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Subject: Troca Desigual e Evolução Social - 4


Author:
Guilherme Statter
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Date Posted: 26/08/04 23:40

Uma resposta à "crítica de Bohm-Bawerk" à teoria do valor de Marx – 2

Retomando o fio à meada, vejamos mais algumas das refutações elaboradas por Bohm-Bawerk relativamente à Teoria do Valor (ainda que na versão Ricardiana... supostamente adoptada por Marx)
Referindo-se a uma comparação entre o trabalho que ele (Bohm-Bawerk) teria para obter uma qualquer coisa, e o trabalho que essa coisa daria a fazer a um trabalhador técnicamente qualificado, diz-nos Bohm-Bawerk:
Desculpem mas vai na versão em Inglês:

"But these are two quantities which, as every one knows, are not absolutely identical.
Under the regime of the division of labour, the trouble which I personally would be obliged to undergo to obtain possession of a thing I desired, is usually much greater than the trouble with which a labourer technically trained produces it.
Which of these two troubles, the "saved" or the "imposed," are we to understand as determining the real value?"

Bem que Marx se fartou de falar de tempo de trabalho SOCIALMENTE necessário..
Ou seja, não é o tempo de trabalho de um qualquer trabalhador individual que deve ser considerado. É o tempo SOCIAL,(total, agregado), presente e acumulado, para produzir o que quer que seja (a dividir pela quantidade de unidades produzidas...).
É caso para perguntar, para que é que servirá a Estatística ( a média ponderada...)
Entretanto nada impede o sr. Bohm-Bawerk de optar por cozinhar o seu próprio almoço em vez de ir a um restaurante, Agora, não pode (enfim, não deve...) da comparação dos dois "custos", deduzir que está errada a Teoria Laboral do Valor... Ou pode?... Responda-me alguém especialista em Lógica...

Depois, para arrumar a questão (e fazendo prova de que afinal adopta a mesma metodologia de que acusa os outros (em particular Smith e Ricardo e designadamente "isto é assim porque eu digo que é assim"), diz-nos Bohm-Bawerk.
Vai outra vez em Inglês...

"The result of these considerations may, I think, be summed up as follows. Adam Smith and Ricardo have asserted that labour is the principle of the value of goods simply as an axiom, and without giving any evidence for it. Consequently any one who would maintain this principle must not look to Adam Smith and Ricardo as guaranteeing its truth, but must seek for some other and independent basis of proof".

Parece que não passa pela cabeça de Bohm-Bawerk uma coisa que passa pela cabeça de milhões de consumidores em todo o mundo há vários séculos: a "observação participante". Método de análise aliás adoptado e refinado por Sociólogos e Antropólogos, já há muitas décadas...
Aliás há um exemplo muito peculiar e perto de todos nós... O "Imposto sobre o Valor Acrescentado", vulgo IVA...
"Malandros" dos marxistas, infiltraram-se em tudo e até já nos ministérios das finanças dos países mais industrializados!!!

Entretanto, pouco depois Bohm-Bawerk, reconhece que o caso de Marx é algo distinto dos seus antecessores (os tais “clássicos”) e diz-nos

"The despisers of proof from authority content themselves with appealing to authority; the sworn foes (inimigos...) of unproved assumptions and assertions content themselves with assuming and asserting.
Only a very few representatives of the Labour Value theory form any exception to this rule; one of these few, however, is Marx.
An economist looking for a real confirmation of the principle in question might proceed in one of two directions;
he might either attempt to develop the proof from grounds involved in its very statement,
or he might deduce it from experience.
Marx has taken the former course, with a result on which the reader may presently form his own opinion".

Ou seja, Bohm Bawerk parte aqui do princípio de que Marx se baseou no método lógico-dedutivo (análise da consistência interna das suas próprias afirmações), em vez de se basear em provas da experiência...
Duma assentada vão pela janela fora, centenas de páginas de observação sobre os cálculos contabilísticos efectuados na industria do seu tempo, observação essa meticulosamente registada por Marx....
Entretanto a observação do comportamento de milhões de pessoas em todo o mundo deveria ser "prova" suficiente do ponto de vista de "experiência".
Deveria ser, mas pelos vistos não é...

Mas está bem, vejamos então o que nos diz Bohm-.Bawerk sobre o método lógico-dedutivo de Marx:

"I have already quoted in Marx's own words the passages relative to the subject.
The line of argument divides itself clearly into three steps.
First step - Since in exchange two goods are made equal to one another, there must be a common element of similar quantity in the two, and in this common element must reside the principle of Exchange value.
Second step - This common element cannot be the Use value, for in the exchange of goods the use value is disregarded.
Third step - If the use value of commodities be disregarded there remains in them only one common property: that of being products of labour.
Consequently, so runs the conclusion, Labour is the principle of value; or, as Marx says, the use value, or "good," only has a value because human labour is made objective in it, is materialised in it"

E logo a seguir o julgamento de valor de Bohm-Bawerk:("contundente" e "definitivo"... eh eh eh)

"I have seldom read anything to equal this for bad reasoning and carelessness in drawing conclusions".

Para em seguida "descascar" as três fases da argumentação de Marx:

"The first step may pass, but the second step can only be maintained by a logical fallacy of the grossest kind. The use value cannot be the common element because it is "obviously disregarded in the exchange relations of commodities, for" -- I quote literally -- "within the exchange relations one use value counts for just as much as any other, if only it is to be had in the proper proportion."
Em Português, um exemplo: se eu trocar um "ferro de engomar" por uma "batedeira eléctrica", estou-me nas tintas para o valor de uso daquilo que cedo ( ou que "vendo")...
Mas continuando...

"What would Marx have said to the following argument?
In an opera company there are three celebrated singers -- a tenor, a bass, and a baritone -- and these have each a salary of £1000. The question is asked:
What is the common circumstance on account of which their salaries are made equal?
And I answer, In the question of salary one good voice counts for just as much as any other -- a good tenor for as much as a good bass or a good baritone -- provided only it is to be had in proper proportion; consequently in the question of salary the good voice is evidently disregarded, and the good voice cannot be the cause of the good salary.
The fallaciousness of this argument is clear".

Mesmo não sendo especialista em Lógica, atrevo-me a dizer (a ignorância é muito atrevida...):
É PRECISO TER LATA:... A troca de iguais envolve indiferença... Mas não se trata aqui de trocar um barítono por um tenor... Adita cuja Ópera precisa mesmo dos três cantores... Trata-se, isso sim, de comparar um conjunto de 3 boas vozes com um conjunto de 3 más vozes.
No caso de as 3 boas vozes terem o mesmo valor, (o tal mesmo salário, é o que diz aqui o sr. Bohm-Bawerk...), presume-se que a fisiologia humana e as escolas de canto predominantes na sociedade local, e apreciadora de música vocal, produz sensivelmente o mesmo numero de tipos de voz.
Sendo assim, é a boa voz (que se teve que educar, ao longo de vários anos...) que é causa de um bom e mesmo salário!!!
Marx teria possívelmente respondido que, enquanto empresário de ópera, tanto lhe dava ter o Carreras, como o Pavaroti ou o Plácido Domingo... E que o valor de troca (de qualquer deles) era expresso não pela troca entre eles (os tenores) mas entre o desempenho de cada um deles e aquilo que eles decidissem comprar com o dinheiro que lhes fosse pago...
Na argumentação de Bohm-Bawerk está implícita (como quase sempre) a confusão entre aquilo que eu designo de "os dois lados do espelho" ((1)a determinação do valor pelo trabalho socialmente necessário e incorporado e (2) a sua validação pela aceitação social do que quer que tenha sido produzido).

Depois, mas tarde no mesmo texto, Bohm-Bawerk volta a pisar um tema/argumento já anteriormente evocado:
"But this is not all. Is it even true that in all goods possessing exchange value there is this common property of being the product of labour? Is virgin soil a product of labour? Or a gold mine? Or a natural seam of coal? And yet, as every one knows, these often have a very high exchange value".
Já comentei anteriormente esta "argumentação", mas acrescento que o senhor Bohm-Bawerk, literalmente NUNCA terá visto uma "mina de ouro" ou "um filão natural de carvão". Mas ele pensaria mesmo que o ouro ou o carvão estão ali assim, "à mão de semear"?...
Só por graça refiro um caso de uma mina de ouro quase esgotada (enfim ainda lá haverá alguma coisa...) e que foi vendida por um "mais do que simbólico" preço (aquilo afinal até lá tinha uns túneis já escavados...) por uma empresa do grupo Anglo-American (no Transvaal) a uma empresa "africana" local no âmbito do programa nacional de "Black Empowerment". Já agora o minério que é preciso sacar lá de baixo (em média!!!) para obter uma onça de ouro, são só 100.000 toneladas (de pedra...)... Não dá trabalho nenhum... Ora se fossem gozar com o Camões!
Por hoje já chega...
Cordiais saudações
Guilherme Statter

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