| Subject: Re: TROCA DESIGUAL E EVOLUÇÃO SOCIAL - 1 |
Author:
António Fagundes
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Date Posted: 31/08/04 1:21
In reply to:
Guilherme Statter
's message, "Re: TROCA DESIGUAL E EVOLUÇÃO SOCIAL - 1" on 31/08/04 0:29
Statter.
Embora não tenha procuração, intervenho apenas para dizer-lhe que esta sua intervenção, como outras anteriores, reflecte uma certa descoordenação e algum desarranjo. Ao ponto de você confundir alhos com bugalhos e de entender as alarvidades e as imbecilidades dos acrescentos dos marxistas como se elas se referissem ao que você disse. É que o seu marxismo deixa bastante a desejar!
Você poderia, ao menos, ler com atenção e algum cuidado para não dizer tantas baboseiras em tão curto espaço; e, depois, se pretende defender as posições do Marx, deveria também ao menos conhecê-lo. É que você, para fiél, é muito heterodoxo, ainda que a sua heterodoxia penda mais para o ecletismo!
Mas aquela de em situação de concorrência pura o lucro económico ser zero, é a melhor da festa!
Você é muito prolixo, alardeia vastos conhecimentos (e bengalas), e bondades e capacidades. Será para enganar os papalvos? A mim, parece-me que muito do que você diz tem qualidade para ir pró lixo!
Se é o mais qualificado dos ditos marxistas que este fórum consegue atrair, está visto que a conversa não passará da cepa torta.
António Fagundes.
>Ora vejamos:
>>Parece-me que o Statter, na sua resposta, também
>>não alcançou o cerne das questões. Permito-me, por
>>isso, intervir novamente sobre o tema.
>Pois... mas se entramos numa de "alarvidades" e
>"imbecilidades", tenho a impressão que vamos mesmo
>ficar por aqui...
>Antes de me despedir desta (des)conversa chamo apenas
>a atenção para os pontos seguintes (mas julgo que já
>referi "isto" antes)...
>
>1. Ainda estou para ver um qualquer sistema de
>produção que não exija mesmo um qualquer infinitésimo
>de "iniciativa humana". Não vejo como se possa
>classificar esse infinitésimo de "iniciativa humana",
>se não for como "trabalho vivo" , executado no
>presente. Sendo que TODOS os meios (incluindo a
>tecnologia toda e mais alguma) são "trabalho
>armazenado".
>
>2. A separação entre "produção" e "circulação" tem um
>interesse apenas heurístico. As coisas, bens ou
>serviços que qualquer um de nós utiliza ou consome, só
>têm interesse, preço ou valor, quando qualquer um de
>nós os obtem ou deles disfruta.
>
>3. É espantoso que se escreva isto que vem a seguir:
>"e o grande contributo de Marx foi ter proposto para
>unidade um padrão social, ao invés dum padrão
>particular proposto por aqueles, homogeneizando assim
>o que era heterogéneo".
>E depois não se conclua que a homogeneização
>(presume-se que da unidade de medida do valor) só se
>pode alcançar considerando a totalidade (o
>"somatório") de todas as forças-de-trabalho existentes
>à face do planeta. Assim como a totalidade da
>"Capacidade Produtiva Instalada" (o "capital social
>TOTAL) de todo o planeta!...
>
>4.Disse-se a certa altura
>
>"devido ao facto das mercadorias capitalistas serem
>produtos de capitais de composição orgânica distinta,
>susceptíveis de gerarem produtividades distintas, o
>padrão tempo de trabalho abstracto socialmente
>necessário não é adequado para quantificar com
>fiabilidade o valor das mercadorias (ou até das
>produções particulares)"
>
>Gostaria de poder sublinhar - mas "isto" não dá -
>aquela última frase: "o padrão tempo de trabalho
>abstracto socialmente necessário não é adequado para
>quantificar com fiabilidade o valor das mercadorias
>(ou até das produções particulares)"
>
>Espero que o Correia se dê conta de que está a dizer
>algo de equivalente ao que diria um "físico" - "
>diversidade das densidades dos sólidos (e liquidos, o
>mercurio é um liquido... e a água às vezes é
>solída...), não permite a adopção de uma unidade de
>peso padrão"...
>
>5.Mais adiante:
>>Escamoteando o cerne do problema, tanto Marx como os
>>marxistas apresentam-no como se ele se restringisse à
>>dicotomia entre o lucro ou mais-valia ser originado na
>>circulação ou na produção das mercadorias.
>Não há dicotomia nenhuma... Há apenas "desfasamento no
>tempo" entre a produção (do que quer que seja) "a ver
>se se vende" e a validação social do que se produziu,
>através da concretização da "compra-venda".
>Só nesse momento final de "consumo" é que as coisas
>"ganham" ou "vêem reconhecido" o veu valor...
>
>>Desfeita esta falsa
>>dicotomia, o verdadeiro problema transfere-se para a
>>produção, para onde de facto se origina o sobreproduto
>>(a parte sobrante ou apropriada do produto): saber a
>>que factores produtivos atribuir a sua criação.
>
>E é aqui que parece que vem o cerne da argumentação de
>Correia:
>>Num modo de produção pré-capitalista, ou nos
>>primórdios do capitalismo industrial em ramos de
>>baixíssima composição orgânica do capital, em que os
>>meios de trabalho tivessem um valor desprezável ou
>>muito menos importante que o valor da força de
>>trabalho, ainda se poderia admitir, ainda que com
>>reservas, que o sobreproduto fosse criado apenas pela
>>força de trabalho; no capitalismo desenvolvido (que
>>Marx estudou), uma tal concepção é de todo
>>inaceitável.
>PRESUMO QUE SERÁ RAZOÁVEL DIZER AQUI QUE A AFIRMAÇÃO
>"disto" NÃO CHEGA... FALTA DEMONSTRAR ou, pelo menos,
>EXPLICAR...
>
>>Em qualquer dos casos, porém, devido ao
>>carácter inter-relacional do trabalho humano com o
>>instrumento, que transforma o trabalho abstracto
>>simples (os diversos trabalhos concretos
>>homogeneizados) em trabalho abstracto complexo, a
>>criação do sobreproduto não pode ser atribuído apenas
>>à força de trabalho.
>Mais uma vez PRESUMO QUE SERÁ RAZOÁVEL DIZER AQUI QUE
>A AFIRMAÇÃO "disto" NÃO CHEGA... FALTA DEMONSTRAR ou,
>pelo menos, EXPLICAR...
>Por mim esteja o Correia à vontade, pode "amandar" com
>as matemáticas todas (até nem sou grande "barra"
>nisso... Mas sempre se há-de arranjar "uma bengala",
>se o meu engenho não der para acompanhar a
>demonstração...)
>
>>Esta errada concepção da criação do sobreproduto
>>reflecte-se depois na forma como Marx determina o
>>valor das mercadorias, a partir da chamada taxa de
>>mais-valia (relação entre o valor acrescentado e o
>>capital variável, dado que só este originaria o valor
>>acrescentado).
>Há-de-me explicar como é que o Capital Constante
>(aquilo que as empresas compram a outras empresas...)
>vai aumentar o valor do produto da sua própria
>produção.
>Ou, por "alma de quem" é que a empresa "A" vai vender
>à empresa "B", o que quer que seja, mais barato do que
>aquilo que possa vender?...
>E depois a empresa "B" (assim como que "à socapa" ia
>acrescentar "mais algum" valor, "debitando" à produção
>"só mais um bocadinho" do que aquilo que permite a
>concorrência pura (a tal, a do paradigma
>neoclássico)...
>É que, lembro outra vez, em concorrência pura, o lucro
>económico é ZERO (Samuelson dixit...).
>A este respeito convem ter presentes todas as
>múltiplas e regulamentadas "técnicas e regras de
>amortização de capital fixo"... No que diz respeito ao
>"capital circulante" não estou nada a ver uma empresa
>de construção civil, comprar sacos de cimento a um
>preço e depois (EM CONCORRÊNCIA PURA!!!... atenção, a
>tal modelizada e abstracta...) facturar esses mesmo
>sacos de cimento (no preço da obra) a um preço mais
>caro só porque o mistura com água e areia... Na
>prática até estou, mas isso já é na tal "concorrência
>imperfeita" (a real...) e aí já temos "lucro
>contabilístico", ou "renda de monopólio"...
>
>Depois diz Correia:
>>Como a força de trabalho é totalmente
>>móvel, a produtividade do trabalho abstracto simples
>>em qualquer processo produtivo concreto só pode ser
>>idêntica e o valor acrescentado gerado só pode ser
>>directamente proporcional ao seu valor, dando origem a
>>taxas de mais-valia constantes. Com taxa de mais-valia
>>constante, a taxa de lucro só pode decrescer à medida
>>que aumenta a composição orgânica do capital (um dos
>>pressupostos da famosa lei da queda tendencial da taxa
>>de lucro)!
>Ora aqui está uma formulação QUASE cem por cento
>correcta!!!
>É só uma questão de rever com cuidado a "mistura"
>entre abstracto e concreto... É aquela coisa do
>nomotético e do ideográfico... Da experiência "única"
>e da "generalização".
>Só não vejo qual é o enredo a que se refere a seguir!!!
>
>>Os marxistas tentam escapar a este enredo invocando a
>>intensificação da exploração através do aumento da
>>produtividade, escamoteando, uma vez mais, que o
>>aumento da produtividade (quando não resulte de
>>melhorias de gestão técnica ou económica) só pode ser
>>atribuído ao trabalho abstracto complexo
>>(nomeadamente, através do aumento do investimento em
>>meios de trabalho) e não ao trabalho abstracto
>>simples; a este apenas pode ser atribuído o aumento da
>>exploração proveniente da extensão da jornada e do
>>aumento do ritmo do trabalho.
>Mas que grande confusão, amigo Correia...
>Não são os marxistas que escamoteiam... Bem antes pelo
>contrário!!! São os marxistas que afirmam aquilo que
>você diz logo a seguir!!!
>
>>"o aumento da produtividade (quando não resulte de
>>melhorias de gestão técnica ou económica) só pode ser
>>atribuído ao trabalho abstracto complexo
>>(nomeadamente, através do aumento do investimento em
>>meios de trabalho)"
>E é por isso que, sem vergonha nenhuma (ou com todo o
>despudor...) os "malandros" dos marxistas afirmam que
>>"um sujeito que trabalha trinta horas numa
>>função de carregar nuns botões de um equipamento
>>automatizado, bem recostado, num ambiente climatizado
>>e agradável, que não gasta nem metade das calorias que
>>ingere e aufere, por exemplo, 1200 euro por mês, é
>>mais explorado do que um outro, que trabalha quarenta
>>ou mais horas, a vergar a mola no duro e à torreira do
>>sol, que ganha, também por exemplo, 600 euro por mês,
>>só porque devido às diferenças de produtividade a taxa
>>de mais valia obtida pela empresa do primeiro é de
>>200% e a do segundo é de 100%.
>A indignação moral fica-lhe muito bem... Já o Marx
>dizia o mesmo de alguns "socialistas utópicos" do seu
>tempo... Afinal parece que muito pouco mudou...
>E andam uns desgraçados de centenas de milhões de
>africanos a ver se alguém os quer "explorar"... Com
>amigos indignados como o Correia, talvez se safem.
>
>>E aqui, o Statter, que julga estar o problema apenas
>no
>>carácter individual ou social por que é abordado, pode
>>extrapolar os casos apresentados de empresas e de
>>trabalhadores individuais para exemplos típicos de
>>valores médios (e, logo, sociais) que ocorram em dois
>>ramos distintos!
>Mais uma vez a estória dos "ramos distintos"... Oh
>amigo Correia, tudo isto só pode ser analizado ao
>nível máximo de agregação da sociedade capitalista
>como um todo...
>Entretanto, e porque isto está relacionado, assinalo
>que há umas dezenas de milhões de trabalhadores (nos
>países da Tríade, mas não só...) - operários, quadros,
>engenheiros, cientistas, administrativos (e não sei
>que mais) que são explorados (e ainda bem, se não não
>tinha ali uma TV para ir daqui a um bocado espairecer
>um pouco...) - ao mesmo tempo que há por esse mundo
>(em particular na África Sub-Sahariana, na Ásia do
>Sudeste e ma América Latina) umas centenas de milhões
>que pura e simplesmente não são explorados!!! E que
>querem, procram ansiosamente ser explorados... O
>Correia não me diga que ainda não os vi - aos
>felizardos que cá conseguem chegar - aí pelas obras...
>Chiça, a taxa de desemprego lá nessas terras chega a
>100%!!!
>E como dizia a Joan Robinson, só há uma coisa pior do
>que ser explorado: é não ser explorado!!!
>E olhe que ela dizia que não era marxista...
>Fico-me por aqui...
>Guilherme Statter
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