Subject: Re: incipiência e construção de um programa
Author:
João Aguiar
[
Next Thread |
Previous Thread |
Next Message |
Previous Message
]
Date Posted:12/12/04 21:20 In reply to:
paulo fidalgo
's message, "incipiência e construção de um programa" on 12/12/04 8:36
«Acho um tanto simplificador recusar-se assim tão depresa as ideias de cidadania, de multipartidarismo e outras "categorias burguesas" sem uma discussão mais profunda do seu significado.»
Se é certo que o aprofundamento da crítica de conceitos como cidadania ou multipartidarismo terá de prosseguir, isso não significa a sua aceitação. Ou seja, não podemos, de forma alguma, colocar os objectivos da dita cidadania burguesa à frente da luta de classes. Aliás se quisermos ser mais rigorosos no tratamento destas questões, teremos de afirmar que a cidadania é um entrave enorme à luta de classe proletária. Isto porque a cortina que encobre o 'cidadão' é uma mistificação. Esta ideologia contribui, e de que maneira, para a criação de percepções incorporadas pelo operariado, que estabelece que somos todos iguais perante a lei e na sociedade, ao mesmo tempo que apaga o carácter de classe do Estado. Assim, a inculcação de esquemas mentais que se baseiam na assumpção da procura de minorar as desigualdades entre a burguesia e o proletariado, só ajudam a desviar a luta política das classes trabalhadoras. O proletariado, e as suas organizações não têm de lutar para que o patrão, visto como um igual, seja mais bonzinho e porreiro e aumente o salário mais 0,5% em relação à inflação. No fundo, alinho com o Barbas, que instado a comentar o lema da Liga dos Justos ('Todo o homem é meu irmão'), disse que há homens (a burguesia) não são seus irmãos.
Ora, é um erro atribuir prepoderância à luta por mais direitos sociais e políticos (ficando-se por aí), quando o que se trata é de criar um movimento que utilize as questões concretas do dia-a-dia que afligem os trabalhadores para apontar o dedo ao capitalismo como a raiz desses problemas e que só através de uma revolução social e política - portanto de derrube do estado - e posterior poder político dos produtores. Isto é que é a luta política e não a procura de mais lugares no parlamento e de coligações com o PS (partido burguês) - este é um problema que afecta, se bem que com diferentes tonalidades, o PCP, o BE e a RC.
«reivindicações não classistas, como as questões de género, ambiente, as questões nacionais e muitas outras e esse esforço de cruzar o programa de classe com outros, parece-me de prosseguir»
Caramba! Eu pensava que o capitalismo era um modo de produção que se baseava na exploração de trabalho não pago para produzir valor. Mas afinal essa centralidade estrutural tanto pode ser o antagonismo de classe como a luta pela legalização do cannabis, etc. Agora a sério. O primado do económico é uma realidade. O capitalismo só existirá enquanto conseguir produzir incessantemente mais-valia suficiente para evitar a tendência decrescente da taxa de lucro. Evidentemente o económico não reduz as restantes esferas da sociedade a esse domínio, apenas significa que, numa situação de hierarquização das instâncias, o cumprimento eficaz do movimento económico do D-M-D' sobrepõe todas as outras instâncias a esse imperativo. Na prática, a luta de classes sobrepõe-se às medidas pelo 'equilíbrio' do sistema.
Por outro lado, todas as questões como o género ou o ambiente estão interligadas à classe. Eu não diria que são extra-classistas mas, numa formação social capitalista, estão subordinadas ao imperativo de produzir e realizar mais-valia. Basta ver a destruição dos recursos naturais provocada pela gula de matérias-primas que o capital tem. Ou o importante papel da mulher, para o capitalismo, na reprodução da força de trabalho. Ainda mais porque hoje está submetida à dupla jornada de trabalho. Primeiro no seu local de trabalho, aonde é explorada como qualquer homem e, depois, em casa, pois é a mulher, em clara maioria, quem trata dos putos e da lida da casa.
Poderia falar de muito mais, mas fico-me por aqui.