Author:
Guilherme Statter
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Date Posted: 16/09/04 14:08
In reply to:
Jorge Nascimento Fernandes
's message, "A CHECOSLOVÁQUIA, A TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO E ALGUMA ARQUEOLOGIA BIBLIÓFILA" on 14/09/04 22:38
Só mais umas breves reflexões sobre o tema...
Já em fins dos anos Setenta, trabalhando num país africano (pequena mas representativa amostra da transição para o socialismo), tive ocasião de ler numa pragmática revista de gestão "International Management" um artigo de fundo relativo àquilo que o autor considerava o tema central da vida colectiva da ex-URSS: O conflito de interesses e de mundivisões entre os quadros directivos das empresas soviéticas e os quadros do Partido, que eram supostos controlar e dirigir a economia como um todo.
Nesse mesmo país africano assisti "em directo" a esse mesmo conflito, ali transposto para um conflito latente e permanente entre os quadros do Banco Central e os quadros do Ministério das Finanças e os do Ministério do Comércio Externo.
Uns controlavam as divisas externas (a moeda forte necessária às importações), outros controlavam os impostos e o Orçamento, e outros, por fim, controlavam as licenças de importação (para as quais eram precisas as tais divisas)... Acrescente-se que o "planeamento central da economia" acontecia estar "sediado" no Banco Central, enquanto que os quadros do Ministério das Finanças e os do Comércio Externo "conviviam" diariamente com os gestores das empresas públicas, estatais e privadas. E tendiam a reflectir as suas posições. Havia aliás alguma e normal rotatividade entre posições de direcção nas empresas do complexo produtivo estatal e posições de direcção naqueles ministérios...
Ao longo dos anos as alianças e "guerras" entre estes três "centros de poder" foram variando, mas as circunstâncias externas (o sistema-mundo.... a globalização...) acabaram por impor o predomínio dos quadros do Ministério das Finanças, mais permeáveis aos "cantos de sereia" do FMI.
Por longas e repetidas conversas com colegas de trabalho com vivência profissional dos países de Leste (e até com alguns nacionais desses países ali residentes em "comissões de serviço") penso poder dizer que a situação era quase que uma réplica do que então se passava na Jugoslávia, Alemanha de Leste, Hungria e Polónia.
Cordiais saudações,
Guilherme Statter
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