Subject: Achar estranho que ninguém tome posição...
Author:
Guilherme Statter
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Date Posted:31/10/04 20:30 In reply to:
Fernando Penim Redondo
's message, ""Arrumação das forças de classe" nas Teses do PCP" on 30/10/04 18:32
>- por achar estranho que ninguém tome posição, neste
>forum, sobre os documentos do Congresso do PCP
Essa agora...
Nos idos de 10 de Setembro tive ocasião de escrever: Se bem me lembro este forum do Dotecome.com, da iniciativa da Rosa e do Fernando Redondo, tinha como objectivo (e até como título) a discussão da preparação do XVII Congresso do PCP.
Agora que estão aí as Teses propostas pelos organismos dirigentes do Partido, era capaz de ser oportuno aproveitar também este espaço de debate para "conversar, trocar ideias e debater" aquelas Teses, sugestões alternativas ou clarificar posições.
Aproveito então para dar o meu contributo. Vale o que vale e, ainda por cima, podem sempre dizer que, mesmo que muito interessado, eu já estou "de fora"...
Então cá vai:
Na parte dedicada à situação internacional acho significativo que se refiram que "Estas rivalidades, - entre os vários pólos do imperialismo - assentam em bases objectivas". Infelizmente em vez de se aprofundarem formas de "espevitar" e aproveitar essas contradições, ("desunir o adversário"...) diz-se logo mais adiante que "são de combater as ilusões de que uma União Europeia sob o comando do grande capital possa representar uma alternativa ao imperialismo norte-americano e devem ser combatidas as actuais tendências para o reforço do militarismo e do federalismo no seio da União Europeia".
Claro que é de combater o "comando do grande capital" (na União Europeia, ou noutro lado qualquer...), mas fico sem saber como se oferecem alternativas àquilo que temos sem – minimamente – se perspectivar a conquista de posições num dos "polos alternativos" ao predomínio do Imperialismo sediado nos EUA.
Se se estudar as posições (e condições objectivas) de países ou regiões como a América Latina, a África Sub-Sahariana ou a Índia, são vários os outros polos de poder (de MUITO menor capacidade) que olham para a União Europeia com alguma esperança (pelos vistos mais do que ilusória...).
Por outro lado, constato que os dirigentes do PCP insistem na tecla do Federalismo. Já por demais esclareci que se trata de um equívoco, o qual entretanto corre o risco de, com o pisar e repisar da tecla, levar de facto milhares de pessoas a pensar que aquilo que temos (com o directório das grandes potências) é a mesma coisa de Federalismo. Quando é exactamente o seu contrário...
Acho também de uma ambiguidade confrangedora meter "no mesmo saco" países como a Venezuela ou a Coreia do Norte... Mesmo quando se exprimem reticências. Na minha anónima opinião, era bom esmiuçar um pouco mais as respectivas experiências.
No caso da "anulação da Dívida Externa dos países do chamado Terceiro Mundo", chamo apenas a atenção para que grande parte desta dívida corresponde ao saque efectuado quer pelos ditadores locais, quer pelas altas burguesias a "porem as barbas de molho" e a fazer fugir os seus capitais, com o beneplácito dos diversos segredos bancários desse mundo. Assim sendo, a referida "anulação da dívida" arrisca-se a ser objectivamente, apenas e tão só, o branqueamento desse saque e fuga de capitais. Num documento como as Teses para um Congresso, era bom separar o trigo do joio e exigir antes coisas como o congelamento de contas bancárias daqueles ditadores e das referidas "altas burguesias" nacionais. E, como é evidente, a devolução desses capitais aos países ditos "devedores".
Já agora convem lembrar, a esse respeito, que enquanto as "dívidas formais" dos países espoliados, se negoceiam nos mercados secundários a taxas de 10% ou pouco mais (aqui darei a mão à palmatória, não tenho os detalhes aqui à mão de semear quanto às taxas exactas...), enquanto que as contas clandestinas ou legalmente estabelecidas em "paraísos fiscais e bancários", essas valem - financeiramente - o seu valor quase a 100%... Há mais a dizer, mas por hoje fico-me por aqui.
Cordiais saudações,
Guilherme Statter
Logo a seguir em 13 de Setembro, acrescentei: A propósito da globalização diz-se a certa altura:
Entre os que procuram salvaguardar e acentuar o seu carácter anticapitalista e os que, pretendendo apenas «humanizar» a globalização capitalista, se empenham na sua recuperação e institucionalização reformista.
De novo a abordagem dicotómica, um pouco à maneira dos “bons” e dos “maus”... Se a realidade não fosse muito mais complexa... era tudo muito mais fácil.
Mas, como já foi aqui assinalado (no dotecome) por Angelo Novo, o marco nacional de luta arrisca-se a sobrepôr-se à necessária solidariedade internacionalista.
Em termos práticos e naturalmente simplistas, ou se facilita a vida aos exportadores laranjas e de vinhos da África do Sul, “lixando” ainda mais a agricultura portuguesa, ou se “lixa” a vida aos trabalhadores sul-africanos aumentando a sua já mais do que elevada taxa de desemprego...
Vem também mais adiante:
1.3.32.... ...o PCP, ao mesmo tempo que discorda de partidos supranacionais, defende há muito a necessidade de caminhar para formas mais estáveis de articulação entre partidos comunistas e outros partidos revolucionários.
1.3.33. Mas os atrasos neste domínio, nomeadamente na Europa, não se resolvem precipitando soluções e com lógicas de tipo federalista, com «maiorias» e «minorias», ignorando a grande diversidade de situações existentes. São necessárias soluções unitárias, respeitadoras da soberania e identidade de todos, que unam e não que possam criar dificuldades e fracturas suplementares.
Aqui caberá perguntar qual é o mal de vir a haver “maiorias” e “minorias” numa discussão intra-classista sobre qual o melhor rumo a tomar para alcançar o poder, por exemplo?...
Mas continuando no mesmo texto:
1.3.34. Tal é o caso do «Partido da Esquerda Europeia» que, na sua origem, na sua lógica federalista, no seu relacionamento com as instituições da UE, no enquadramento político e ideológico que lhe é colado por alguns dos seus principais protagonistas, está em contradição com as concepções que temos defendido de cooperação, autonomia e soberania. Ao que acresce o facto de ser concebido, por alguns, em contraposição com critérios básicos que o PCP considera serem os que melhor servem a agregação de forças progressistas e os de um partido revolucionário.
Repete-se aqui o êrro de considerar federalismo aquilo que é o seu contrário... Ou então e em termos mais simples uma Confederação de Sindicatos (aliás ainda “aglutinados” em diversas Federações...) está bem para a organização do movimento sindical em Portugal, mas está mal para aglutinar o movimento socialista internacional, em geral e trans-europeu em particular?...
Mais adiante (os sublinhados são meus...):
1.4.13. Nas actuais circunstâncias de grande instabilidade, só uma coisa é realmente certa quanto ao futuro: as transformações progressistas e revolucionárias que a alternativa ao actual estado de coisas reclama não serão fruto de esquemas e modelos pré-concebidos a que a realidade tenha de conformar-se, antes resultarão necessariamente da dialéctica da luta revolucionária nos planos nacional, regional e mundial, irrompendo lá onde o feixe de contradições for mais denso e mais fortes as forças revolucionárias, num processo irregular e acidentado em que, à resistência da reacção e do imperialismo, será necessário opor cada vez mais a força da solidariedade internacional e internacionalista.
Não podia estar mais de acordo com isto. Mas talvez não fosse má ideia apontar direcções “às massas”... E agora adopto eu uma abordagem dicotómica: Ou o PCP adopta uma postura “terceiro mundista” (será lá no "terceiro mundo" que estarão mais fortes as forças revolucionárias e mais denso o feixe de contradições?...), ou adopta um postura “primeiro-mundista” (de partido de um país do centro), na premissa - avanço eu - de que será então aí (nos países do centro) que são “mais fortes as forças revolucionárias e mais denso o feixe de contradições”)... Por agora fico-me por aqui,
Cordiais saudações,
Guilherme Statter