| Subject: PCP: um esboço de antropologia portuguesa |
Author:
Ângelo Novo
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Date Posted: 21/11/04 17:57
Há muitos anos que ando intrigado com o comportamento da clique dirigente, dita "ortodoxa", do PCP. Não restam quaisquer dúvidas de que a via suicidária que ela vem trilhando e impondo ao partido não tem qualquer ponta de racionalidade ou desígnio estratégico discernível. É óbvio que há sempre outro tipo de racionalidades, ligadas a interesses menores e mais imediatos. Nesse âmbito, têm surgido muitas explicações para este seu comportamento, mas nenhuma delas me parecia inteiramente satisfatória.
Há a teoria "materialista", que explica este comportamento de crispação sectária e autista com o peso adquirido no seu seio pelos interesses egoístas dos funcionários políticos. Há uma outra teoria materialista de espectro mais amplo (trazida há uns tempos a este forum pelo Paulo Fidalgo) que explica o imobilismo, defensismo e saudosismo do PCP pelo facto de o partido estar irremediável e indissoluvelmente ligado à defesa de interesses de classes e fracções de classe em decadência: a classe operária tradicional (fordista ou pré-fordista), o proletariado agrícola, a pequena burguesia mais arcaica (pequenos comerciantes, profissionais liberais, etc.).
Estas explicações (particularmente a segunda) têm naturalmente a sua pertinência e o seu peso. Mas não explicam tudo. E, sobretudo, não explicam porque é que a estes mesmos factores imobilistas e inerciais é permitido actuar sem serem minimamente contrariados. Ou seja, não explicam porque é que o PCP não dispõe, no seio do seu "colectivo" dirigente, do módico de recursos em imaginação e vontade de renovação que lhe permitam contariar o efeito desses factores. Não era necessário sequer uma "refundação". Bastava uma redefinição estratégica e organizativa, baseada numa renovação das coordenadas teóricas essenciais do partido. Contra isso nada poderia a resistência inarticulada de interesses materiais dispersos, entre militantes e funcionários.
Esta misteriosa paralisia está por explicar. E a causa principal aqui terá de ser encontrada no reino das "superestruturas" ideológicas. É claro que nunca é de subestimar o peso da mediocridade, da caturrice e da pura estupidez tacanha. Por outro lado, há um efeito de anulação recíproca proveniente da existência de movimentos "renovadores" desencontrados, incoerentes e contraditórios, alguns deles, aliás, com claro recorte liquidacionista. Mas também isto não chega.
Eu até aqui inclinava-me para uma explicação baseada na cultura de militância existente no partido, em tudo avessa à liberdade de crítica e à inquirição científica. E atribuía a existência dessa cultura, por um lado, ao legado do estalinismo (e no plano interno à paranóia conspirativa da clandestinidade), por outro, a uma espécie de atavismo milenarista de carácter para-religioso. Ao longo dos anos fui conhecendo inúmeros intelectuais do PCP, gente extremamente culta, que se distinguia pela característica comum de ser totalmente destituída de pensamento. Como se isso fosse uma faculdade inútil e até um pouco suspeita de deslealdade para com o "colectivo". Essa lobotomia colectiva, atribuía-a eu então a uma cultura sectária particular mas não lhe situava uma origem específica.
Ora, os últimos episódios do drama do PCP trouxeram-me novas ideias. Refiro-me, naturalmente, à abdicação do Carvalhas e à "inclinação consensualizada" do CC por Jerónimo de Sousa. Pelo meio, houve um episódio espantoso, relatado pelo "Expresso" e creio que não desmentido. Uma delegação de responsáveis executivos do PCP ter-se-à deslocado à residência de Álvaro Cunhal (cego, praticamente imóvel) para saber qual a sua opinião sobre os vários nomes que se perfilhavam para a sucessão.
Este episódio notável (que até pode não ser verdadeiro, mas "si non é vero, é bene trovato") fez uma luz no meu cérebro. Percebi de relance toda a história do PCP nestes últimos anos e também as razões profundas para aquela mescla de fascínio e repulsa que de há muito sinto por este partido.
Estamos no terreno do puro xamanismo.
No fundo esta gente (a clique "ortodoxa") não quer saber do futuro nem da revolução para nada. O que eles querem é imolar-se em grupo (arrastando para isso o maior número possível de jovens) em honra de um personagem sagrado que está em vias de falecer. Para com o futuro e a juventude eles só têm o mais profundo desprezo. Eles acham que militar ao lado de Álvaro Cunhal representou um limite inultrapassável de experiência existencial, humana e histórica, ao qual eles se manterão leais e fiéis até ao fim, contra tudo e contra todos.
O XVII Congresso do PCP vai ser uma espécie de pira funerária de imolação colectiva em honra de Álvaro Cunhal, na qual se vai consumir todo um partido aos gritos rituais de "PCP" e "Assim se vê a força do PC". Já na próxima eleição legislativa o BE vai deixar para trás a CDU com uma perna às costas. Daqui a dez anos o PCP será apenas uma seitazinha folclórica e nostálgica, como o PC britânico ou o alemão.
E o Jerónimo nisto tudo? Vai fazer de S. Pedro. Como dizia Jesus Cristo: "Pedro, tu és pedra e sobre ti constuirei a minha igreja". É claro que, para além da "nobreza" sacrificial do gesto de alguns, há também depois muita farsa, muita desfaçatez e muito oportunismo misturados nisto tudo.
Pois bem, está bonita a festa. Em nome dos comunistas e revolucionários agora na casa dos 40, e dos mais jovens, só posso dizer que é um descanso de espírito enorme saber que os nossos "maiores" do PCP não nos deixam absolutamente nada de herança. Vão consumir tudo consigo, à espera de glórias eternas para si mesmos.
Tudo bem. Eu por mim até agradeço. Só espero é que saiam depressa da nossa frente e não nos obstruam mais o caminho.
Eu até aprecio Álvaro Cunhal, como homem, como lutador e como artista. Menos como teórico. Foi um revolucionário, sem dúvida. Na hora da sua morte, teria um momento de recolhimento e de homenagem sincera para ele, mesmo devendo-lhe muito pouco.
Desejaria, sem dúvida, que não fosse necessário abrir caminho para o futuro aos pontapés ao seu cadáver excelentíssimo. Mas se o for, pois assim se fará.
Ângelo Novo
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