadores a decidirem como os excedentes por eles produzidos deveriam ser socialmente distribuídos, decidirem como deveria ser o próprio processo de trabalho organizado, e participarem em igualdade e plenitude na vida política e cultural da sua sociedade. Contudo, estas vozes foram derrotadas ao longo da história dos Estados Unidos.
Em vez disso, o que emergiu na sociedade americana foi a ideia de que os capitalistas podiam aumentar o nível de exploração dos trabalhadores por meio da automatização, da aceleração dos ritmos de trabalho, pela exigência de mais horas de trabalho, e assim por diante, desde que os trabalhadores obtivessem aumentos de salários (itálico e bold de Rick Wolff). Não só os capitalistas mas a maioria dos intelectuais e a maioria dos advogados dos trabalhadores dentro e fora dos sindicatos convergiram à volta desta ideia. A história dos Estados Unidos desenvolveu uma ideologia dominante de consumo como referência, propósito, e consolação para a actividade produtiva dos trabalhadores. O consumismo pode então tornar-se um sistema de valores nos Estados Unidos tão dominante em grande parte porque funcionou como legitimação racional para a exploração capitalista. Os trabalhadores acreditaram que a subida de salários era uma compensação aceitável e apropriada para a sua exploração e para todos os seus custos pessoais e sociais. Na verdade, uma subida real do nível salarial tornou-se a “prova” do sucesso do capitalismo americano e, depois de 1917, da sua superioridade em relação ao sistema soviético.
II.
Nos anos de 1970, uma alteração básica nos Estados Unidos interrompeu o compromisso “consumista” para com os trabalhadores. Em primeiro lugar, a recuperação das outras economias capitalistas avançadas das devastações da segunda guerra mundial minaram as margens de lucro dos capitalistas americanos no pós-guerra. Em resposta, deslocalizaram a produção para fora do país e aceleraram o seu ataque ao estado de bem-estar (estado providência) de maneira a reduzirem as suas próprias taxas. Isto, por sua vez, reduziu os serviços prestados pelo Estado e interrompeu portanto o crescimento do emprego no sector do Estado. O resultado foi o afunilar para a entrada de novos trabalhadores na força de trabalho americana – jovens, emigrantes – à medida que o sector privado desviava empregos para outras regiões. Ao mesmo tempo, a “revolução dos computadores e telecomunicações” provou ser uma nova onda de automatização que eliminou muitos empregos nos Estados Unidos. Os trabalhadores à procura de emprego excediam o número de empregos disponíveis. Assim nos anos setenta começou a longa tendência descendente dos salários reais que domina a história americana desde então. A oposição ineficaz baseada nos trabalhadores a esta tendência resultou do declínio da força sindical, dos sindicalizados e do poder político e da incapacidade dos sindicatos da sua falta de vontade em questionar ou alterar a sua estratégias básicas.
Esta tendência pôde continuar também porque a alternativa Soviética começou a desabar e acabou por implodir. Os capitalistas americanos podia na verdade actuaram desviando-se para a direita porque viam menos razões para não o fazer. Onde os argumentos dos liberais americanos sobre a moral, decência, e eficiência de salários mais altos e programas sociais do Estado para trabalhadores que antes tinham persuadido alguns capitalistas, isso mudou quando deixaram de temer o que poderia acontecer se os salários e os programas do Estado fossem cortados. Quando as alternativas socialistas existentes enfraqueceram, também enfraqueceu o temor dos capitalistas. Os liberais viraram-se cada vez mais para o pensamento dominante capitalista à medida que os seus apoiantes académicos e mediáticos trombeteavam a noção de que simplesmente não havia alternativa ao capitalismo. Para quê alguém se preocupar mais, com diz o pessoal do Bush, em “contentar os liberais” (“humor liberals”)?
Os trabalhadores reagiram de duas maneiras principais ao declínio nos seus salários reais e dos serviços do Estado desde de meados dos anos 70. Em primeiro lugar empreenderam um vasto aumento do endividamento pessoal e familiar num grau nunca antes visto nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar. Pedir dinheiro emprestado foi a forma de manter ou pelo menos de aumentar ligeiramente os níveis de vida quando os salários reais declinavam em vez de aumentar. Segundo, eles enviaram mais membros da família (mulheres, velhos e jovens) trabalhar mais e mais horas em múltiplos empregos. A combinação de queda dos salários reais, crescente endividamento, e de crescente exaustão da força de trabalho mergulhou as famílias americanas na crise. Crescentes tensões inter-pessoais, alienação, e violência produziram taxas de divórcio, depressão psicológica, e dependência de drogas num grau nunca antes vistos nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar.
Os custos monetários e psicológicos complexos, dos níveis assustadores de endividamento, exaustão e disfunção familiar colocam a perspectiva de um futuro que não promete algum alívio económico. A Globalização significa que mais empregos americanos serão deslocalizados para outras partes à medida que atrai mais trabalhadores emigrantes à procura de emprego para os Estados Unidos. Os governos conservadores democratas e republicanos continuam a promover a globalização, imigração, cortes nas taxas principalmente sobre os negócios e as famílias mais ricas, e portanto mais cortes nos serviços sociais do Estado. A população trabalhadora dos Estados Unidos tornou-se crescentemente desesperada à medida que os enormes lucros tornados possíveis pelos salários em queda, queda dos impostos sobre as companhias e a globalização produziram uma bolha especulativa no mercado de acções que ainda aumentaram mais as desigualdades da riqueza americana e do rendimento. Se os trabalhadores esperavam que de alguma maneira a bolha especulativa pudesse melhorar ou aliviar o seu crescente sofrimento – os anos Clinton – esse sonho foi finalmente esmagado quando a bolha rebentou no início de 2000.
III.
Para os trabalhadores americanos, o colapso de qualquer perspectiva de que o aumento crescente do consumo pudesse compensar os seus níveis crescentes de exploração produziu uma maré de mudança de atitudes. O desespero procurou outras compensações. Nenhum movimento social significativo existia para acolhê-los e focar as suas energias críticas na direcção da esquerda. Á medida que o consumismo se escapava do seu alcance, à medida que a família se desintegrava, os trabalhadores viraram-se para as igrejas que prometiam alívio e conforto. Eram as igrejas fundamentalistas empenhadas em exercícios activos e messiânicos de “salvação” e de “redenção” e “transcendência pessoal” das circunstâncias da vida real tornada insuportável. Elas nomeavam os culpados pela situação e que deveriam ser derrotados nas eleições: os advogados dos casamentos dos homossexuais, os que apoiam o direito ao aborto, o liberais, os sem religião, os terroristas, os franceses, os muçulmanos, e outros amalgamados “eixos do mal.”
A religião fundamentalista tomou conta e medrou nos Estados Unidos como reacção e proposta às circunstâncias deterioradas e ao desespero – tal como estava a acontecer noutras partes do mundo por razões paralelas. Os trabalhadores perderam crescentemente primeiro confiança e depois interesse nas promessas económicas dos partidos políticos. Ao contrário eles perguntaram ao políticos e partidos se eles eram amigos, apoiantes e na verdade membros das igrejas fundamentalistas ou não. Os votos dos trabalhadores e as suas contribuições desviaram-se para os partidos e candidatos religiosos porque o fundamentalismo era tudo o que continuava a ter algum sentido.
Em estreita proximidade com a religião fundamentalista, como é habitual, estava o nacionalismo militante e a guerra ao estrangeiro ilustrada em termos religiosos de “cruzadas do bem contra o mal”. As guerras no Afeganistão e no Iraque orientadas para lhes trazer “liberdade, democracia, e anti-terrorismo”- que Bush definiu explicitamente como cruzada religiosa. As guerras dos Estados Unidos com o objectivo de expandir Deus, capitalismo, os interesses das companhias americanas, “liberdade, democracia e anti-terrorismo”- todos se coligaram numa campanha revivalista indiferenciada. Da mesma forma a Lei do Acto Patriótico erige grandes prevenções contra os demónios e diabos que resistam a uma campanha revivalista. A guerra trabalha bem se fornecer um uma competição entre o “bem” nosso e o “mal” deles; trabalha ainda melhor se “nós” formos os detentores da moral e da “nossa” religião contra a imoralidade e a religião “deles” que ameaça a “nossa”.
A eleição presidencial de 2004 representa o notável alcance de Bush e dos Republicanos em posicionar-se com campeões gémeos da religião fundamentalista e do nacionalismo militar. Eram sobretudo, os amigos da religião, dos “valores morais” da religião e dos seus militantes defensores. Eles estavam do lado do único apoio real e conforto que restava aos trabalhadores que se sentiam privados de qualquer forma material para sustentar as suas finanças e das suas famílias. Ao contrário de Bush e colaboradores serem olhados como aliados e servidores das forças capitalistas que produzem o sofrimento dos trabalhadores, eles foram pelo contrário como promotores de um fundamentalismo religioso para o qual os trabalhadores olhavam como única ajuda disponível. Bush e os republicanos focaram a maior parte da sua propaganda cultivando estas perspectivas entre os trabalhadores. Entretanto, os Democratas reciclaram velhas propostas para pequenos alívios económicos em que muitos trabalhadores já não acreditam.
IV.
Com certeza, nem todos os trabalhadores americanos se desenvolveram nestes caminhos. A eleição presidencial de 2004 ainda estava bastante empatada. Disputas sobre a inexactidão das contagens por máquinas “arranjadas” de voto reflectiam e reforçavam essa tendência de empate. O facto de que tantos trabalhadores ainda não se viraram para o fundamentalismo religioso pode ensinar aos Democratas e seus aliados tradicionais para pensarem sobre a construção de um movimentos de alternativa social, focado no fornecimento aos trabalhadores de soluções materiais aos seus problemas (empregos, segurança profissional baseada em ganho real de poder sobre as decisões de negócio, programas sociais suportados pelo Estado e assim por diante). Os democratas podem compreender de que a menos que articulem também um conceito alternativo de moralidade – que apoie uma versão laica do que constitui o bem e mal no mundo – o seu declínio acentuar-se-á. Eles podem encontrar coragem para identificar e atacar directamente as forças das empresas cuja vasta riqueza e poder não democrático mergulharam nas suas actuais condições de desespero. Eles podem denunciar os Republicanos como aliados destas forças. Podem expor o fundamentalismo religioso como máscara que visa oferecer aos trabalhadores uma compensação “espiritual” barata para as suas misérias em vez de fornecerem apoios reais, materiais de que precisam tão arduamente. Podem contrapor uma moralidade baseada no trabalho – no emprego e em casa – no pagamento decente por todo o trabalho, pelo reforço do poder dos trabalhadores em participarem na gestão do seu trabalho, no desvio dos impostos para taxar os rendimentos não ganhos a partir de acções e obrigações, e por construir comunidades à volta de programas sociais partilhados financiados pelas receitas dessas novas taxas.
Mas os democratas podem também decidir que é demasiadamente perigoso afastar-se dos seus apoiantes empresariais ao caminhar em tal direcção. Podem ter medo de “alienar” os fundamentalistas religiosos. Podem continuar na sua orientação básica e sofrer assim um declínio continuado, tal como os sindicatos americanos têm sofrido pelo sua paralela recusa em alterar a sua orientação básica.
Os Democratas podem não aprender as lições das eleições de 2004 e a história que está por detrás delas. Então, talvez, o momento histórico poderá ter chegar para que um novo partido político da esquerda que há tanto tempo faz falta e que impede o desenvolvimento de uma política genuinamente democrática nos Estados Unidos. A perspectiva de um segundo mandato para Bush motivou mais actividade entre o centro-esquerda do espectro político americano, mais participação da base tradicional do partido democrata, do que se viu em muitos anos. Ainda assim numa outra viragem dialéctica deste processo, a realidade do segundo mandato pode mobilizar a esquerda para um real impulso expresso numa nova organização política.
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