Author:
Jorge Nascimento Fernandes
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Date Posted: 24/08/04 0:20
In reply to:
Fernando Penim Redondo
's message, "Subsidialismo em vez de socialismo" on 23/08/04 17:00
A "alternativa de esquerda" como etapa
Esta discussão está-se a eternizar e provavelmente não levará a grandes conclusões. No entanto, pelo que percebo, este assunto para ti e para a Rosa são pontos fundamentais.
Tu a determinada altura do teu texto dizes, e bem, que "o derrube do fascismo, e
a subsequente "democracia burguesa", não eram senão etapas desse projecto" a propósito do programa do PCP com vista ao derrube do fascismo. Para lá de ser discutível, do ponto de vista factual, que a etapa proposta pelo PCP fosse a "democracia burguesa", estou perfeitamente de acordo com este pequeno enunciado. Sendo assim, porque não considerar a "alternativa de esquerda", como um etapa, que engloba o conjunto dos partidos que se reclamam dessa designação e que tem como programa um conjunto de objectivos, que poderão na actuais circunstâncias permitir alterar o rumo das coisas, ou seja, a política de direita.
De certa maneira foi isso que tornou possível uma aliança para Lisboa e que se faz em toda a parte onde se estabelecem governos de coligação das forças de esquerda: um programa mínimo que permite às forças coligadas executar um determinado trabalho. Isto é independente dos programas que cada uma das forças em presença. É evidente, que um partido comunista deverá ter o seu, com vista à construção da sociedade que quer alcançar, e não obrigar os outros a cumprirem o seu.
Dito isto, eu sei onde queres chegar:
1º achas que os projectos socialistas dos partidos comunistas e da esquerda em geral estão desactualizados e que estes, inspirados pelos novos tempos, não só deveriam caracterizar a sociedade actual, como aquela que está prestes a nascer e como deverá ser um projecto socialista para esta. Tu próprio já desta essa contribuição ao escrever um livro sobre a transição do capitalismo ao digitalismo;
2º partindo desta premissa, achas que toda a esquerda deveria estabelecer um projecto socialista para Portugal que fosse mobilizador e permitisse enquadrar nessa perspectiva as reformas estabelecer.
Como eu te provei e tu não foste capaz de dizer o contrário, isso é manifestamente impossível, pois os socialistas não têm, nem é previsível que venham a ter, nos tempos mais próximos, esse projecto.
Por outro lado, mesmo que tu teoricamente tenhas razão na tua periodização da sociedade actual, a formalização desses conceitos não é imediata e muito menos ganha as massas de um momento para o outro. Sobre isto seria interessante estabelecer a relação dialéctica entre a teoria e a sua aplicação prática, reconhecendo que poucos políticos conseguiram no seu tempo histórico teorizar a realidade e simultaneamente pôr em acção essa mesma teoria.
Valeria a pena também discutir esse teu desprezo pelas funções sociais do Estado ou por aquilo de que falas com grande desdém, o Estado assistencial ou dos pobrezinhos. E aqui, mais uma vez lamento dizer, esqueces a dialéctica. Existe, e este é um dos pontos mais importantes da nossa divergência, uma inter-relação entre as lutas e as conquistas parciais e a luta final Em nome de um socialismo que esperamos que a esquerda venha a definir um dia, esquecemos as lutas que perspectivam a sua futura concretização.
E não é por acaso que a direita por toda a Europa e em Portugal em particular considera tão importante destruir este Estado social que tu abominas. Hoje trava-se uma importante batalha ideológica entre a direita neoliberal e os defensores do Estado social.
Por aqui me fico. Mas, tal como o Fagundes pediu em relação a outros debates, gostaria de mais intervenções, para não se pensar que esta nossa discussão é uma caturrice entre dois velhos amigos que têm pouco que fazer.
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