| Subject: O homem que ficou em casa |
Author:
Cipriano Justo
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Date Posted: 16/07/04 15:23
Pode-se dizer que a partir das 21h45 do dia 9 de Julho a vida política portuguesa passou a ser outra. A direita acabava de averbar uma vitória no Palácio de Belém directamente proporcional à derrota eleitoral que sofrera menos de um mês antes. Nos primeiros daqueles vinte e seis dias Durão Barroso percebeu que não havia remodelação ministerial que apagasse tão cedo a derrota que a coligação sofrera a 13 de Junho, que até ao fim do seu mandato corria o risco de carregar com pelo menos uma derrota nas autárquicas e que os dias não iam ser fáceis, tanto em termos de governabilidade como para as suas ambições políticas. Ao contrário do que muitos analistas disseram na altura, a ida de Durão Barroso para Presidente da Comissão Europeia não foi mais uma deserção a acrescentar a uma lista que começava em António Guterres, foi a maneira mais hábil de dar continuidade ao programa do seu governo e guardar para si um lugar cuja visibilidade política lhe permite acalentar outros projectos no futuro.
No dia 9 de Julho, com o seu discurso, o Presidente da República lança no cesto dos papeis os resultados eleitorais de 13 de Junho, legitima uma sucessão política, torna-se o garante da prossecução de algumas das políticas que estiveram na base da derrota eleitoral da direita e leva à demissão o secretário-geral do PS. Hoje é difícil acreditar que Jorge Sampaio tivesse tido necessidade de duas semanas para construir a decisão que tomou. Teve-a para produzir este conjunto de resultados. Como é difícil acreditar que Durão Barroso tenha decidido aceitar o cargo que lhe propuseram sem que estivesse garantida a sua sucessão por Santana Lopes A este nível e com o que está em jogo, ninguém joga a feijões. Portanto a nossa tese é de que entre Durão Barroso e Jorge Sampaio houve desde a primeira hora um entendimento quanto à maneira como as coisas se iam passar e que o processo de sucessão só não se fechou tão cedo porque os partidos da esquerda cedo começaram a exigir eleições antecipadas.
Pode-se então recuperar uma velha palavra de ordem e dizer, Santana-Sampaio, a mesma luta? Agora que já estamos no dia seguinte, acho francamente que não. Salvaguardadas as devidas proporções e consequências, a decisão de Jorge Sampaio é da mesma natureza daquela que tomou no dia 25 de Abril de 1974. Mandaram-no ficar em casa e ele ficou, enquanto o povo de Lisboa transformava um golpe militar numa revolução. Desta vez agarrou-se ao argumentário que vinha defendendo em alguns dos seus textos, olhou para o hemiciclo da Assembleia da República, viu lá sentados um maioria de deputados prontos a dar o seu apoio a um governo de continuidade da coligação de direita e isso bastou-lhe para não ousar um golpe de asa e ir saber o que os portugueses pensavam sobre o que se estava a passar com as suas vidas. Reforçou a direita com mais direita, branqueou quem defendeu a invasão do Iraque, abriu as portas à demagogia, deu argumentos para que se mantenha a recessão económica e a crise social? É verdade. Mas a vida política é feita destes paradoxos e os homens e mulheres que a protagonizam não estão imunes a eles. Sendo o mesmo homem cuja vida política tem sido feita pela esquerda e com os votos dos eleitores de esquerda, é legitimo questionar a interpretação que Jorge Sampaio tem feito do seu papel enquanto Presidente da República. Não sou dos que vêm numa leitura minimalista que ele faz dos seus poderes a explicação para o desempenho que teve nesta como noutras conjunturas políticas. Se excluirmos a sua actuação em alguns momentos da governo do PS, diria que o ponto de viragem na sua relação com o seu partido e com os restantes partidos da esquerda se verificou no momento em que, na sequência da derrota do PS nas eleições autárquicas de Dezembro de 2001 e da demissão de António Guterres, a esquerda não conseguiu arranjar elementos de entendimento que desse lugar a um outro governo com apoio maioritário na Assembleia da República, acabando por entregar o poder à direita. Ora o que se passou nestas semanas foi precisamente o inverso do que a esquerda fez há dois anos e meio. Estou plenamente convencido que Durão Barroso só se demite depois de garantida a continuidade do seu governo, empenhando nisso o peso institucional do cargo para que tinha sido convidado e todos os argumentos que nestes momentos raramente são do domínio público.
Mas há um outro elemento que não deve ser menosprezado e que pode explicar, em parte, a decisão que Jorge Sampaio tomou. Nesta crise, o mais longe que os partidos de esquerda conseguiram ir foi reclamarem unanimemente por eleições antecipadas. No dia seguinte logo se veria. Isso não era suficiente para convencer Jorge Sampaio a dar esse passo. Tinha sido necessário mais, muito mais. Por exemplo, apresentarem nos dias que se seguiram à aceitação por parte de Durão Barroso de ir para Bruxelas um compromisso programático pré-eleitoral suficientemente sólido e credível para servir de contraponto à unidade que a direita apresentava. Mas em momento algum se verificou qualquer movimento no sentido dessa convergência. Esta talvez tenha sido uma das principais lições a retirar destes dias, em que os nossos desejos foram maiores do que a nossa vontade de os concretizar. Quanto a Jorge Sampaio, nada de novo a assinalar. Ficou mais uma vez em casa. Médico. Militante comunista
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