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Subject: Troca Desigual e Evolução Social - 3


Author:
Guilherme Statter
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Date Posted: 26/08/04 18:36

Porque têm aqui aparecido alguns textos (bem elaborados, diga-se de passagem...) criticando a Teoria do Valor de Marx, e porque essa teoria é o nó górdio de todo o edíficio "científico" do marxismo, passo a fazer
UMA RESPOSTA À “CRÍTICA DE BOHM-BAWERK” À TEORIA DO VALOR DE MARX - 1
Assinalo que a crítica elaborada por Bohm-Bawerk é geralmente considerada mais consistente, definitiva e contundente até hoje elaborada para "arrazar" a Teoria Laboral do Valor, tal como formulada por Marx...

Em primeiro lugar deve chamar-se a atenção para o caracter SOCIAL (histórica e culturalmente determinado) do conceito de valor. Como todos sabemos, nem os chimpanzés nem os golfinhos compram e vendem o que quer que seja, pelo que não faz sentido estar a procurar nas ciências sociais algo de semelhante àquilo que se encontra nas chamadas ciências naturais. A determinação do valor é sempre algo que varia de sociedade para sociedade (agora com a globalização, estamos a andar, tendencialmente, para uma só sociedade) e não pode ter, essa determinação, outro suporte que não seja a avaliação que a sociedade faça do que quer que seja que entende como valioso...
Se (um)a sociedade entende que determinada coisa, bem ou serviço, vale muito mais do que outra porque “custa muito mais a fazer” ou “é muito mais escassa”, não há volta a dar-lhe, à procura do Graal da origem remota, básica, primária e fundamental da determinação do valor.

Em segundo lugar assinale-se a relativa “simpatia” ou “correcção” com que Bohm Bawerk trata e crítica a obra de Marx. Pelo menos com distanciamento académico quanto baste... Suspeito de que se Marx fosse vivo ao tempo de Bohm-Bawerk era capaz de ter sido um diálogo interessante. Embora a arrogância intelectual de Marx fosse capaz de “estragar” o dito cujo diálogo... eh eh eh...
Em terceiro lugar, Bohm-Bawerk não comete a asneira crassa, de outros marginalistas posteriores, de atribuir a Marx a ideia grosseira de que só o valor do trabalho vivo e actualmente desempenhado é que determina a totalidade do valor das coisas produzidas. Ou seja, embora comentando a peculiaridade da terminologia de Marx, Bohm-Bawerk reconhecia (identificava) que Marx entendia por "trabalho", o trabalho vivo e o trabalho armazenado nas máquinas e ferramentas...
Bohm-Bawerk reconhece também, pelo menos implícitamente (naquilo que li...) a diferença entre Marx e Ricardo, no que diz respeito à Teoria do Valor. Já no entanto considera que Marx (a esse respeito) faz pouco mais do que já tinha feito Rodbertus (o qual aliás acusava Marx de plágio... Mas isso já é outra história).

Em terceiro lugar – e aqui começa “a porca a torcer o rabo” – Bohm-Bawerk refere Ricardo para indicar duas origens distintas do valor das coisas: a escassez e o custo de produção (em trabalho).
E a “porca começa a torcer o rabo”, porque nesta simples afirmação – que Bohm-Bawerk repete e re-utiliza para criticar Marx, - está já o embrião da enorme confusão conceptual que deu origem a não poucas polémicas.
Assim, (1) a determinação do valor pelo “custo de produção” (custo esse determinado pelo trabalho socialmente necessário...) está associado à análise marxista,
enquanto que (2) a determinação do valor pela “escassez” está associada à análise marginalista.
Desde logo alguns reparos:
A decalagem no tempo relativamente a um mesmo conjunto de mercadorias, faz com que
(A) uma coisa seja o seu “custo de produção” (determinado ou à priori ou “em cima da hora”)
e (B) outra coisa seja o seu “grau de escassez” (se o pessoal quiser comprar MUITO mais, teremos escassez, se ninguém pegar no produto teremos abundância).
A diferença entre este “custo de produção” e aquele “preço de venda” ou vai beneficiar (ainda mais) o empresário, ou o vai penalizar. Para ver se ele toma juízo e começa a fabricar coisas que as pessoas queiram mesmo...
Bohm-Bawerk refere a este respeito os exemplos vindos de Ricardo daquilo que seriam “excepções à regra” – obras de arte raras... (não percebo bem esta estória das obras de arte “raras”... uma obra de arte é sempre uma obra ÚNICA. Aliás se se começar a aprofundar estes exemplos é capaz de se chegar a conclusões inesperadas... Mas isso fica para outra altura).
Depois Bohm-Bawerk refer ainda outras “excepções”, tais como “terras virgens” (e de solos ferteis...), minas de ouro... E pergunta se isso não tem também “Valor”, sendo que, como será evidente – para ele Bohm-Bawerk e para todos os seu seguidores, claro – que essas “terras virgens” e as “minas de ouro” têm valor...
É engraçado que Bohm-Bawerk utilize estes exemplos como prova provada de que a Teoria do Valor de Marx está rotundamente errada... E, segundo alguns dos seus adeptos, Bohm-Bawerk faz esta prova de forma “contundente e definitiva”.
Do estilo “Ora toma e vai-te curar, oh Marx”.
Esquece Bohm-Bawerk esta coisa simples e elementar: os solos virgens ou as minas de ouro só “ganharam valor” quando foram trabalhadas... Facto que se confirma com os mais conhecidos exemplos históricos... As terras virgens do Oeste Americano foram DADAS aos seus colonos pelo Governo norte-americano que as sorteou fazendo “corridas”... Quem chegasse primeiro... O que dava TRABALHO... O mesmo se passou com as concessões mineiras de Kimberley ou do Rand... Os primeiros a chegar... Mas “isto” é capaz de ser demasiado elementar para ser “ciêntífico” Q.B.
Citando Bohm-Bawerk:
“Mas (a teoria laboral do valor) é ainda menos confirmada por cada um dos numerosos casos em que pouco esforço é premiado com grandes ganhos, tais como a ocupação de uma peça de terra, o encontrar de uma pedra preciosa, a descoberta de uma mina de ouro”
Aliás Bohm-Bawerk cita muitos mais exemplos comparando por exemplo a raridade do trabalho de um “grande escultor” com os esforços de um “modesto carpinteiro”. Passemos por de cima do elitismo inerente a esta comparação. Seria mais correcto (até de um ponto de vista de coerencia interna da lógica argumentativa do próprio Bohm-Bawerk) comparar dois carpinteiros ou dois escultores... E mais uma vez se verificaria que está enganado ou que falhou a pontaria... Pergunte-se a um grande pintor ou escultor qual o valor que qualquer um deles próprios (e os críticos ou os “marchands”, em especial estes!!!...) atribuem a duas ou três ou mais peças suas. E verificariam os seguidores de Bohm-Bawerk como cada um dos grandes artistas atribui a cada uma das suas peças um valor proporcional ao tempo por si despendido na elaboração da respectiva obra de arte...
Se formos um pouco mais longe, poderíamos simular um exercício de análise sociológica e económica, tentando estabelecer uma correlação estatística entre a auto-percepção do valor da obra de arte criada pelos próprios artistas, pelos críticos de arte e pelos “marchands”. E depois tentar determinar o grau de correlação entre o tempo de elaboração de cada obra e o valor que lhe foi atribuído pelos três actores sociais envolvidos...
ISSO seria análise do valor e discussão ciêntífica da validade da teoria laboral do valor... Mas bem podem procurar por isso na obra de Bohm-Bawerk e dos seus seguidores. Se me disserem onde está, eu “dou-a-mão-à-palmatória”...
Por hoje fico-me por aqui... Tenho que ir preparar um curso...
Cordiais saudações
Guilherme Statter

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