| Subject: Re: SAMPAIO, ESQUERDA E POPULISMO |
Author:
João Laveiras
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Date Posted: 13/07/04 17:45
In reply to:
Jorge Almeida Fernandes
's message, "SAMPAIO, ESQUERDA E POPULISMO" on 13/07/04 17:10
Já chega de tanto Sampaio.
Agora voltemo-nos para o que aí vem e depois ajuizaremos o resultado. Provavelmente antes de 2006 ainda que com o Sampaio se não vislumbre acção alguma.
Quem pensa que são as razões de estratégia política que devem motivar o PR - que assim teria agido bem, em prol de uma futura vitória do PS sem a muleta do PCP ou do BE e sem Ferro Rodrigues - cá estaremos para discutir as consequências para o país dessa decisão. Em 2 anos podem cometer-se erros praticamente irreparáveis a médio, logo prazo - e infelizmente far-se-ão.
Ainda a procissão vai no adro e já ouvimos os maiores dislates do homem que o PR entendeu dever ser o primeiro ministro de Portugal.
E desenganem-se aqueles que esperam uma atitude fiscalizadora do PR, tal aliás como ele a prometeu na sua triste comunicação de 9 de Julho. Com uma maioria estável no parlamento, PSL vai fazer o que lhe apetecer. Espera-nos um novo choque fiscal, isto é, uma redução do IRC e um aumento no IVA, quase de certeza. Espera-nos a cedência aos lobbies do betão e aos lobbies das autarquias.
O desmantelamento já começado do Serviço Nacional de Saúde vai prosseguir aceleradamente. Avinzinha-se a falência de hospitais SA, incapazes de cumprir as suas obrigações financeiras e assediados pelos fornecedores.
Se o novo ministro da Saúde for, como correm boatos, o Menezes de Gaia, então estamos conversados.
Espera-nos igualmente um reforço da extrema direita do PP em todas as áreas da governação, nas empresas públicas e participadas e na administração pública. Disso se encarregará o Portas, que agora está muito mais à vontade.
E depois, em 2006, o Sampaio retira-se, com a sua vida inteira de grande democrata (como diz o Fernando Redondo), já perdoado por amigos e companheiros e quem se lixou foi o mexilhão.
Serão estes os resultados desta estratégia do Grande Democrata que é Sampaio.
>A decisão do Presidente da República de não dissolver
>o Parlamento manifesta independência em relação à
>maioria que o elegeu e beneficia a esquerda perante a
>nova direita populista.
>O PS não o percebeu.
>Ambas as partes tinham declarado respeitar a decisão
>presidencial, pois as alternativas eram
>consensualmente constitucionais. No entanto, qualquer
>decisão seria protestada. Tivesse o PR optado pela
>dissolução e haveria uma berraria de Pedro Santana
>Lopes, para lançar a campanha eleitoral na posição
>favorita dum populista: a vitimização.
>1. Surpresa foi o tom da "indignação" socialista, ou
>melhor, do clã dirigente do partido. O resto, é
>teatro. Frisou Vasco Pulido Valente que a maioria dos
>dirigentes socialistas protestou, mas "exultou" por se
>livrar de Ferro.
>Eduardo Ferro Rodrigues demitiu-se pela sua derrota
>(derrota?) "pessoal e política". Quis ser dramático:
>foi patético. O que foi confirmado pela reacção de
>alguns apoiantes. Renegaram Sampaio. A diplomata Ana
>Gomes, depois de se arrepender de ter votado Sampaio,
>deu o mote ao ler uma mensagem recebida no telemóvel:
>"Uma maioria, um governo, um Presidente" (antiga
>palavra de ordem de Sá Carneiro). Sampaio era remetido
>para o inferno, como novo chefe da direita. Fora do
>PS, o mais célebre sociólogo de Coimbra associou,
>subliminarmente, a morte de Lurdes Pintasilgo à
>decisão de Sampaio. Da exasperação de Carvalhas e de
>Louçã não vale a pena falar.
>Este comportamento revela que, por razões de base
>eleitoral e de amizade, uma parte do grupo dirigente
>socialista tem uma concepção patrimonial do PR.
>Sampaio não teria sido eleito para ser "presidente de
>todos os portugueses" e, como tal, árbitro político e
>garante constitucional, mas para favorecer o PS na
>hora decisiva.
>Mais séria é a miopia em relação à decisão de Belém. A
>direcção do PS intoxicou-se a si mesma com os
>resultados das europeias e de sondagens, sem se
>interrogar sobre elas.
>Os eleitores do PS têm Ferro na conta de político
>sério, mas sabiam que era já um líder transitório e
>com a credibilidade política irremediavelmente ferida.
>A demissão de Barroso surgiu ao grupo de Ferro como a
>ilusória oportunidade de sobrevivência, através de
>eleições imediatas e um regresso ao poder. Alguns
>ingénuos acreditaram inclusive numa maioria absoluta,
>graças à impopularidade do governo. Fiados nas
>europeias - um voto de protesto -, não perceberam que
>esta campanha eleitoral mudaria radicalmente o quadro:
>o PSD de Santana distanciar-se-ia de Ferreira Leite e
>de Barroso e prometeria o bodo aos pobres e a retoma
>económica.
>E aqui reside o logro. Provavelmente, ninguém mais do
>que Santana Lopes desejaria eleições, ao contrário do
>que ele declarava. Vêm aí "tempos fascinantes",
>limitou-se a dizer, num provável lapso, quando mais se
>falava na dissolução.
>O novo PSD populista não teria pela frente um PS
>ganhador, mas um PS na pior crise desde 1984. A seguir
>às europeias, Jorge Coelho baixou as expectativas
>dizendo que aquela vitória era apenas o começo da
>construção de uma alternativa eleitoral credível.
>E mesmo se o PS ganhasse tangencialmente? Quem iria
>para o governo? Seria a agonia de um executivo fraco e
>minoritário, seguida de eleições e de uma provável
>maioria absoluta do PSD, que, essa sim, deixaria
>Santana à solta.
>2. Como populista, Santana passa por mau governante. A
>sua gestão da Cultura (com Cavaco) foi má e igual terá
>sido a de Lisboa, de que já não prestará contas aos
>eleitores. O populista simplifica os problemas, cuja
>resolução substitui por passes de mágica, como ele fez
>no Parque Mayer. Encheu as ruas de Lisboa de cartazes,
>travestido de Pombal. A deriva populista de Santana
>tem sido, aliás, mais sublinhada entre gente do PSD do
>que no PS. Questão de experiência.
>Santana é um populista "light". Não é xenófobo, nem é
>Berlusconi, a quem já o compararam: não é o bilionário
>capaz de corromper em massa, nem o dono das
>televisões. Também não seguiu o modelo habitual dos
>populistas - fundar um pequeno partido de que se
>tornam donos ou comprarem-no em saldo, como Monteiro e
>Portas fizeram com o CDS. Tornou-se acidentalmente
>presidente de um dos dois grandes partidos, o que tem
>consequências. Um dos méritos indirectos da decisão
>presidencial é forçar o PSD a fazer uma verificação:
>torna-se populista? O PSD sabe que, mais tarde ou mais
>cedo, prestará contas ao eleitorado pela sua opção.
>Para Santana é vital ir a votos. Uma das
>características do estilo populista é o desprezo das
>instituições e das regras em nome da ligação directa
>ao povo. Quando o nome de Santana foi contestado no
>PSD, casos de Ferreira Leite, Pacheco Pereira ou
>Miguel Veiga, respondeu na televisão um autarca do
>PSD: esses senhores ganharam eleições? (Por acaso
>tinham ganho). A democracia não é só o voto, é também
>a separação dos poderes. "Os populistas não gostam dos
>bancos centrais, nem dos juízes, nem das autoridades
>independentes, nem da Europa, nem da globalização, que
>constituem outros tantos obstáculos à expressão do
>'verdadeiro povo'" (Yves Mény). O populismo cresce
>quando a democracia representativa funciona mal e
>frustra os cidadãos.
>Não podendo ir agora a votos, no cenário ideal de um
>PS desconjuntado, Santana apostará tudo daqui a dois
>anos. O populismo não é uma ideologia nem um programa,
>"é um camaleão oportunista". Com Sampaio na
>Presidência, que o amarrou ao programa de Barroso, e
>sem legitimidade eleitoral directa, vestirá
>provavelmente a pele de homem de Estado. Até às
>eleições. Se o não devemos subestimar enquanto máquina
>eleitoral, devemos também avaliar os seus limites. Tem
>pés de barro.
>3. Em dois anos, o Partido Socialista tem a
>oportunidade de oferecer ao país uma alternativa ao
>populismo. É o que a esquerda deve a Sampaio. O PR é
>"garante" e não "notário", disse. É em situações de
>crise que se verifica a importância do Presidente,
>deste e do que se lhe seguirá. O que se passou
>revaloriza as presidenciais de 2006
>(in PUBLICO, 13 de Julho, 2004)
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