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Date Posted:13/08/04 20:51 In reply to:
José Manuel Correia
's message, "Re: Mercado sem assalariamento?!?..." on 13/08/04 16:51
Em primeiro lugar, a extensão não me preocupa nada pelo que não era preciso pedir desculpa...
Quanto às clarificações, vamos a ver se desta troca de ideias saímos os dois mais esclarecidos. Pela minha parte este tipo de exercício é para mim sempre extremamente salutar. Se, por tabelas outros aproveitarem, tanto melhor.
Diz o J.M.Correia:
“Produzir excedentes não é equivalente de efectivar acumulação. Mas a acumulação, a reaplicação produtiva do excedente com vista a mantê-lo ou ampliá-lo, não teve apenas origem na pilhagem e na trapaça (embora não se possa esquecer o seu contributo para o desenvolvimento acelerado do capitalismo)”.
Digo eu:
Tem toda a razão... Durante séculos muitos excedentes eram simplesmente aplicados em ostentação ou convertidos naquilo que os antropólogos gostam de chamar “capital simbólico” ou para reforçar “redes de reciprocidade”...
É irónico que muito desse “capital simbólico”. (por exemplo, as “toneladas” de artefactos de ouro dos Incas) acabasse por ser rencaminhado (por pilhagem pura e simples) para “lubrificar” o processo de acumulação “interno à Europa”.
Diz a certa altura J.M.Correia
“O que quero dizer, no fundo, é que o produto excedente não proveniente da EXPLORAÇÃO DO TRABALHO ALHEIO foi aplicado na acumulação” (sublinhado meu).
Mais adiante, diz ainda
“alguma confusão em relação ao conceito "exploração", que sempre foi usado para significar apropriação do produto excedente por outrém que não o seu produtor, portanto, o inverso do que afirma”.
Digo eu:
Estará aqui uma causa de uma nossa aparente divergência. É que no caso dos mercadores viandantes ou dos artezãos (por exemplo e que se exploravam a si mesmos e aos membros da família alargada) eu alinho com aqueles autores (marxistas e não-marxistas) que definem essa situação como de “auto-exploração”.
Ou seja, “exploração há sempre”. Nuns casos explora-se trabalho alheio, noutros explora-se trabalho próprio.
Onde a nossa divergência já será MUITO mais profunda é quando J.M.Correia diz:
“O que me afasta da conceptualização marxista é o facto de Marx ter posto a ênfase da exploração na apropriação pelo capitalista do produto excedente criado (gerado) pela força de trabalho. Através de simples raciocínios lógicos pode demonstrar-se que esta acepção marxista está errada (não de agora, mas desde sempre), pois o que caracteriza a exploração é o condicionamento (extra-económico, logo político) do valor de troca de certas mercadorias, onde se inclui a força de trabalho, e é precisamente a troca desigual que caracteriza o capitalismo.”
E mais adiante:
“Daqui a discordância com outra acepção marxista de que as mercadorias se trocam pelo seu valor. É que se assim fosse a troca seria uma mera troca de equivalentes onde eventualmente todos seriam produtores e as assimetrias de desenvolvimento, a existirem, seriam bem menores, e o capitalismo... não seria capitalismo”.
Digo eu:
Peço imensa desculpa mas tudo isto exigiria uma discussão demasiado extensa para poder ser aqui detalhada. Tenho assim que remeter para a discussão da Teoria (laboral) do Valor, onde os clássicos do marxismo explicam como é que o salário de subsistência é efectivamente o valor real e efectivo da força de trabalho que é alugada por determinada unidade de tempo. Sendo que esse “salário de subsistência” vai evoluindo ao longo das décadas consoante vão evoluindo as necessidades básicas para se efectivar a reprodução da força de trabalho.
Ou seja, há mesmo troca de iguais. (vidé " Ronald Meek "Studies in the Labour Theory of Value" e a sua extensa polémica com a economistas não-marxista Joan Robinson. Esta conhecida autora keynesiana, pensava que não era precisa a Teoria (laboral) do Valor para chegar às mesmas conclusões sobre o Capitalismo), Mas adiante...
Isto não quer dizer que não haja uma permanente luta de classes no sentido de pagar o menos possível (ou sacar o mais possível...). Havendo “luta de classes”, (e sempre há...) surge necessariamente a intervenção do poder político. Essa intervenção causa desvios matemáticos em relação à média ponderada para que tende o “valor de troca” de qualquer mercadoria (incluindo-se aí a força de trabalho). Desvios esses que ora aproveitam a uns, ora aproveitam a outros... Mas esses desvios não invalidam a teoria explicativa dos mesmos e do processo central.
Ou seja, em termos epistemológicos, não se trata aqui da situação aberrante, da suposta sabedoria popular, que diz “são as execepções que confirmam a regra”. Trata-se, isso sim, da explicação "das excepções, elas mesmas"!!!
Mais adiante, refere J.M.Correia (e com toda pertinência!), a questão das diversas ou distintas composições orgânicas do capital – as distintas combinações de factores produtivos – assim como a produção da própria “força-de-trabalho”.
Mas diz a certa altura a esse respeito:
“Embora não possam ser quantificados – os factores produtivos - não quer dizer que o seu valor não possa ser fixado pelos seus detentores, de modo a entrarem na formação do valor de troca da força de trabalho”
e a seguir:
“Embora não possam ser quantificados não quer dizer que o seu valor não possa ser fixado pelos seus detentores, de modo a entrarem na formação do valor de troca da força de trabalho”.
E ainda:
“Só que a dispersão dos produtores desta mercadoria, a sua existência em quantidade independente da procura, a necessidade extrema do produtor, etc., etc., faz com que o seu valor máximo seja fixado pelo Estado do capital (através da conjugação salário-período de trabalho)”.
Digo eu:
Em relação a estas reflexões de J.M.Correia, importa assinalar a nossa discordância relativamente à alegada “não possibilidade de quantificação” (dos factores produtivos da própria mão de-obra.
Embora os detalhes todos se encontrem nas diversas discussões da Teoria (laboral) do Valor, penso que o J.M.Correia certamente condordará comigo em que, “em alguma coisa se hão-de basear os detentores da força-de-trabalho para fixar o seu valor”!...
Devo também referir que a dispersão (social e geográfica) dos diversos processos produtivos de TODAS as mercadorias, dá naturalmente origem a diferenças significativas nos racios de aproveitamento e apropriação das mais-valias (ou execedentes...), por parte de todos aqueles em posições de controle, quer dos processos, quer dos fluxos. O que se passa com os saldos e as 'rebajas' de artigos de consumo, passa-se também (à escala planetária) com a mercadoria “mão-de-obra”.
Diz a certa altura J.M.Correia, algo que me deixou baralhado:
É assim
“Não é o facto de o Estado, hoje em dia, fixar salários mínimos e períodos de trabalho máximos que DESMENTE (sublinhado meu) a sua intervenção na regulação extra-económica da força de trabalho”.
Digo eu:
Eu diria que essa fixação, não só não desmente, como até confirma a tal intervenção sistemática do Estado na regulação da economia. Presumo que se tratará de um erro de redacção!
Diz a concluir J.M.Correia:
”Tão pouco sou apologista do modo de produção capitalista nem enquanto objecto teórico formal abstracto, nem das sua variantes real-concretas, mas também não sou apologista de qualquer socialismo ou comunismo, quer enquanto objecto teórico formal abstracto, quer nas suas variantes real-concretas. A organização económica-social não é objecto que se produza a gosto, mas produto de miríadas de lutas de interesses nos mais variados campos que lhe dão forma ao longo de tempos que não se compadecem com a bitola das nossas vidas”.
Digo eu:
Estamos de acordo em algumas coisas, estaremos em desacordo quanto a outras.
Também não sou apologista do modo de produção capitalista. Reconheço apenas o seu importantíssimo papel histórico. E procuro também perceber – para já - como veio a desenvolver-se e o porquê das circunstâncias históricas concretas em que se desenvolveu e continua a desenvolver.
Quanto a
“ser escusado construir novos objectos sociais ideais”
Estamos só parcialmente em desacordo. Mas se calhar de uma forma MUITO profunda.
Devo dizer que – até como Sociólogo - encaro com algum cepticismo as diversas tentativas de engenharia social (porque é disso que se trata) que têm sido experimentadas.
Mas isso não me impede (antes pelo contrário) de reflectir sobre alternativas ao mundo que temos e de procurar contribuir para a sua evolução “para melhor”.
Respeito o “imediatismo” (à falta de melhor palavrão...) que parece transparecer das suas últimas reflexões, mas espero que concordará em que, muito provavelmente, o sucesso
“das tais lutas concretas por objectivos concretos que ajudam a desconstruir o que de mau tem o capitalismo realmente existente, que é muito”,
levará a qualquer coisa de diferente que já não será “Capitalismo”. Embora eu suspeite que os meus tetranetos poderão vir a viver em pleno SOCIALISMO sem que lhe digam o nome...
Cordiais saudações,
Guilherme Statter
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