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Subject: Sobre Álvaro Cunhal


Author:
Ângelo Novo
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Date Posted: 17/09/04 19:54
In reply to: Ângelo Novo 's message, "Re: PCP: O Estado das Coisas e o culto da personalidade" on 17/09/04 15:37

>Não é assim muito importante deixar um nome para a
>posteridade. Como dizia José Martí, toda glória e a
>riqueza do mundo cabem bem num grão de arroz. O que é
>importante é, dentro dos limites das capacidades
>próprias, conduzir a sua vida de uma forma que faça
>sentido e ilumine caminhos para quem vem a seguir.
>
>A. Novo




Esta questão da necessidade de afirmação pessoal, vaidades, etc., sugere-me um filão de reflexões um pouco heterodoxas.

Não há dúvida nenhuma de que uma das causas do (relativo) sucesso popular do comunismo português é também um dos factores mais desfavoráveis, senão o factor mais desfavorável, ao seu renovamento. Eu acho que o PCP, provavelmente de forma não intencional, tocou numa corda funda de sentimento religioso popular.

O facto de haver um grupo de homens educados, talentosos, belos (Soeiro), que desdenharam da vida confortável que poderia ter sido a sua, largaram tudo para se interessar pela sorte dos mais desvalidos, dos mais oprimidos, e lutar por ela, correndo com isso riscos enormes e pagando um preço efectivo em sangue, esse facto calou muito fundo na imaginação popular.

Teve um efeito de incomum, de "maravilhoso", de encantamento. Foi como que algo caído do céu, passou as fronteiras da experiência comum desta vida vil e interesseira. É como que uma revelação divina. Quem a experimenta fica tocado para sempre. Mesmo que venha a desludir-se, a partir daí a vida passa a saber a merda.

Esse efeito ainda hoje perdura e é, essencialmente, o que faz a diferença do PCP em relação a todos os outros partidos (BE incluído). Noutro dia vi uma entrevista com uma senhora idosa na festa do Avante e ela dizia essencialmente isso: este partido não é como os outros, este é SINCERO.

Contra este efeito de SINCERIDADE, que é encarnado ainda hoje basicamente na figura e na personalidade de Álvaro Cunhal (e seus companheiros/apóstolos mais fiéis), nada poderiam naturalmente os "renovadores", encabeçados por uma gente engravatada sem qualquer densidade que, está-se mesmo a ver, são exactamente como "os outros" e não tardam nada a fazer-se com eles.

Ora, Álvaro Cunhal tem certamente "auréola", mas não é absolutamente seguro que seja santo (o que quer que isso seja). É uma personalidade muito complexa mas na qual, como Pacheco Pereira argutamente ressalta, se nota um orgulho desmedido. Ele procura lutar contra esse orgulho, recalcá-lo, atingir um estado de absoluto despojamento pessoal. Mas o orgulho assoma sempre de volta e ele sempre foi absolutamente implacável na luta com os seus rivais.

Embora tenha escrito muito, não é um grande escritor. Teoricamente não tem grande interesse. O seu marxismo é esquemático, sem qualquer brilho próprio. A sua argumentação torrencial é muitas vezes tomada pelo sentimentalismo e um veio moralizante. Talvez tivesse podido ser um grande escritor de ficção, mas isso ficou também por demonstrar.

No que respeita às suas relações com a União Soviética, espanta-me a sua completa falta de lucidez, praticamente única entre os grandes dirigentes comunistas do Ocidente. Ou ele era uma personalidade extremamente crédula ou então deixou-se lisongear pelos apparatchiks soviéticos, tornando-se praticamente um deles. Insubornável materialmente, talvez não o fosse inteiramente no seu orgulho.

Seja como for, custou e custa ainda muitíssimo caro ao PCP o estado de absoluta dependência política e moral em que se colocou até à última hora (e para lá dela) em relação à União Soviética.


A. Novo

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Subject Author Date
Re: Sobre Álvaro CunhalJosé Manuel Faria18/09/04 0:12
Re: Sobre Álvaro CunhalLuis Blanch20/09/04 10:27


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