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Subject: Espaço Ocupado pela Nova Esquerda


Author:
São José Almeida (Publico)
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Date Posted: 25/11/04 21:24

A perda de influência do PCP na sociedade tem sido aproveitada por outras forças políticas, caso do Bloco de Esquerda, e sociais, nomeadamente organizações não governamentais, que têm nascido em Portugal, se bem que estejam ainda em fase inicial. Uma transferência de influência que se faz assim para as forças que tentam ocupar e representar o espaço do que é a nova esquerda, com as suas causas próprias, que funcionam menos como proposta de um projecto político acabado, mas que, sem abdicarem de se inserir ideologicamente, se afirmam na defesa de causas ligadas aos direitos do indivíduo, da qualidade de vida e da liberdade.

Uma evolução que o PCP parece ter falhado. Segundo o sociólogo André Freire, o PCP tentou mudar, "nos anos 90, com o Novo Impulso, mas houve uma inflexibilidade que não permitiu". Freire sublinha que, num partido leninista, ou a mudança vem de cima ou não vem; além disso, o perfil do militante comunista não é para mudança, são mais tradicionais, avessos à nova esquerda. A tomada de poder no congresso de 2000 armadilhou o caminho e agora há um consequente reforço com maior enquistamento". Isto, enquanto "o BE ocupou o espaço da nova esquerda com a defesa dos direitos das minorias étnicas e sexuais, mas mantendo os temas tradicionais sócio-económicos e a defesa dos serviços públicos".

Este sociólogo conclui que "no PCP o caminho tem sido o da resistência e isso não é uma forma de afirmação em política, é de retardar a morte". Contudo, lamenta: "O PCP, em termos de democracia portuguesa, é um partido histórico que dá a sensação de ter ficado sempre aquém do que poderia ter dado ao sistema político, nomeadamente evitando que a política descaísse para a direita, que a política se faça do PS para a direita."

Por sua vez, o professor do ISCTE José David Miranda insiste que o real desgaste dos partidos comunistas não é exclusivo destes e atinge outros partidos e ideologias e lembra que "em Itália houve também o desaparecimento da democracia-cristã, que era um partido fortíssimo". Frisa, aliás, que "em Itália os partidos do pós-guerra foram ao ar". Por outro lado, este investigador sublinha que "há também o desgaste dos sindicatos de que o PCP está muito próximo", além de que "há quem ache que o PCP está a perder influência nos sindicatos".

Ora este "declínio dos partidos em geral" é contrabalançado, segundo José David Miranda, pelo surgimento de "novas forças que são atractivas, como o Bloco de Esquerda, para os grupos sociais que eram atraídos pelo PCP". Este investigador, explica que "a forma de estas forças apresentarem a ideologia é mais aberta, menos estruturada", se bem que garanta que "falar do fim das ideologias é um mito".

Decompondo a sua análise por grupos sociais, José David Miranda afirma que "o grupo dos intelectuais, por exemplo, quer cá, quer em França, antigamente era atraído pelos PC e não é agora". Referindo também os "grupos das mulheres e dos jovens - embora uma pessoa possa ser mulher, jovem e intelectual" -, Miranda defende que "são três grupos em que, antigamente, os elementos mais contestatários deles seriam atraídos pelos partidos comunistas e agora não são".

Por outro lado, José David Miranda explica que ao nível daquilo que são os movimentos políticos individualizados das sociedades democráticas contemporâneas, o PCP conseguiu dar resposta a alguns durante algum tempo - nomeadamente no que refere às questões dos direitos das mulheres. " O Movimento Democrático das Mulheres, por exemplo, como movimento feminista do PCP já foi mais actuante do que é hoje, já esteve actualizado, mas hoje há questões de que lhe passam ao lado."

Ainda ao nível dos movimentos tradicionais, José David Miranda observa que os sindicatos que sofrem um desgaste de representação nas sociedades actuais. Em Portugal "o PCP está muito próximo", mas "há quem ache que o PCP está a perder influência nos sindicatos". Este investigador acrescenta que "no Movimento pela Paz o PCP tinha e tem influência". Já em relação ao "movimento ecologista é mais confuso, o PCP nunca expressou publicamente as suas preocupações ecologistas, deixou isso aos 'Verdes'".

No que se refere, contudo, à representatividade dos ditos "grupos marginais", Miranda afirma que "os partidos comunistas tiveram sempre grande dificuldade em trabalhar com eles", ainda que frise que esta dificuldade em Portugal não atinge apenas o PCP, mas todos os partidos tradicionais. E dá como exemplo dessa dificuldade o trabalho com os movimentos homossexuais e os movimentos de "sem papéis".

Sobre as resistências do PCP em trabalhar o tema dos direitos dos homossexuais, José David Miranda relata, a título de exemplo, o que presenciou na reunião do Fórum Social Português, em 2003. "Houve um colóquio com o Jerónimo de Sousa, em que ele disse: 'Estamos abertos a todos.' E logo de seguida o presidente de uma associação 'gay' retorquiu: 'Ainda bem, porque pedimos audiência ao grupo parlamentar e até agora nada.'"

Já em relação a movimentos como "os sem papéis" ou os "sem emprego", José David Miranda diz que "nem sequer são realmente representados" quer pelo PCP, quer pelos sindicatos", pois estes "têm que defender os interesses dos que têm emprego". A este nível José David Miranda adverte que as ONG ligadas à imigração são todas praticamente constituídas na esfera da Igreja.

No domínio destas novas causas, elas são melhor representadas pela nova esquerda, nomeadamente pelo BE. José David Miranda considera que o BE conseguiu mesmo manter o carácter e a afirmação de uma mensagem "de combate à exploração", própria dos partidos de origem marxista. Isto, apesar de o BE ser um movimento que "foi formado por grupos diversos que até se comiam, como a UDP e os trotskistas, mas têm agido muito bem para abafar as identidades partidárias - ouve-se falar de divergências entre partidos da coligação, mas não entre partidos do BE". E conclui: "Aceitando diversos projectos no seu seio, o BE torna-se mais atractivo que o PCP, que continua com um só projecto."

Nova formas

de legitimação

Outro problema ligado ao que é a nova esquerda que veio alterar as regras de funcionamento prende-se à Internet, segundo José David Miranda. "Hoje, os grupos pequenos têm grande força de mobilização, os pequenos grupos organizam-se em rede, sabem que podem ir buscar outras organizações e formar movimentos de luta. Antes, o acolhimento só se encontrava em grupos organizados de forma tradicional, como o partido, e hoje arranja-se de forma mais solta", afirma este investigador.

José David Miranda refere a questão das novas exigências de participação social dos cidadãos que não aceitam apenas os mecanismos de democracia representativa. E neste aspecto lembra que "é clássico que existe tensão entre movimentos e partidos" e que "o problema da hegemonia se põe sempre". Julga que é para ultrapassar esse tipo de tensões que o BE, por exemplo, não se assume nem como partido nem como movimento". Mantendo essa indefinição entre partido ou movimento, o BE "também é crítico em relação à democracia representativa, mas não a condena totalmente", conseguindo assim assumir-se como "movimento que luta pela democracia representativa e participativa". Tal objectivo, segundo Miranda, foi tentado pelo PCP, mas somente "do ponto de vista formal, não era levado a sério".

O PCP foi assim também ultrapassado pelo BE neste aspecto, assim como por movimentos de representação individualizada, movimentos que José David Miranda diz terem "aquilo a que um sociólogo alemão chama o 'capital de legitimação', ou seja, muitos movimentos e ONG não são representativos, pois não são eleitos, simplesmente a sociedade reconhece-lhes legitimidade". E exemplifica: "Em relação à ecologia, as pessoas acreditam mais na Quercus que no Governo, as pessoas sentem esse discurso como mais legítimo. Isto dantes não havia. As ONG têm até mais legitimidade que o discurso científico. Por isso, as pessoas aderem a esses grupos e não aos partidos."

Finalmente, o desgaste do PCP e dos partidos tradicionais está, na óptica José David Miranda, associado "à redução do peso do Estado nação": "As instituições partidárias estão muito ligadas às questões nacionais, que estão em perda. O PCP tinha a internacionalização, mas também faliu e a globalização pede outro tipo de organização. Eles têm razão quando dizem que o imperialismo não é novo, mas é diferente."

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