Author:
CORREIA DE CAMPOS
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Date Posted: 17/12/04 19:40
In reply to:
Jorge Sampaio
's message, "Comunicação ao País do Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio - 10 de Dezembro 2004" on 11/12/04 14:37
Aos primeiros sinais de possível reviravolta no eleitorado, surgem os vira-casacas e os clamores da "viradeira". Dos primeiros ainda é cedo para falarmos, serão tão mais activos e visíveis quanto mais funda a viragem. É dos segundos que urge falar.
O partido dos prejudicados, ostracizados ou maltratados por Pombal surgiu, sob a capa protectora da senhora Dona Maria Primeira, logo após o desterro do grande ministro. Pretenderam tudo virar do avesso, mas em muitos casos já era tarde. E se o velho marquês, pela violência do seu reinado, lhes deu abundantes pretextos, a qualidade e profundidade das reformas, o seu rápido entrosamento económico e social impediu que a "viradeira" tivesse efeito mais pernicioso. Foi assim que ficaram os frutos do industrialismo nascente, da reforma do ensino primário, do colégio dos nobres e da universidade, a organização do regime do vinho, a formação de novas elites empresariais de filhos-segundos no Brasil, a política de comércio marítimo internacional. A forma como venceu o risco da república jesuítico-nativa na América do Sul foi notável triunfo diplomático, em que Portugal arrastou Espanha, França e o próprio Estado Palatino na defesa de fronteiras definitivas para o Brasil.
Desta vez, não houve marquês. Bem ao contrário, medíocres desempenhos globais de dois governos, onde por vezes algumas estrelas luziam em céu opaco. Mas coisas houve que representam enérgicas reformas e que devem ser respeitadas. Quando muito, para quem discorde, que se gaste algum tempo e fazenda a avaliá-las, em vez de as destruir. Não será difícil reconhecer que, na administração do Estado, a adopção pelos governos agora moribundos de projectos preparados ou pelo menos esboçados pelos antecessores, como o enquadramento dos institutos públicos, os hospitais-empresas, o uso de medicamentos genéricos, as parcerias público-privadas (auto-estradas e hospitais), ou de outras para que não houvera coragem ou energia anteriores, como as propinas no ensino superior, as portagens na CREL, a avaliação do desempenho na função pública, a formação acelerada de dirigentes e até, quem sabe, boa parte da lei das rendas, são exemplos de que nem só malfeitorias se podem atribuir a Barroso e Lopes. É por isso que desagrada a mesquinhez dos que, seguros de uma viragem eleitoral ainda por comprovar, já se arrogam o juízo da "viradeira".
Melhor se compreende com o exemplo dos hospitais SA. Esmagados por hábitos de rigidez administrativa, clamando desde décadas por mais autonomia e responsabilidade, os hospitais públicos precisavam de uma reforma profunda, como do pão para a boca. Ela veio. Porventura excessiva na dimensão, disforme no modelo, prosélita no sucesso antecipado e arrogante nas atitudes. Mas ninguém pode negar que em dois anos os hospitais SA mudaram a face do ministério. Desconhece-se em quanto, pois a propaganda desenfreada dos seus estimáveis sucessos obnubilou a avaliação fria. E julgamento independente foi coisa que os governos demissionários não consentiam. Sabe-se que muita coisa terá mudado para melhor, pelo só o facto de haver quem traça caminhos, faculta meios, acompanha manejos, avalia resultados. O quadro terá certamente sol e sombra, não nos consentiram o conhecimento rigoroso da realidade, mas que houve progresso, tal parece-me indiscutível. É por isso que a pele se me engalinha ao ouvir os profetas do imobilismo, os defensores do povo, contra as reformas que o visam tirar da pasmaceira; os bem-pensantes da cidadania, agora, a clamarem pela viragem do avesso.
Não, meus amigos. Mesmo que tenha havido muita coisa de que se discorde, antes de destruir é necessário saber se o que temos para lá colocar é melhor do que o que nos vão deixar. A estabilidade tem um valor em si. E depois, todo o mundo é passível de mudança, mesmo nos termos anteriores. Ou porventura esquecemos que as obras se fazem mais com os homens que com as pedras?
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