| Subject: Re: E Portugal Segue Dentro de Momentos... |
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Che
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Date Posted: 16/07/04 13:51
In reply to:
Miguel Sousa Tavares
's message, "E Portugal Segue Dentro de Momentos..." on 16/07/04 9:52
O Miguel acertou na mouche, como acerta quase sempre. Sem papas na lingua chama os bois pelos nomes. O único problema é que fica pela análise e não chega aos finalmente.
E os finalmente é que esta 3ª republica está podre e não tem salvação possivel.
Esta escumalha de canalhas mafiosos que nos desgoverna à 30 anos conduziu este país à inviabilidade politica, económica e social.
Morte à 3ª republica!
>E Portugal Segue Dentro de Momentos...
>Por MIGUEL SOUSA TAVARES
>Sexta-feira, 16 de Julho de 2004
>
>Nestas coisas do amor à pátria tenho uma noção um
>bocado antiquada e simplista: acho que o amor à pátria
>consiste em estar disposto a servi-la em caso de
>necessidade sem perguntar primeiro "quanto?", em
>declarar tudo o que se ganha ao fisco, em votar nas
>eleições, nem que seja em branco, em defender, por
>palavras e actos concretos, o seu património
>histórico, natural e cultural. A onda de histeria
>patriótica que invadiu o país a propósito do Euro
>deixou-me meio perplexo, como no dia 26 de Abril de
>1974, ao descobrir, igualmente nas ruas, que, afinal,
>todo o país era composto de resistentes à ditadura. O
>patriotismo das emoções e das multidões é certamente
>mais fácil do que o patriotismo dos deveres
>serenamente cumpridos. Até porque o primeiro dura o
>espaço de um acontecimento e o segundo a vida toda.
>
>Cavalgando a onda de emoção patriótica, o Presidente
>Sampaio, lágrima ao canto do olho, condecorou como
>heróis nacionais e símbolo do tal "patriotismo
>moderno" que ele propõe os jogadores e técnicos da
>selecção nacional, que, jogando com todas as vantagens
>do seu lado, cometeram a proeza de ganhar três jogos à
>tangente, empatar um e perder dois. E muita gente que
>inesperadamente se deixou contaminar por essa onda do
>patriotismo das bandeirinhas acordou passados uns dias
>para o pesadelo real da moscambilha política cozinhada
>por Barroso e Santana e consentida por Sampaio.
>Portugal regressou assim, de um só golpe, à sua triste
>realidade.
>
>O que há de comum entre Barroso, Santana e Sampaio é
>que todos três são emanações do mundo partidário, sem
>correspondência no mundo dos cidadãos. Salvaguardando
>o passado profissional e o percurso de resistente de
>Sampaio no antigo regime (que nunca é de esquecer),
>todos três atingiram o cume da carreira política por
>sobretudo terem sabido estar no lugar certo e na
>posição partidária certa, no momento adequado. E,
>enfim, todos três mostraram estar imediatamente
>disponíveis para abandonar as funções públicas para as
>quais haviam sido eleitos, quando no horizonte lhes
>surgiu a oportunidade de qualquer coisa de melhor ou
>mais grandioso. Talvez por isso, por essa origem comum
>no mundo partidário, nenhum dos três terá
>verdadeiramente percebido a genuína e instintiva
>revolta surda que os respectivos desempenhos nesta
>tragicomédia geraram entre tanta gente de bem.
>
>Muitos dos votantes de Sampaio - e até muitos outros
>que, não tendo votado nele, estavam contudo indignados
>com o negócio privado que Barroso e Santana lhe
>propunham - quiseram iludir-se até ao fim, acreditando
>que o Presidente não caucionaria uma solução que,
>sendo embora possível e constitucional, era
>politicamente ilegítima e eticamente chocante.
>Quiseram acreditar que Sampaio não cederia a esquecer
>as razões dos que nele haviam votado, sob pena de
>esvaziar para o futuro qualquer sentido político da
>eleição presidencial por sufrágio universal. E que não
>premiaria a indecente deserção do primeiro-ministro,
>que, saindo de uma demolidora derrota eleitoral, havia
>jurado publicamente, semanas antes, que entendera a
>mensagem e iria redobrar esforços ao serviço de uma
>boa governação. Quiseram acreditar que Sampaio não se
>tinha comprometido previamente com Durão Barroso -
>como este deixou bem implícito -, que o
>primeiro-ministro poderia ir à sua vida sem problemas,
>que ele ali estaria para aceitar a solução
>dinástico-partidária que lhe apresentassem, mesmo que
>ela não tivesse qualquer sustentação, real ou
>presumida, na vontade dos governados.
>
>Eu - confesso-o com toda a sinceridade - nunca esperei
>de Sampaio outra coisa que não aquilo que ele acabou
>por fazer. A sua decisão foi a única condizente com
>todo o seu passado político em democracia, de homem
>temente das rupturas, das clarificações, dos conflitos
>regeneradores. Foi assim o seu mandato na Câmara de
>Lisboa, tem sido assim o seu mandato em Belém. E se o
>primeiro acabou porque lhe surgiu a oportunidade da
>Presidência, o segundo acabou já também, de facto, com
>o seu suicídio político de sexta-feira passada. O
>"droit de regard" que diz manter sobre a governação de
>Santana Lopes não passa de uma tentativa de se iludir
>a si próprio e mais ninguém. Tudo o que daqui para
>diante ousar contra esse Governo terá sempre a imagem
>cruel de uma tardia emenda e de uma inútil tentativa
>de sossegar retroactivamente a sua consciência. Nunca
>um Presidente se havia colocado assim nas mãos de uma
>maioria e de um governo. Sampaio entregou literalmente
>o jogo; deixou-se destrunfar e destrunfou-nos a nós
>todos. Com uma agravante: é que o cidadão Jorge
>Sampaio, que eu sempre respeitei e respeito,
>independentemente de discordâncias políticas, sabe que
>caucionou perante o país uma solução que representa o
>triunfo do oportunismo, do caciquismo partidário e da
>mediocracia. Ele acaba de entregar a gestão do país e
>do Estado a quem nunca deu provas de respeitar a
>gestão da coisa pública, a quem nunca mostrou noção de
>serviço público e, pelo contrário (basta ter lido os
>artigos semanais de Santana Lopes no "Diário de
>Notícias" para o perceber), sempre entendeu o
>desempenho de cargos públicos como sucessivos
>trampolins para a sua carreira pessoal.
>
>Ou seja, o mesmo Presidente que, quinze dias atrás,
>apelava ao patriotismo das bandeirinhas, convoca-nos
>agora para continuarmos de bandeiras ao alto, a
>acreditar que a pátria pode ser servida por quem
>obteve o seu mando pelas piores razões e por quem
>esgota os seus méritos políticos conhecidos na longa e
>insidiosa sedução dos "lobbies" e das estruturas
>partidárias, movidas pela mediocridade e pela ambição.
>
>Leio que dos 109 conselheiros nacionais do PSD, dois
>fugiram a dar a cara, dois abstiveram-se e 105 votaram
>a favor de Pedro Santana Lopes para primeiro-ministro.
>Dezenas ouvi eu num passado recente prometerem guerra
>sem tréguas à insaciável ambição de poder de Santana
>Lopes: mas, ou desistiram e se conformaram, aceitando
>que há momentos em que o partido pode ser mais
>importante que o país, ou estão já prontos a servir-se
>das benesses do poder, sob as suas múltiplas e cada
>vez mais explícitas formas. Leio que o próprio Santana
>Lopes jurou na RTP que um dos seus vícios é "trabalhar
>muito" e que deixou "obra feita" em Lisboa. Leio que
>Durão Barroso anda a seduzir os Verdes europeus
>jurando que sempre foi ambientalista e a seduzir os
>sociais-democratas jurando que é contra "a arrogância
>e o unilateralismo americano" (tê-lo-á dito ao seu
>amigo George?). Constato, pois, que já vale tudo e
>tudo será perdoado: as solenes promessas quebradas sem
>qualquer pudor; os cargos confiados pelos eleitores
>que se abandonam à primeira oportunidade de benefício
>pessoal; as mentiras, públicas e notórias, ditas com a
>maior desfaçatez; a ascensão partidária, rumo ao
>poder, alicerçada nas promessas feitas a todos os
>"lobbies" e sustentadas nos dinheiros dos pagadores de
>impostos; a mais venal confusão entre o Estado, o
>partido, os escritórios de advogados e os interesses
>clientelares do orçamento público. Estamos a um passo,
>a um passo apenas, da fronteira final do "fartar
>vilanagem".
>
>E constato que vou ter a governar-me na Câmara de
>Lisboa alguém que nem sei quem é; a primeiro-ministro
>alguém que apenas se candidatou à Câmara de Lisboa; na
>presidência da Comissão Europeia alguém que foi o
>maior derrotado das eleições europeias, alguém que na
>hora decisiva se pôs ao lado da "arrogância e do
>unilateralismo" americano contra a Europa e alguém que
>jurou aos portugueses que não fugia, como o seu
>antecessor. E na Presidência da República alguém que
>se esqueceu de quem e porquê o elegeu. Ou seja:
>ninguém, de facto, me representa e, todavia, eu votei
>em todas as eleições. Entre mim e esta democracia há
>qualquer coisa que não bate certo. Ou será entre mim e
>o "patriotismo moderno"?
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