| Subject: Re: PCP: um esboço de antropologia portuguesa |
Author:
Che
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Date Posted: 21/11/04 23:26
In reply to:
Ângelo Novo
's message, "PCP: um esboço de antropologia portuguesa" on 21/11/04 17:57
A questão do oportunismo da esmagadora maioria dos funcionários é uma questão absolutamente central na situação actual do PCP.
Quanto à transformação do PCP numa seita è por demais evidente, e o caminhar colectivo para o suicidio, só não vê quem não quer.
>Há muitos anos que ando intrigado com o comportamento
>da clique dirigente, dita "ortodoxa", do PCP. Não
>restam quaisquer dúvidas de que a via suicidária que
>ela vem trilhando e impondo ao partido não tem
>qualquer ponta de racionalidade ou desígnio
>estratégico discernível. É óbvio que há sempre outro
>tipo de racionalidades, ligadas a interesses menores e
>mais imediatos. Nesse âmbito, têm surgido muitas
>explicações para este seu comportamento, mas nenhuma
>delas me parecia inteiramente satisfatória.
>
>Há a teoria "materialista", que explica este
>comportamento de crispação sectária e autista com o
>peso adquirido no seu seio pelos interesses egoístas
>dos funcionários políticos. Há uma outra teoria
>materialista de espectro mais amplo (trazida há uns
>tempos a este forum pelo Paulo Fidalgo) que explica o
>imobilismo, defensismo e saudosismo do PCP pelo facto
>de o partido estar irremediável e indissoluvelmente
>ligado à defesa de interesses de classes e fracções de
>classe em decadência: a classe operária tradicional
>(fordista ou pré-fordista), o proletariado agrícola, a
>pequena burguesia mais arcaica (pequenos comerciantes,
>profissionais liberais, etc.).
>
>Estas explicações (particularmente a segunda) têm
>naturalmente a sua pertinência e o seu peso. Mas não
>explicam tudo. E, sobretudo, não explicam porque é que
>a estes mesmos factores imobilistas e inerciais é
>permitido actuar sem serem minimamente contrariados.
>Ou seja, não explicam porque é que o PCP não dispõe,
>no seio do seu "colectivo" dirigente, do módico de
>recursos em imaginação e vontade de renovação que lhe
>permitam contariar o efeito desses factores. Não era
>necessário sequer uma "refundação". Bastava uma
>redefinição estratégica e organizativa, baseada numa
>renovação das coordenadas teóricas essenciais do
>partido. Contra isso nada poderia a resistência
>inarticulada de interesses materiais dispersos, entre
>militantes e funcionários.
>
>Esta misteriosa paralisia está por explicar. E a causa
>principal aqui terá de ser encontrada no reino das
>"superestruturas" ideológicas. É claro que nunca é de
>subestimar o peso da mediocridade, da caturrice e da
>pura estupidez tacanha. Por outro lado, há um efeito
>de anulação recíproca proveniente da existência de
>movimentos "renovadores" desencontrados, incoerentes e
>contraditórios, alguns deles, aliás, com claro recorte
>liquidacionista. Mas também isto não chega.
>
>Eu até aqui inclinava-me para uma explicação baseada
>na cultura de militância existente no partido, em tudo
>avessa à liberdade de crítica e à inquirição
>científica. E atribuía a existência dessa cultura, por
>um lado, ao legado do estalinismo (e no plano interno
>à paranóia conspirativa da clandestinidade), por
>outro, a uma espécie de atavismo milenarista de
>carácter para-religioso. Ao longo dos anos fui
>conhecendo inúmeros intelectuais do PCP, gente
>extremamente culta, que se distinguia pela
>característica comum de ser totalmente destituída de
>pensamento. Como se isso fosse uma faculdade inútil e
>até um pouco suspeita de deslealdade para com o
>"colectivo". Essa lobotomia colectiva, atribuía-a eu
>então a uma cultura sectária particular mas não lhe
>situava uma origem específica.
>
>Ora, os últimos episódios do drama do PCP trouxeram-me
>novas ideias. Refiro-me, naturalmente, à abdicação do
>Carvalhas e à "inclinação consensualizada" do CC por
>Jerónimo de Sousa. Pelo meio, houve um episódio
>espantoso, relatado pelo "Expresso" e creio que não
>desmentido. Uma delegação de responsáveis executivos
>do PCP ter-se-à deslocado à residência de Álvaro
>Cunhal (cego, praticamente imóvel) para saber qual a
>sua opinião sobre os vários nomes que se perfilhavam
>para a sucessão.
>
>Este episódio notável (que até pode não ser
>verdadeiro, mas "si non é vero, é bene trovato") fez
>uma luz no meu cérebro. Percebi de relance toda a
>história do PCP nestes últimos anos e também as razões
>profundas para aquela mescla de fascínio e repulsa que
>de há muito sinto por este partido.
>
>Estamos no terreno do puro xamanismo.
>
>No fundo esta gente (a clique "ortodoxa") não quer
>saber do futuro nem da revolução para nada. O que eles
>querem é imolar-se em grupo (arrastando para isso o
>maior número possível de jovens) em honra de um
>personagem sagrado que está em vias de falecer. Para
>com o futuro e a juventude eles só têm o mais profundo
>desprezo. Eles acham que militar ao lado de Álvaro
>Cunhal representou um limite inultrapassável de
>experiência existencial, humana e histórica, ao qual
>eles se manterão leais e fiéis até ao fim, contra tudo
>e contra todos.
>
>O XVII Congresso do PCP vai ser uma espécie de pira
>funerária de imolação colectiva em honra de Álvaro
>Cunhal, na qual se vai consumir todo um partido aos
>gritos rituais de "PCP" e "Assim se vê a força do PC".
>Já na próxima eleição legislativa o BE vai deixar para
>trás a CDU com uma perna às costas. Daqui a dez anos o
>PCP será apenas uma seitazinha folclórica e
>nostálgica, como o PC britânico ou o alemão.
>
>E o Jerónimo nisto tudo? Vai fazer de S. Pedro. Como
>dizia Jesus Cristo: "Pedro, tu és pedra e sobre ti
>constuirei a minha igreja". É claro que, para além da
>"nobreza" sacrificial do gesto de alguns, há também
>depois muita farsa, muita desfaçatez e muito
>oportunismo misturados nisto tudo.
>
>Pois bem, está bonita a festa. Em nome dos comunistas
>e revolucionários agora na casa dos 40, e dos mais
>jovens, só posso dizer que é um descanso de espírito
>enorme saber que os nossos "maiores" do PCP não nos
>deixam absolutamente nada de herança. Vão consumir
>tudo consigo, à espera de glórias eternas para si
>mesmos.
>
>Tudo bem. Eu por mim até agradeço. Só espero é que
>saiam depressa da nossa frente e não nos obstruam mais
>o caminho.
>
>Eu até aprecio Álvaro Cunhal, como homem, como lutador
>e como artista. Menos como teórico. Foi um
>revolucionário, sem dúvida. Na hora da sua morte,
>teria um momento de recolhimento e de homenagem
>sincera para ele, mesmo devendo-lhe muito pouco.
>
>Desejaria, sem dúvida, que não fosse necessário abrir
>caminho para o futuro aos pontapés ao seu cadáver
>excelentíssimo. Mas se o for, pois assim se fará.
>
>
>Ângelo Novo
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