| Subject: Re: Sobre Álvaro Cunhal |
Author:
Luis Blanch
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Date Posted: 20/09/04 10:27
In reply to:
Ângelo Novo
's message, "Sobre Álvaro Cunhal" on 17/09/04 19:54
É difícil não "topar" , ao longo do percurso mais ou menos sinuoso que me foi dado percorrer, com uma personalidade tão arguta e meticulosa como o do A. Novo, que de um dirigente tão decisivo e inspirador como Cunhal ,consegue dele fazer um curto mas claro retrato sem resvalar mínimamente para a sua desvalorização histórica.
Foi pena não nos termos ,ainda, encontrado...
L.Blanch
>>Não é assim muito importante deixar um nome para a
>>posteridade. Como dizia José Martí, toda glória e a
>>riqueza do mundo cabem bem num grão de arroz. O que é
>>importante é, dentro dos limites das capacidades
>>próprias, conduzir a sua vida de uma forma que faça
>>sentido e ilumine caminhos para quem vem a seguir.
>>
>>A. Novo
>
>
>
>
>Esta questão da necessidade de afirmação pessoal,
>vaidades, etc., sugere-me um filão de reflexões um
>pouco heterodoxas.
>
>Não há dúvida nenhuma de que uma das causas do
>(relativo) sucesso popular do comunismo português é
>também um dos factores mais desfavoráveis, senão o
>factor mais desfavorável, ao seu renovamento. Eu acho
>que o PCP, provavelmente de forma não intencional,
>tocou numa corda funda de sentimento religioso
>popular.
>
>O facto de haver um grupo de homens educados,
>talentosos, belos (Soeiro), que desdenharam da vida
>confortável que poderia ter sido a sua, largaram tudo
>para se interessar pela sorte dos mais desvalidos, dos
>mais oprimidos, e lutar por ela, correndo com isso
>riscos enormes e pagando um preço efectivo em sangue,
>esse facto calou muito fundo na imaginação popular.
>
>Teve um efeito de incomum, de "maravilhoso", de
>encantamento. Foi como que algo caído do céu, passou
>as fronteiras da experiência comum desta vida vil e
>interesseira. É como que uma revelação divina. Quem a
>experimenta fica tocado para sempre. Mesmo que venha a
>desludir-se, a partir daí a vida passa a saber a merda.
>
>Esse efeito ainda hoje perdura e é, essencialmente, o
>que faz a diferença do PCP em relação a todos os
>outros partidos (BE incluído). Noutro dia vi uma
>entrevista com uma senhora idosa na festa do Avante e
>ela dizia essencialmente isso: este partido não é como
>os outros, este é SINCERO.
>
>Contra este efeito de SINCERIDADE, que é encarnado
>ainda hoje basicamente na figura e na personalidade de
>Álvaro Cunhal (e seus companheiros/apóstolos mais
>fiéis), nada poderiam naturalmente os "renovadores",
>encabeçados por uma gente engravatada sem qualquer
>densidade que, está-se mesmo a ver, são exactamente
>como "os outros" e não tardam nada a fazer-se com
>eles.
>
>Ora, Álvaro Cunhal tem certamente "auréola", mas não é
>absolutamente seguro que seja santo (o que quer que
>isso seja). É uma personalidade muito complexa mas na
>qual, como Pacheco Pereira argutamente ressalta, se
>nota um orgulho desmedido. Ele procura lutar contra
>esse orgulho, recalcá-lo, atingir um estado de
>absoluto despojamento pessoal. Mas o orgulho assoma
>sempre de volta e ele sempre foi absolutamente
>implacável na luta com os seus rivais.
>
>Embora tenha escrito muito, não é um grande escritor.
>Teoricamente não tem grande interesse. O seu marxismo
>é esquemático, sem qualquer brilho próprio. A sua
>argumentação torrencial é muitas vezes tomada pelo
>sentimentalismo e um veio moralizante. Talvez tivesse
>podido ser um grande escritor de ficção, mas isso
>ficou também por demonstrar.
>
>No que respeita às suas relações com a União
>Soviética, espanta-me a sua completa falta de lucidez,
>praticamente única entre os grandes dirigentes
>comunistas do Ocidente. Ou ele era uma personalidade
>extremamente crédula ou então deixou-se lisongear
>pelos apparatchiks soviéticos, tornando-se
>praticamente um deles. Insubornável materialmente,
>talvez não o fosse inteiramente no seu orgulho.
>
>Seja como for, custou e custa ainda muitíssimo caro ao
>PCP o estado de absoluta dependência política e moral
>em que se colocou até à última hora (e para lá dela)
>em relação à União Soviética.
>
>
>A. Novo
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