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Date Posted:25/10/04 16:53 In reply to:
José Manuel Faria
's message, "O Voto Secreto - artigo de Edgar" on 25/10/04 14:40
Na semana passada ficou a saber-se que a eleição do Comité Central no próximo Congresso do PCP vai ser feita por voto secreto. Apesar da Direcção do partido não esconder quanto isso lhe custa, "resistindo - como proclama - à aplicação das leis" dos partidos e do financiamento partidário aprovadas pela Assembleia da República e afirmando, em luto pesado, estar perante "um ataque frontal a um das aspectos essenciais da liberdade conquistada com o 25 de Abril", a verdade é que não lhe restava outra alternativa.
Este primeiro passo, embora contrafeito, que perturba a perpetuação antidemocrática do grupo que se assenhoreou da Direcção do PCP, necessita porém de ser ajuizado no contexto concreto que continua a caracterizar o funcionamento interno deste partido.
É que o facto do voto para a eleição do Comité Central passar a ser secreto não altera a situação (aberrante) dos delegados ao Congresso do PCP só poderem votar na lista única existente, composta por quase duas centenas de nomes, apresentada pela direcção cessante. Isto significa, salvo qualquer improvável novidade, que os delegados vão estar confrontados ou com a aprovação em bloco ou com a rejeição, também em bloco, dessa lista cozinhada que lhes é apresentada.
Ora a liberdade de cada um votar de acordo com a sua consciência é inseparável da possibilidade do aparecimento de várias candidaturas e da mobilização de apoios para elas. Sendo basicamente três as formas apuramento: com o número de eleitos de cada lista candidata apurado pelo método de Hondt; considerando eleitos todos os elementos da lista mais votada; ou através de lista supranumerária, em que a uma proposta base são acrescentados todos os outros nomes propostos, incidindo a votação secreta em cada nome individualmente e considerando-se eleitos os mais votados (é o método seguido em partidos comunistas que funcionam democraticamente, como é o caso do da África do Sul).
A Constituição portuguesa fixa imperativamente que "os partidos políticos devem reger-se pelos princípios da transparência, da organização e da gestão democráticas e da participação de todos os seus membros". Estabelecendo a lei dos partidos o dever da "assembleia representativa - o congresso, no caso do PCP - ser integrada por membros democraticamente eleitos pelos filiados" (artigo 26º), das "eleições e referendos partidários se realizarem por sufrágio pessoal e secreto" e das "eleições partidárias deverem observar regras" entre as quais se referem a "elaboração e garantia de acesso aos cadernos eleitorais em prazo razoável" e a "igualdade de oportunidades e imparcialidade no tratamento de candidaturas" (artigos 34º e 35º).
Nos últimos anos a Direcção do PCP, para além de ter imposto sanções por delito de opinião, marginalizou milhares de militantes por manifestarem opiniões críticas, chegando ao ponto de negar a muitos deles a cobrança da cotização para "provar" o seu afastamento. Agora organiza um congresso à margem de princípios democráticos básicos que vigoram na generalidade das organizações sociais e dos trabalhadores. As próprias assembleias para a eleição de delegados não possuem em geral uma composição definida, sendo o número de membros do partido determinado por regulamento a partir de uma média empolada em que figuram pessoas que há muito não pertencem ao partido ou que faleceram.
Não é dramático, para os comunistas, para a Esquerda, para todos os democratas, que um partido como o PCP, que deu no passado um contributo fundamental para a conquista da democracia no nosso país, tenha sido colocado pela actual Direcção na situação desprestigiante de receber lições e obrigações em matéria de democracia?
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