| Subject: Re:O" Museu Da História" - Já agora (meter uma colherada) |
Author:
Ângelo Novo
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Date Posted: 28/11/04 11:37
In reply to:
Guilherme Statter
's message, "Re:O" Museu Da História" - Já agora (meter uma colherada)" on 27/11/04 17:17
>Mas porque é que se há-de ter que recorrer a essa
>entidade mítica e supostamente ominisciente que é o
>"computador"?...
>Assim como assim, aquilo é sempre "shit in - shit
>out"...
Eu só estava a ironizar (a ironia passa muito mal na internet). De certeza absoluta que não haverá nunca nenhuma simulação de computador convincente sobre como se pode superar o capitalismo. Poderiam talvez fazer-se uns jogos mas é exactamente isso: shit in, shit out.
Logo, a única maneira é fiarmo-nos (ou não) no "golpe de vista" de Marx e meter mãos à obra sobre o próprio "modelo real". É a única maneira de provar cientificamente que a sua teoria da história é correcta.
Falhamos claramente no round 1. Muitos (como o nosso estimável revolucionário de sofá) ainda estão a lamber as feridas desse falhanço. Outros não têm feridas sequer, não vêm necessidade nenhuma de avaliar o falhanço (era o que faltava, isso seria dar armas ao inimigo) e continuam, sempre "firmes", "rumo à vitória".
Eu sou dos que acha que podemos avaliar o que se passou, reagrupar, fazer um plano melhor e voltar ao assalto.
Porque o capitalismo continua aí e é a mesma peste de sempre, ou pior se possível. Eu só vou deitar Marx pela borda fora (e aí deito mesmo, não fico a fazer de conta) quando, uma de três: 1) me convencer que afinal isto é assim mesmo, capitalismo forever; 2) vir que o capitalismo afinal desapareceu sem ter sido preciso revolução proletária nenhuma; 3) arranjar algo de melhor que Marx como teoria e praxis da revolução social.
>E já agora por que não reconhecer aos "capitalistas"
>(quer os "burgueses" proprietários de capital, quer os
>"apenas" defensores do sistemas capitalista), a
>capacidade de raciocínio e de análise que lhes permita
>perceber como é que esta coisa funciona?... Não são só
>os "revolucionários" (de sofá ou não... eh eh eh) quem
>estuda História e Economia Política.
>As diferenças entre um Schumpeter e um Friedman, são
>gritantes. E do Keynes se poderá dizer que é assim a
>modos que um "marxiano envergonhado".
>É que se esses senhores percebem como é que a coisa
>funciona (na volta, o IVA até é um imposto de
>inspiração marxista...), então até pode acontecer que
>haja alguns deles com interesse (e capacidade) para
>fazer mudar algumas coisas.
Permita-me que lhe diga que você não tem uma ideia muito correcta de como funciona o capitalismo. "Isto" não tem comando central nem nenhuma direcção esclarecida ao leme. É uma nave de loucos que em dois tempos nos pode levar, sem qualquer hesitação, para o barranco dos cegos.
Mas você, enfim, pode pensar que eu estou a pintar a coisa intencionalmente preta porque não gosto deles. Tudo bem. Eu nem costumo usar argumentos "catastrofistas", mas a catástrofe é uma possibilidade bem real. Só não aconteceu já por mero acaso ("vacas loucas") e pode acontecer a qualquer virar de esquina (alimentos geneticamente modificados, aquecimento global galopante, etc.).
A coisa mais parecida com um comando central será o "consenso de Washington" com o seu sexteto residente: F.M.I. - Banco Mundial – Departamento do Tesouro - Federal Reserve Board (Fed) – Casa Branca - Pentágono.
Mas é fácil de ver que estes não têm qualquer função "regulatória" nem nunca podem vir a tê-la. O seu único objectivo é "manter o mundo livre" para a iniciativa privada (em primeiro lugar a norte-americana), com boas taxas de lucro.
Depois disso, só as cimeiras do G7 ou as reuniões de Davos, mas isto aqui é só para dividir coutadas e acertar regras de comércio e taxas de juro.
A ironia da situação é que vocês, reformistas, precisam de nós, revolucionários anti-capitalistas, como do pão para a boca. Sem nós, vocês não são nada (e é bem o caso presente).
A corrida à perequação ascendente das taxas de exploração vai sempre em crescendo em todos os azimutes. Ninguém quer ficar para trás da concorrência. Enfim, é a "globalização". Vocês podem pendurar-se ao ouvido dos patrões e dos governos burgueses propondo-lhes moderação e algumas regras básicas (já nem falo de preocupações "sociais"). Mas eles olham por cima dos vossos ombros, para a concorrência, alarmam-se, dão-vos um piparote e vá de meter o acelerador neo-liberal a fundo.
Não havendo um polo de resistência global, bem articulado, que faça um contraponto ao poder irrestrito do capital, não há qualquer travão aos seus apetites desbragados.
Mas para fazer reviver a social-democracia de antanho, como projecto real de reforma socializante, aí é preciso mais. Aí será preciso que nós, além de uma resistência bem sucedida, possamos passar à ofensiva com um projecto radicalmente alternativo de sociedade.
Aí, sim, os social-democratas poderão tentar mediar o conflito. Virão ter connosco a propor-nos moderação e "responsabilidade". Depois vão ter com os patrões e dizer-lhes que há certas medidas de reforma que se lhes afiguram razoáveis e indispensáveis, para o melhor equilíbrio social, ecológico, etc., etc..
>Em todo o caso e no que respeita a "previsões", assim,
>só de memória, parece que terá colocado a hipótese de
>a Inglaterra poder vir a transitar para o Socialismo
>sem recurso a revolução violenta. Era lá que ele vivia
>e lá ia observando o modus vivendi dos britânicos.
>Haja para aí uma alma caridosa que me refresque aqui a
>memória.
Sim, há qualquer coisa dele sobre isso. Não lhe vou refrescar a memória porque nem eu sei agora situar a citação exacta. Foi na correspondência, lá para o final da vida.
Mas eu também não sou por revoluções "violentas". Por mim, quanto menos violência melhor. Revolução, sim. Violência, esperemos poder evitá-la. Agora, o que é preciso, tenha lá paciência, é que se veja bem se o gato é macho ou fêmea. Espero que não me venha com aquele história do Deng Xiaoping, que o que é preciso é caçar ratos. Por mim, l'avenir c'est la femme.
E a revolução até pode vir por meios perfeitamente constitucionais, como na Venezuela, p. ex..
>Já agora, a propósito de "verdade ciêntífica", talvez
>se possa lembrar o nosso estimado Popper - um dos mais
>citados "Papas" da Epistemologia - e a sua tese de que
>"marxismo" ou a "teoria marxista aplicada à economia"
>pura e simplesmente não poderá em caso algum
>arvorar-se o estatuto de "ciência". Em rigor, e
>isto é que é engraçado, Karl Popper começa por
>considerar a obra "Das Kapital" de Karl Marx como um
>trabalho científico a corpo inteiro, na medida em que
>as teses propostas por Karl Marx são susceptíveis de
>falsicabilidade. Será assim a posterior formulação do
>"marxismo" (deturpado por via da inclusão de hipóteses
>ad hoc e a constituírem uma "cintura
>protectora") que vem a merecer a desqualificação de
>"científica" (ver "THE POVERTY OF HISTORICISM",
>Routledge Classics, London 2002).
Popper é um asno pomposo.
Bom, como é evidente, o meu interesse na revolução social não é de pura curiosidade científica. Não estou nisto apenas porque li Marx e quero "testá-lo". Até porque, com toda a probabilidade, a minha vida não me vai chegar para isso.
Ângelo Novo
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