Num “site” aqui mesmo ao lado (comunistas.info) entrevista-se alguém a propósito de terem passado 36 anos, no dia 21 de Agosto, sobre a invasão da Checoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia. É uma data extremamente amarga para o movimento comunista.
Nessa entrevista não se fala de um dos factores que mais pesou na sua aceitação pelos estudantes e intelectuais que nessa altura militavam no PCP: foi um discurso amplamente difundido, já não me recordo como, de Fidel de Castro de apoio à invasão.
Estava de férias nessa data e, antes de partir, estava convencido de que uma nova experiência despontava a leste, com repercussões incalculáveis no arejamento do movimento comunista. Soube da notícia, e na impossibilidade de contactar os camaradas e amigos para comentarmos a situação, fiquei indignadíssimo. Depois, quando cheguei a Lisboa, logo os “controleiros” e amigos me vieram dizer que o Partido apoiava a invasão e começaram a falar do tal discurso de Fidel, para a justificar.
Sei que ainda há bem pouco tempo a direcção do PCP justificava essa invasão, mesmo depois de tudo o que aconteceu.
Mas não é isso que me trás aqui, foi só uma recordação reavivada pela entrevista referida e por um artigo muito interessante de Paul Sweezy, incluído num livro das Edições 70, de 1978, chamado “Transição para o Socialismo”, que é uma tradução de uma série de artigos que ele escreveu para a revista que fundou e durante muito tempo dirigiu em Nova York, a “Monthly Review”, e da resposta que mereceram de um outro economista marxista francês, Charles Bettelheim, igualmente publicadas na mesma revista.
Convém recordar que Paul Sweezy morreu a 27 de Fevereiro passado, com a idade de 93 anos (1910-2004). Tinha estado preso durante o maccarthismo nos EUA, nos anos 50. A sua biografia e os livros que publicou poder-se-á fazer se alguém estiver interessado.
Começa esse livro com um artigo intitulado “Checoslováquia, Capitalismo e Socialismo”, de Outubro de 1968, e que foi feito no rescaldo daquela invasão (também fala da importância do discurso de Fidel). A partir daqui sucedem-se uma série de cartas trocadas entre Sweezy e Bettelheim a propósito daquele artigo.
É evidente que nenhum daqueles autores defendia a invasão. Qualquer deles alinhava com as posições maoistas da época, de crítica à invasão e de considerar que o capitalismo se estava a instalar nos países da Europa de Leste, incluindo a União Soviética: Paulo Sweezy mais moderado, Bettelheim mais radical.
No entanto, lendo hoje aqueles textos sobre o que eles achavam que estava a acontecer na Europa de Leste percebemos muito melhor o que depois viria a acontecer em 1989, com a queda do muro. Sweezy defende mesmo que a invasão se deu não pela introdução tímida feita na Checoslováquia do famoso “socialismo de mercado”, de Ota Sik, mas porque “os chefes da União Soviética temiam - com razão – duas ameaças: uma, em relação aos seus interesses pessoais; a outra, em relação aos interesses da camada dirigente nacional que eles representam.” Ou seja, pode-se hoje concluir, que as camada dirigente dos países socialistas de Leste, há muito que, sem o dizerem, marchavam para o capitalismo e que a queda do muro foi só a concretização desse fenómeno. Como sabemos hoje, a maioria dos administradores das fábricas que eram propriedade do estado socialista transformaram-se rapidamente em donos das fábricas privatizadas.
Tudo isto vem a propósito da Checoslováquia, mas igualmente, e isso ficará para outra altura, sobre a teoria da transição, recentemente abordada neste fórum. Oportunamente, debruçar-me-ei sobre o que estes autores dizem sobre ela, como igualmente sobre os textos de um colóquio realizado no Chile nos anos 70, sobre o mesmo assunto.
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