| Subject: De acordo e sem dúvidas |
Author:
João Laveiras
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Date Posted: 15/07/04 22:05
In reply to:
Aurélio Santos, Avante 15/07/04
's message, "À coca" on 15/07/04 20:19
Imaginem, eu a concordar com o Aurélio Santos.
Mas, sendo honesto, tenho de o admitir.
>À coca
>Aurélio Santos, Avante 15/07/04
>
>Os abutres nem estavam à espera. Estupefactos da sorte
>a cair-lhes nos braços (ou já estavam à espera?),
>incrédulos ainda da vitória de bolso - e da Bolsa -
>que se contiveram com frases de conveniência tiradas à
>medida da ocasião: um presidente eleito pela esquerda
>aderindo, em decisão inédita, a uma coligação de
>direita!
>
>Mas disse que ficava à coca.
>
>Responsabilizou-se pelo agravamento da situação
>política e social. Mais: solidarizou-se com esse
>agravamento e suas consequências previsíveis. As
>lágrimas vertidas ante alguns casos mais pungentes
>apagaram-se no lenço.
>
>Mas disse que ficava à coca.
>
>Sabia, até por ter ouvido dizer por aí, que o
>eleitorado não votou na política governamental destes
>dois anos. Votou em promessas não cumpridas. E
>desejava eleições para mudança de política. Ouviu
>cérebros de fio a pavio que o aconselharam. Foi só um
>faz de conta?
>
>Sempre dizendo que estava à coca.
>
>E a malta, à espera, dizia à boca cheia que era
>impossível haver regular funcionamento das
>instituições democráticas quando os problemas mais
>graves se agravaram e se vão agravando dia a dia.
>
>Mas se ele estava à coca, tudo se poderia arranjar...
>
>O pior foi quando ele, naquela noite negra, veio dizer
>que o voto de há dois anos é que era legítimo, válido,
>perfeito, servia muito bem para formar novo governo,
>nem eram necessárias novas eleições. A política
>seguida era boa e devia continuar.
>
>Mais acrescentou que ficava à coca. Livrassem-se estes
>novos governantes de alterar as políticas dos
>anteriores! E acentuou que na Europa, na política
>externa, na defesa, na justiça, ou continuava tudo
>como tem sido feito até agora ou ele, que fica à coca,
>então sim, utiliza todos os seus poderes
>constitucionais para repor tudo nos conformes...
>
>Ai! Ele até era respeitado, mas agora qualquer
>decisão, boa (ah!) ou má que o governo venha a tomar,
>colar-se-lhe-á à pele. Fez uma tatuagem indelével que
>ninguém de bom senso conseguirá apagar. Entre as duas
>setas atravessou num coração a frase comovente: «amor
>coligado».
>
>E os abutres acariciam-lhe respeitosamente o punho
>direito tatuado, esperando assinaturas em documentos
>burocráticos para a «continuidade na involução»,
>enquanto murmuram gravemente: «Assim é que é, vá
>ficando à coca»...
>
>E andou-se tanto a falar de auto-estima...
>
>Até agora, muita gente dizia que vivíamos numa
>república de bananas. A partir desta transmissão
>dinástica, em que o ex-1.º designa o sucessor, bem
>podem dizer que estamos numa monarquia de bananas.
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