| Subject: Re: SAMPAIO, ESQUERDA E POPULISMO |
Author:
João Laveiras
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Date Posted: 22/07/04 15:47
In reply to:
João Laveiras
's message, "Re: SAMPAIO, ESQUERDA E POPULISMO" on 13/07/04 17:45
Afinal qem tinha razão? Bastou assistir à verdadeira trédia que foi a nomeação e a posse dos ajudantes de ministro ou secretários de Estado, como queiram, para ver que o que eu aqui disse é infelizmente certeiro.
>Já chega de tanto Sampaio.
>Agora voltemo-nos para o que aí vem e depois
>ajuizaremos o resultado. Provavelmente antes de 2006
>ainda que com o Sampaio se não vislumbre acção alguma.
>Quem pensa que são as razões de estratégia política
>que devem motivar o PR - que assim teria agido bem, em
>prol de uma futura vitória do PS sem a muleta do PCP
>ou do BE e sem Ferro Rodrigues - cá estaremos para
>discutir as consequências para o país dessa decisão.
>Em 2 anos podem cometer-se erros praticamente
>irreparáveis a médio, logo prazo - e infelizmente
>far-se-ão.
>Ainda a procissão vai no adro e já ouvimos os maiores
>dislates do homem que o PR entendeu dever ser o
>primeiro ministro de Portugal.
>E desenganem-se aqueles que esperam uma atitude
>fiscalizadora do PR, tal aliás como ele a prometeu na
>sua triste comunicação de 9 de Julho. Com uma maioria
>estável no parlamento, PSL vai fazer o que lhe
>apetecer. Espera-nos um novo choque fiscal, isto é,
>uma redução do IRC e um aumento no IVA, quase de
>certeza. Espera-nos a cedência aos lobbies do betão e
>aos lobbies das autarquias.
>O desmantelamento já começado do Serviço Nacional de
>Saúde vai prosseguir aceleradamente. Avinzinha-se a
>falência de hospitais SA, incapazes de cumprir as suas
>obrigações financeiras e assediados pelos fornecedores.
>Se o novo ministro da Saúde for, como correm boatos, o
>Menezes de Gaia, então estamos conversados.
>Espera-nos igualmente um reforço da extrema direita do
>PP em todas as áreas da governação, nas empresas
>públicas e participadas e na administração pública.
>Disso se encarregará o Portas, que agora está muito
>mais à vontade.
>E depois, em 2006, o Sampaio retira-se, com a sua vida
>inteira de grande democrata (como diz o Fernando
>Redondo), já perdoado por amigos e companheiros e quem
>se lixou foi o mexilhão.
>Serão estes os resultados desta estratégia do Grande
>Democrata que é Sampaio.
>
>
>>A decisão do Presidente da República de não dissolver
>>o Parlamento manifesta independência em relação à
>>maioria que o elegeu e beneficia a esquerda perante a
>>nova direita populista.
>>O PS não o percebeu.
>>Ambas as partes tinham declarado respeitar a decisão
>>presidencial, pois as alternativas eram
>>consensualmente constitucionais. No entanto, qualquer
>>decisão seria protestada. Tivesse o PR optado pela
>>dissolução e haveria uma berraria de Pedro Santana
>>Lopes, para lançar a campanha eleitoral na posição
>>favorita dum populista: a vitimização.
>>1. Surpresa foi o tom da "indignação" socialista, ou
>>melhor, do clã dirigente do partido. O resto, é
>>teatro. Frisou Vasco Pulido Valente que a maioria dos
>>dirigentes socialistas protestou, mas "exultou" por se
>>livrar de Ferro.
>>Eduardo Ferro Rodrigues demitiu-se pela sua derrota
>>(derrota?) "pessoal e política". Quis ser dramático:
>>foi patético. O que foi confirmado pela reacção de
>>alguns apoiantes. Renegaram Sampaio. A diplomata Ana
>>Gomes, depois de se arrepender de ter votado Sampaio,
>>deu o mote ao ler uma mensagem recebida no telemóvel:
>>"Uma maioria, um governo, um Presidente" (antiga
>>palavra de ordem de Sá Carneiro). Sampaio era remetido
>>para o inferno, como novo chefe da direita. Fora do
>>PS, o mais célebre sociólogo de Coimbra associou,
>>subliminarmente, a morte de Lurdes Pintasilgo à
>>decisão de Sampaio. Da exasperação de Carvalhas e de
>>Louçã não vale a pena falar.
>>Este comportamento revela que, por razões de base
>>eleitoral e de amizade, uma parte do grupo dirigente
>>socialista tem uma concepção patrimonial do PR.
>>Sampaio não teria sido eleito para ser "presidente de
>>todos os portugueses" e, como tal, árbitro político e
>>garante constitucional, mas para favorecer o PS na
>>hora decisiva.
>>Mais séria é a miopia em relação à decisão de Belém. A
>>direcção do PS intoxicou-se a si mesma com os
>>resultados das europeias e de sondagens, sem se
>>interrogar sobre elas.
>>Os eleitores do PS têm Ferro na conta de político
>>sério, mas sabiam que era já um líder transitório e
>>com a credibilidade política irremediavelmente ferida.
>>A demissão de Barroso surgiu ao grupo de Ferro como a
>>ilusória oportunidade de sobrevivência, através de
>>eleições imediatas e um regresso ao poder. Alguns
>>ingénuos acreditaram inclusive numa maioria absoluta,
>>graças à impopularidade do governo. Fiados nas
>>europeias - um voto de protesto -, não perceberam que
>>esta campanha eleitoral mudaria radicalmente o quadro:
>>o PSD de Santana distanciar-se-ia de Ferreira Leite e
>>de Barroso e prometeria o bodo aos pobres e a retoma
>>económica.
>>E aqui reside o logro. Provavelmente, ninguém mais do
>>que Santana Lopes desejaria eleições, ao contrário do
>>que ele declarava. Vêm aí "tempos fascinantes",
>>limitou-se a dizer, num provável lapso, quando mais se
>>falava na dissolução.
>>O novo PSD populista não teria pela frente um PS
>>ganhador, mas um PS na pior crise desde 1984. A seguir
>>às europeias, Jorge Coelho baixou as expectativas
>>dizendo que aquela vitória era apenas o começo da
>>construção de uma alternativa eleitoral credível.
>>E mesmo se o PS ganhasse tangencialmente? Quem iria
>>para o governo? Seria a agonia de um executivo fraco e
>>minoritário, seguida de eleições e de uma provável
>>maioria absoluta do PSD, que, essa sim, deixaria
>>Santana à solta.
>>2. Como populista, Santana passa por mau governante. A
>>sua gestão da Cultura (com Cavaco) foi má e igual terá
>>sido a de Lisboa, de que já não prestará contas aos
>>eleitores. O populista simplifica os problemas, cuja
>>resolução substitui por passes de mágica, como ele fez
>>no Parque Mayer. Encheu as ruas de Lisboa de cartazes,
>>travestido de Pombal. A deriva populista de Santana
>>tem sido, aliás, mais sublinhada entre gente do PSD do
>>que no PS. Questão de experiência.
>>Santana é um populista "light". Não é xenófobo, nem é
>>Berlusconi, a quem já o compararam: não é o bilionário
>>capaz de corromper em massa, nem o dono das
>>televisões. Também não seguiu o modelo habitual dos
>>populistas - fundar um pequeno partido de que se
>>tornam donos ou comprarem-no em saldo, como Monteiro e
>>Portas fizeram com o CDS. Tornou-se acidentalmente
>>presidente de um dos dois grandes partidos, o que tem
>>consequências. Um dos méritos indirectos da decisão
>>presidencial é forçar o PSD a fazer uma verificação:
>>torna-se populista? O PSD sabe que, mais tarde ou mais
>>cedo, prestará contas ao eleitorado pela sua opção.
>>Para Santana é vital ir a votos. Uma das
>>características do estilo populista é o desprezo das
>>instituições e das regras em nome da ligação directa
>>ao povo. Quando o nome de Santana foi contestado no
>>PSD, casos de Ferreira Leite, Pacheco Pereira ou
>>Miguel Veiga, respondeu na televisão um autarca do
>>PSD: esses senhores ganharam eleições? (Por acaso
>>tinham ganho). A democracia não é só o voto, é também
>>a separação dos poderes. "Os populistas não gostam dos
>>bancos centrais, nem dos juízes, nem das autoridades
>>independentes, nem da Europa, nem da globalização, que
>>constituem outros tantos obstáculos à expressão do
>>'verdadeiro povo'" (Yves Mény). O populismo cresce
>>quando a democracia representativa funciona mal e
>>frustra os cidadãos.
>>Não podendo ir agora a votos, no cenário ideal de um
>>PS desconjuntado, Santana apostará tudo daqui a dois
>>anos. O populismo não é uma ideologia nem um programa,
>>"é um camaleão oportunista". Com Sampaio na
>>Presidência, que o amarrou ao programa de Barroso, e
>>sem legitimidade eleitoral directa, vestirá
>>provavelmente a pele de homem de Estado. Até às
>>eleições. Se o não devemos subestimar enquanto máquina
>>eleitoral, devemos também avaliar os seus limites. Tem
>>pés de barro.
>>3. Em dois anos, o Partido Socialista tem a
>>oportunidade de oferecer ao país uma alternativa ao
>>populismo. É o que a esquerda deve a Sampaio. O PR é
>>"garante" e não "notário", disse. É em situações de
>>crise que se verifica a importância do Presidente,
>>deste e do que se lhe seguirá. O que se passou
>>revaloriza as presidenciais de 2006
>>(in PUBLICO, 13 de Julho, 2004)
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