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Date Posted: 12:33:19 11/04/07 Sun
Author: Graciele
Subject: Re: Reforma ortográfica
In reply to: Rogéria 's message, "Re: Reforma ortográfica" on 12:58:38 11/03/07 Sat

Também concordo com vc, Rogéria. Os dois autores, Cagliari e Magda são contrários a reforma ortográfica, apresentado um embasamento para isso.

Pelas duas entrevistas que pudemos ler, esta do Luiz
>Carlos Cagliari e a de Magda Soares, podemos concluir
>que os "entendidos" são contrários à reforma
>ortográfica e suas opiniões estão muito bem
>respaldadas.
>
>Recebi sobre o tema no e-mail esta reportagem , achei
>>interessante:
>>
>>
>>
>>fonte: Agência FAPESP
>>
>>Para Luiz Carlos Cagliari, da Unesp, o Acordo
>>Ortográfico da Língua Portuguesa, que deverá
>>padronizar o idioma em oito países a partir de
>>2008, não tem base científica e trará mais transtornos
>>do que benefícios
>>
>>Entrevistas
>>
>>Ruídos lingüísticos (com trema, por enquanto)
>>
>>29/08/2007
>>Por Fábio de Castro
>>
>>O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foi
>>assinado em 1990 para uniformizar o registro
>>escrito nos oito países que falam o idioma:
>>Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau,
>>Moçambique, Portugal, Timor Leste e São Tomé e
>>Príncipe. A implementação do acordo, adiada
>>diversas vezes desde 1994, poderá ocorrer a
>>partir de janeiro de 2008 nos três países da
>>Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP)
>>que já ratificaram o protocolo: Brasil, Cabo Verde e
>>São Tomé e Príncipe.
>>
>>Facilitar o processo de intercâmbio cultural e
>>científico entre os países e garantir a
>>divulgação mais ampla do idioma são os principais
>>objetivos da unificação ortográfica que, entre
>>outras decisões, elimina o acento circunflexo em
>>palavras paroxítonas terminadas em "o" duplo
>>(como "vôo" e "enjôo"), extingue o trema e inclui
>>as letras K, Y e W no alfabeto.
>>
>>Para o Ministério da Educação brasileiro, a
>>divergência de ortografias do português
>>prejudicaria sua divulgação e prática em eventos
>>internacionais. As mudanças necessárias em livros
>>escolares e arquivos de editoras seriam
>>compensadas pela atenuação do alto custo da
>>produção de diferentes versões de dicionários e
>livros.
>>
>>Mas a resistência é grande em alguns meios,
>>principalmente em Portugal, onde haveria o maior
>>impacto na língua – com o acordo, desaparecem o
>>"c" e o "p" não pronunciados, como em "acção" e
>>"baptismo". Os portugueses precisarão também
>>trocar a grafia de "húmido" por "úmido".
>>Para alguns especialistas, a reforma traria
>>benefícios desproporcionalment e pequenos em
>>relação às dificuldades que representaria. "Em
>>uma reforma, ninguém ganha e muitos perdem",
>>afirmou Luiz Carlos Cagliari, professor do
>>departamento de Lingüística da Faculdade de
>>Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista
>>(Unesp), em Araraquara.
>>
>>Para o professor, a reforma é desnecessária e se
>>fundamenta em um grande desconhecimento da
>>natureza, das funções e dos usos da ortografia.
>>Especialista em fonética e fonologia, Cagliari
>>publicou 11 livros e atua na pesquisa em sistemas
>>de escrita, prosódia, ortografia e na história da
>>ortografia da língua portuguesa.
>>
>>Agência FAPESP – Há base científica para as
>>modificações contempladas pelo acordo?
>>
>>Luiz Carlos Cagliari – As reformas ortográficas
>>têm sido feitas sem o conhecimento científico do
>>que vem a ser a ortografia. Desse erro original
>>deriva uma série de equívocos. Mas a questão
>>fundamental não é se as mudanças serão feitas em
>>determinadas regras. O fundamental é saber se há
>>necessidade de mudança. Os argumentos dados para
>>justificar uma reforma como essa são, em geral,
>falhos.
>>
>>Agência FAPESP – Poderia dar exemplo desses
>argumentos?
>>
>>Cagliari – Um deles é "facilitar o uso da
>>língua". Mudar a ortografia não facilita a vida
>>de ninguém, porque a ortografia não representa a
>>fala de ninguém. É simplesmente uma representação
>>gráfica que permite a leitura. Não vou ler Camões
>>na pronúncia dele, mas na minha. Como todos fazem
>>isso, a ortografia não representa a pronúncia de
>>ninguém.
>>
>>Agência FAPESP – A unificação não facilitaria a
>>comunicação diplomática entre os países?
>>
>>Cagliari – Unificar a ortografia é um equívoco.
>>Apesar de seguir regras de uso, tiradas de uma
>>tradição, a ortografia, como a linguagem em
>>geral, sofre transformações no tempo e no espaço.
>>A história da ortografia mostra que a escrita se
>>transforma continuamente. Veja, por exemplo, os
>>corretores ortográficos dos computadores, que
>>apresentam variação de opções de ortografias
>>regionais para línguas como o inglês e o francês,
>>ambas tradicionais. O inglês tem uma ortografia
>>britânica e outra americana, ambas tradicionais.
>>Então, por que precisamos ter apenas um modelo? O
>>problema diplomático atinge somente a língua
>>portuguesa? Ou é um falso problema?
>>
>>Agência FAPESP – Alguns críticos dizem que a
>>reforma forçará uma mudança em todos os livros
>>didáticos, dicionários e arquivos de editoras,
>>mas que seria uma reforma superficial, que não
>>chegaria a cumprir o objetivo de padronizar a língua.
>>
>>Cagliari – A idéia de simplificar a ortografia é
>>uma ilusão desse tipo de reforma ortográfica.
>>Talvez a única simplificação seja a abolição do
>>trema – que ainda terá exceção. Isso não
>>representa grande coisa. Na realidade, não
>>precisaríamos de sinal algum além das letras. Nem
>>acento, nem trema. O inglês não tem sinais
>>diacríticos e não cria problemas aos usuários.
>>
>>Agência FAPESP – A reforma só faria sentido, então, se
>>fosse mais profunda?
>>
>>Cagliari – Há grandes confusões nas bases ou
>>regras da língua, com relação ao hífen, por
>>exemplo. Poderia haver apenas uma regra que
>>dissesse que as palavras compostas por composição
>>levam hífen e as compostas por derivação não
>>levam. O uso de acento gráfico em português
>>também gera confusão. Há um número enorme de
>>regras, todas desnecessárias, porque o falante
>>sabe onde cai o acento nas palavras e quais
>>vogais são abertas ou fechadas. Tirar uma regra ou
>>outra não muda muito.
>>
>>Agência FAPESP – As dificuldades de implantação
>>da reforma são grandes demais comparadas aos
>>benefícios?
>>
>>Cagliari – Venho dizendo há décadas: o melhor é
>>não mexer na ortografia, não fazer leis, deixar a
>>tradição – recomendada pelos dicionários,
>>gramáticas, vocabulários ortográficos – fazer sua
>>história. Hoje, temos que lidar com e ler muitos
>>documentos antigos, escritos em outras
>>ortografias, e nada disso perturba, nem mesmo os
>>juristas, que precisam desses documentos para se
>>pronunciar em processos.
>>
>>Agência FAPESP – A ortografia deveria se basear na
>>tradição e não em leis?
>>
>>Cagliari – Seria melhor. Os usuários agem da
>>seguinte forma: ou sabem escrever – e o fazem com
>>certeza – ou têm dúvidas. Nesse caso, não adianta
>>pensar, a solução é olhar no dicionário e não
>>ficar procurando regras nas gramáticas. As
>>regras, estudadas apenas em alguns momentos da
>>escola, ajudam. Mas, na hora da dúvida
>>ortográfica, o que salva os usuários comuns não
>>são as regras, mas o conhecimento de outros
>>fatores, como a etimologia e a comparação.
>>
>>Agência FAPESP – Entre as mudanças propostas,
>>quais o senhor considera mais impactantes? Nenhuma
>>delas é imprescindível?
>>
>>Cagliari – Em uma reforma, ninguém ganha e muitos
>>perdem. No caso desse acordo, nenhuma mudança
>>sugerida é necessária. Poderíamos ficar com o que
>>tínhamos e nada mudaria. A grande confusão veio
>>quando resolveram transformar a ortografia em
>>lei, um absurdo tão grande quanto o fato de terem
>>tornado oficial uma nomenclatura gramatical
>>brasileira. Uma aberração sem tamanho.
>>
>>Agência FAPESP – A maior resistência à reforma
>>vem de Portugal. Por que isso ocorre? O senhor
>>vê, como alguns, uma "brasilificaçã o" da língua com
>>essa reforma?
>>
>>Cagliari – Estive em reuniões em Portugal com
>>acadêmicos e escritores que discutiam a
>>unificação. Eles acham a reforma totalmente
>>desnecessária. De fato, esta reforma, ao
>>contrário da feita na década de 1910, representa
>>um gesto brasileiro contra a tradição da língua.
>>Para uma pessoa culta, a escrita traz as marcas
>>da pátria, da história, e isso fica prejudicado
>>por leis que pretendem que todos sejam iguais.
>>
>>Agência FAPESP – A padronização tornará os livros
>>atuais obsoletos?
>>
>>Cagliari – Isso é um problema que decorre, como
>>todos os outros, de transformar a ortografia em
>>lei e não da reforma ortográfica em si mesma.
>>Alguém poderia propor alterações na grafia das
>>palavras e, se os usuários passassem a aderir,
>>com o tempo viraria tradição, como sempre
>>ocorreu. Se não for oficial, a ortografia pode
>>aparecer de modos diferentes e os livreiros não
>>precisam jogar nada no lixo. Nem precisaríamos
>>jogar fora os livros escolares de nossas
>>bibliotecas escolares porque estão com a ortografia
>>errada.
>>
>>Agência FAPESP – Quem sofrerá maior impacto com a
>>reforma?
>>
>>Cagliari – Os literatos sofrerão mais, porque a
>>ortografia também pode ter valor estilístico,
>>como vemos em autores como Saramago. Por outro
>>lado, em um país em que grande parte da população
>>não lê, uma reforma ortográfica vem perturbar apenas
>>os letrados.
>>
>>Agência FAPESP – Tivemos reformas em 1919, 1943 e
>>1971. O português muda demais?
>>
>>Cagliari – Poderíamos ter seguido o exemplo das
>>línguas francesa e inglesa que, apesar da longa
>>tradição de brigas por reformas ortográficas, se
>>mantêm há séculos sem grandes mudanças. Mas
>>entramos em um caminho errado. Isso ocorre
>>porque, para entender a ortografia, precisamos
>>saber que a leitura não é transcrição fonética
>>nem semântica, portanto basta reconhecer na
>>escrita o que o usuário fala. A ortografia foi
>>criada para neutralizar a variação lingüística:
>>não interessa se você fala "tia" ou "tchia". A
>>escrita é uma só: tia. A letra "A" representa o
>>som de todos os "As" falados em todos os dialetos
>>em todas as palavras da língua. Assim, na palavra
>>"acharam", que se pronuncia "acharu", o "A" tem o som
>>de "U".
>>
>>Agência FAPESP – Quanto tempo uma reforma dessas
>>deve levar para ser assimilada pelas populações?
>>
>>Cagliari – Em relação à reforma de 1919,
>>constatamos que somente na segunda metade do
>>século 20 as pessoas aderiram de fato. E nem
>>todas. As publicações só adotaram a reforma 50
>>anos depois. Nas reformas posteriores, a
>>intervenção do Ministério da Educação nas
>>escolas, nos livros e nas editoras foi
>>ameaçadora, como é hoje: ou tudo ou nada. Com
>>relação às pessoas cultas, a reforma começa logo,
>>por força social. Na escola, é um grande problema
>>para os professores e menor para os alunos, que
>>não precisam modificar o que sabiam antes. Para o
>>povo, pouco interessa. Muitos continuarão
>>escrevendo fora de qualquer padrão tradicional ou
>>imposto por lei, mas de acordo com hipóteses que
>>fazem de como podem escrever para alguém ler e
>>entender o que eles querem dizer.

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