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Subject: Agora, isto já está a aquecer!


Author:
revolucionário de sofá
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Date Posted: 1/12/04 19:41
In reply to: José Manuel Faria 's message, "Vamos Ignorar o PCP" on 27/11/04 9:08

Bem, malta, ontem não pude pôr aqui os butes, perturbado com tantas emoções simultâneas. Aproveito o feriado para vir desabafar e dar-vos na corneta, seus ramelosos.

Primeiro, foi a libertação daquele vendido e traidor do propagandista reaccionário e poetastro lírico Raul Rivero, na nossa Cuba socialista, como se a queda e os ossos partidos estivessem a turvar o discernimento e a amolecer a firmeza do nosso camarada Fidel. Depois, foram as notícias de que aquela merda na Ucrânia, o coração da pátria russa que o sápatra do Kruschov teve a triste ideia de tornar país independente, estava a aquecer e a caminhar para mais um golpe palaciano, ao jeito do que o imperialismo americano montara em tempos em Belgrado com os resultados conhecidos. Estas merdas mexeram um bocado comigo, provocaram-me tamanha indignação que perdi a disposição para vir dar-vos na corneta, como ficara aprazado. Por fim, as boas notícias da interrupção do curso da desgovernação produziram em mim tamanha alegria que varreu todas as tristezas e me levou a entornar um copito a mais ao jantar, acabando a não dizer coisa com coisa, e também não era alegrote que vinha para aqui. Ainda acabava a desancar-vos no canastro a torto e a direito, e, às tantas, espalhava-me a dizer meia dúzia de verdades.

Mas, pronto, também não se perdeu grande coisa, porque, segundo vejo, a minha ausência foi muito bem colmatada por vários camaradas que se fartaram de desancar em vocês, seus ramelosos. Mesmo que não tenham dito as verdades que vocês merecem, foram-vos respondendo taco a taco, defendendo o nosso glorioso das pedradas jocosas e caluniosas que não param de nos atirar e mostrando que vocês há muito perderam a fé na revolução e no comunismo, assim como a vontade de lutar pelo bem do nosso povo, não só da classe operária, mas do nosso povo todo, que é a sina que Deus, perdão, que o barbas nos deu com a sua profecia! Porque este é o fado que nós havemos de cantar até que a voz nos doa, mesmo que fiquemos reduzidos a meia dúzia de gatos-pingados e poucos nos compreendam, e esta é a missão nobre e altruísta de qualquer comunista que se preza. Este orgulho, que nos comove até às lágrimas, o orgulho de sermos comunistas e de pertencermos ao glorioso, isso vocês nunca hão-de saborear!

Mais do que a revolução proletária, porque demorada e pode até nunca acontecer, dado que a malta assim que ganha uns tostões dá-lhe logo para ficar aburguesada; mais do que o comunismo, que não se sabe bem como será, visto que as experiências deram todas para o torto, porque a produtividade era pouco menos do que pindérica; mais do que o progressismo, que esta merda agora anda a duzentos à hora, muito mais depressa do que se poderia supor, e as nossas principais consignas já foram ultrapassadas pelos estilos de vida que a publicidade vende todos os dias; mais do que o internacionalismo, que a puta da burguesia se mostrou ainda mais internacionalista do que a gente e qualquer dia tem isto reduzido a três ou quatro blocos onde se pode circular livremente, e, não tarda, acaba com as fronteiras; mais do que tudo o que foram as nossas grandes bandeiras, a gente agora está mais virado para o bem imediato do nosso povo.

Também nesta missão alternativa, continuamos a demonstrar que somos os melhores. Não só damos o exemplo com a frugalidade das nossas vidas pessoais, sem luxos e desprovidas de bens materiais, quase reduzidas ao gozo entre lençóis, mas dedicamo-nos a cuidar da velhice que não consegue aguentar-se com as reformas de miséria que esta burguesia desqualificada lhes dá como se fossem esmolas; a dar emprego e a proporcionar um pouco de bem-estar e um mínimo de qualidade de vida às populações na Câmaras que gerimos; a defender a economia nacional contra a concorrência desmedida que a globalização move aos nossos pequenos, médios e grandes industriais, comerciantes e agricultores, e a lutar contra os grandes monopólios que são aqui representantes do capital sem pátria; a acolher de braços abertos os desgraçados dos nossos irmãos de classe, os imigrantes, que fazem falta à economia nacional, já que a malta agora não faz filhos e não está para andar de um lado para o outro e a mudar de casa quando está com a hipoteca às costas, e a levar a nossa solidariedade para com eles ao ponto de sacrificarmos um pouco o preço da nossa mercadoria e de suportarmos uma ligeira subida do desemprego entre os nossos conterrâneos; enfim, não vestimos o hábito, mas andamos lá perto, e também não é preciso, porque a malta se distingue por esta postura na vida e não passa despercebida onde quer que esteja, sempre a gritar contra a cabranagem que está no poleiro e a não lhes dar tempo a aquecer o lugar! E esta postura original é em tudo, mas em tudo mesmo, inconfundível com a condescendência e a bondade beata de qualquer freire!

E não é por sermos azedos, por termos um nível de acidez mais elevado do que toda a gente, ou por termos qualquer pancadão. Não, não é nada disso! É porque a história já está escrita e a gente já sabe que da parte da burguesia nunca vem nada de bom. Por isso, não é preciso sequer ser adivinho para saber que nem Soares, nem Cavacos, nem Guterres, nem Barrosos, nem Lopes, nem seja lá quem for, são gente que faça alguma coisa que se aproveite a bem do nosso povo. Bom, bom, é quando nós tomarmos o poder! Então, é indiscutível! E não é porque sejamos hiper-dotados. Não! É pura e simplesmente porque também está escrito! Enquanto isso não acontece, a gente dá-lhes umas abébias na Assembleia, com a nossa linha contra o capital monopolista e em defesa da economia nacional, e nos sindicatos e na rua berramos contra esta cabranagem. E dá quase sempre resultado. A gente acaba por pôr aqueles bandalhos na rua. Quando não é ao fim de quatro meses, como foi agora o caso, é ao fim de quatro anos! Com o Cavaco, contra quem a gente mais gritou e se manifestou, as coisas deram um bocado para o torto, e o sacana aguentou-se por lá dez anos. Mas de nada lhe valeu, acabou por sair, e quando quis culminar a carreira com a Presidência da República a gente vingou-se e ajudou a pôr lá o cenoura. E esta táctica é trigo limpo, Farinha Amparo, nunca falha!

E o melhor exemplo aí está: o governo dos putos abandalhados e pervertidos que estava a levar esta merda para o abismo acaba de ser deitado abaixo pela nossa persistência e pela justeza da nossa apreciação, que acabou por comprovar a antevisão que já tínhamos antes mesmo deles para lá irem. O Barroso, ao fim de dois anos, não aguentou a pedalada das greves, das manifestações, do humor do gago no parlamento (o único ar de graça que o gago deu) e pisgou-se que nem um rato. Quando a malta queria ir para eleições, aproveitando a embalagem das europeias para melhorarmos a nossa representação e ganharmos mais um bocado de tempo, só porque não engrossámos as manifestações orquestradas pelos trotskas, que se anteciparam oportunisticamente, não conseguimos convencer o cenoura. Também, as coisas ainda não estavam bem maduras, e o cenoura, que é um fraco, um tem-te não caias, agarrado à legalidade e à constitucionalidade, e que andou a fazer o jogo dos gajos enquanto os seus amigalhaços do PS se recompunham das trapalhadas em que andaram metidos, não nos quis dar ouvidos e tornou-se comparsa deste desgoverno dos putos abandalhados e pervertidos. Até que não aguentou mais, principalmente depois da descasca que o nosso camarada Jerónimo lhe deu no congresso do glorioso, e não teve outro remédio se não pôr cobro às trapalhadas que os putos abandalhados e pervertidos andavam a arranjar. Mais uma vez, comprovou-se a justeza da nossa linha de que isto vai de mal a pior, e a persistência da nossa abnegação ao serviço do bem do nosso povo produziu os seus frutos!

E vocês, seus ramelosos, sem pingo de vergonha, andam para aqui a dizer que o cenoura atendeu às desavenças dos putos e ás reclamações do patronato, que também já não estava a gostar nada do rumo que o desgoverno levava! Ainda resta saber se vocês tão pouco estão contentes com a varredela que a gente deu no desgoverno. Ainda não vos vi a rejubilar de alegria, como a gente, depois deste primeiro grande êxito da linha de coerência saída do congresso do nosso glorioso partido comunista marxista-leninista, e do nosso grande camarada Jerónimo, em particular, que quase o pôs fora de si de contente! E esta grande vitória é apenas o primeiro passo para a recuperação da nossa influência eleitoral e para o reconhecimento do nosso empenho na luta pelo bem do nosso povo! Daqui para a frente, o nosso povo irá recompensar-nos como deve ser, em manifestação de reconhecimento por quem foi o único partido a reclamar constantemente a queda do desgoverno dos putos abandalhados e pervertidos! Sim, porque isso de vocês estarem calados que nem uns ratos traz muita água no bico! Ai, traz, traz!

Bem, malta, tenho de parar por aqui porque me estão ali a tocar à porta. Devem ser uns camaradas que vêm para o jantar de comemoração desta grande primeira vitória do glorioso após o congresso, e isto é convívio que não se pode fazer esperar!

Viva o glorioso!
Viva a revolução proletária!
Viva o marxismo-leninismo!
Viva o comunismo!
Viva o nosso grande camarada Jerónimo!
Viva a primeira grande vitória da nova era!

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Subject Author Date
Re: Agora, isto já está a aquecer!visitante 2/12/04 8:34


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