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Date Posted: 08:24:25 11/03/07 Sat
Author: Graciele
Subject: Reforma ortográfica

Recebi sobre o tema no e-mail esta reportagem , achei interessante:



fonte: Agência FAPESP

Para Luiz Carlos Cagliari, da Unesp, o Acordo
Ortográfico da Língua Portuguesa, que deverá
padronizar o idioma em oito países a partir de
2008, não tem base científica e trará mais transtornos do que benefícios

Entrevistas

Ruídos lingüísticos (com trema, por enquanto)

29/08/2007
Por Fábio de Castro

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foi
assinado em 1990 para uniformizar o registro
escrito nos oito países que falam o idioma:
Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau,
Moçambique, Portugal, Timor Leste e São Tomé e
Príncipe. A implementação do acordo, adiada
diversas vezes desde 1994, poderá ocorrer a
partir de janeiro de 2008 nos três países da
Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP)
que já ratificaram o protocolo: Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.

Facilitar o processo de intercâmbio cultural e
científico entre os países e garantir a
divulgação mais ampla do idioma são os principais
objetivos da unificação ortográfica que, entre
outras decisões, elimina o acento circunflexo em
palavras paroxítonas terminadas em "o" duplo
(como "vôo" e "enjôo"), extingue o trema e inclui
as letras K, Y e W no alfabeto.

Para o Ministério da Educação brasileiro, a
divergência de ortografias do português
prejudicaria sua divulgação e prática em eventos
internacionais. As mudanças necessárias em livros
escolares e arquivos de editoras seriam
compensadas pela atenuação do alto custo da
produção de diferentes versões de dicionários e livros.

Mas a resistência é grande em alguns meios,
principalmente em Portugal, onde haveria o maior
impacto na língua – com o acordo, desaparecem o
"c" e o "p" não pronunciados, como em "acção" e
"baptismo". Os portugueses precisarão também
trocar a grafia de "húmido" por "úmido".
Para alguns especialistas, a reforma traria
benefícios desproporcionalment e pequenos em
relação às dificuldades que representaria. "Em
uma reforma, ninguém ganha e muitos perdem",
afirmou Luiz Carlos Cagliari, professor do
departamento de Lingüística da Faculdade de
Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara.

Para o professor, a reforma é desnecessária e se
fundamenta em um grande desconhecimento da
natureza, das funções e dos usos da ortografia.
Especialista em fonética e fonologia, Cagliari
publicou 11 livros e atua na pesquisa em sistemas
de escrita, prosódia, ortografia e na história da
ortografia da língua portuguesa.

Agência FAPESP – Há base científica para as
modificações contempladas pelo acordo?

Luiz Carlos Cagliari – As reformas ortográficas
têm sido feitas sem o conhecimento científico do
que vem a ser a ortografia. Desse erro original
deriva uma série de equívocos. Mas a questão
fundamental não é se as mudanças serão feitas em
determinadas regras. O fundamental é saber se há
necessidade de mudança. Os argumentos dados para
justificar uma reforma como essa são, em geral, falhos.

Agência FAPESP – Poderia dar exemplo desses argumentos?

Cagliari – Um deles é "facilitar o uso da
língua". Mudar a ortografia não facilita a vida
de ninguém, porque a ortografia não representa a
fala de ninguém. É simplesmente uma representação
gráfica que permite a leitura. Não vou ler Camões
na pronúncia dele, mas na minha. Como todos fazem
isso, a ortografia não representa a pronúncia de ninguém.

Agência FAPESP – A unificação não facilitaria a
comunicação diplomática entre os países?

Cagliari – Unificar a ortografia é um equívoco.
Apesar de seguir regras de uso, tiradas de uma
tradição, a ortografia, como a linguagem em
geral, sofre transformações no tempo e no espaço.
A história da ortografia mostra que a escrita se
transforma continuamente. Veja, por exemplo, os
corretores ortográficos dos computadores, que
apresentam variação de opções de ortografias
regionais para línguas como o inglês e o francês,
ambas tradicionais. O inglês tem uma ortografia
britânica e outra americana, ambas tradicionais.
Então, por que precisamos ter apenas um modelo? O
problema diplomático atinge somente a língua
portuguesa? Ou é um falso problema?

Agência FAPESP – Alguns críticos dizem que a
reforma forçará uma mudança em todos os livros
didáticos, dicionários e arquivos de editoras,
mas que seria uma reforma superficial, que não
chegaria a cumprir o objetivo de padronizar a língua.

Cagliari – A idéia de simplificar a ortografia é
uma ilusão desse tipo de reforma ortográfica.
Talvez a única simplificação seja a abolição do
trema – que ainda terá exceção. Isso não
representa grande coisa. Na realidade, não
precisaríamos de sinal algum além das letras. Nem
acento, nem trema. O inglês não tem sinais
diacríticos e não cria problemas aos usuários.

Agência FAPESP – A reforma só faria sentido, então, se fosse mais profunda?

Cagliari – Há grandes confusões nas bases ou
regras da língua, com relação ao hífen, por
exemplo. Poderia haver apenas uma regra que
dissesse que as palavras compostas por composição
levam hífen e as compostas por derivação não
levam. O uso de acento gráfico em português
também gera confusão. Há um número enorme de
regras, todas desnecessárias, porque o falante
sabe onde cai o acento nas palavras e quais
vogais são abertas ou fechadas. Tirar uma regra ou outra não muda muito.

Agência FAPESP – As dificuldades de implantação
da reforma são grandes demais comparadas aos benefícios?

Cagliari – Venho dizendo há décadas: o melhor é
não mexer na ortografia, não fazer leis, deixar a
tradição – recomendada pelos dicionários,
gramáticas, vocabulários ortográficos – fazer sua
história. Hoje, temos que lidar com e ler muitos
documentos antigos, escritos em outras
ortografias, e nada disso perturba, nem mesmo os
juristas, que precisam desses documentos para se pronunciar em processos.

Agência FAPESP – A ortografia deveria se basear na tradição e não em leis?

Cagliari – Seria melhor. Os usuários agem da
seguinte forma: ou sabem escrever – e o fazem com
certeza – ou têm dúvidas. Nesse caso, não adianta
pensar, a solução é olhar no dicionário e não
ficar procurando regras nas gramáticas. As
regras, estudadas apenas em alguns momentos da
escola, ajudam. Mas, na hora da dúvida
ortográfica, o que salva os usuários comuns não
são as regras, mas o conhecimento de outros
fatores, como a etimologia e a comparação.

Agência FAPESP – Entre as mudanças propostas,
quais o senhor considera mais impactantes? Nenhuma delas é imprescindível?

Cagliari – Em uma reforma, ninguém ganha e muitos
perdem. No caso desse acordo, nenhuma mudança
sugerida é necessária. Poderíamos ficar com o que
tínhamos e nada mudaria. A grande confusão veio
quando resolveram transformar a ortografia em
lei, um absurdo tão grande quanto o fato de terem
tornado oficial uma nomenclatura gramatical
brasileira. Uma aberração sem tamanho.

Agência FAPESP – A maior resistência à reforma
vem de Portugal. Por que isso ocorre? O senhor
vê, como alguns, uma "brasilificaçã o" da língua com essa reforma?

Cagliari – Estive em reuniões em Portugal com
acadêmicos e escritores que discutiam a
unificação. Eles acham a reforma totalmente
desnecessária. De fato, esta reforma, ao
contrário da feita na década de 1910, representa
um gesto brasileiro contra a tradição da língua.
Para uma pessoa culta, a escrita traz as marcas
da pátria, da história, e isso fica prejudicado
por leis que pretendem que todos sejam iguais.

Agência FAPESP – A padronização tornará os livros atuais obsoletos?

Cagliari – Isso é um problema que decorre, como
todos os outros, de transformar a ortografia em
lei e não da reforma ortográfica em si mesma.
Alguém poderia propor alterações na grafia das
palavras e, se os usuários passassem a aderir,
com o tempo viraria tradição, como sempre
ocorreu. Se não for oficial, a ortografia pode
aparecer de modos diferentes e os livreiros não
precisam jogar nada no lixo. Nem precisaríamos
jogar fora os livros escolares de nossas
bibliotecas escolares porque estão com a ortografia errada.

Agência FAPESP – Quem sofrerá maior impacto com a reforma?

Cagliari – Os literatos sofrerão mais, porque a
ortografia também pode ter valor estilístico,
como vemos em autores como Saramago. Por outro
lado, em um país em que grande parte da população
não lê, uma reforma ortográfica vem perturbar apenas os letrados.

Agência FAPESP – Tivemos reformas em 1919, 1943 e
1971. O português muda demais?

Cagliari – Poderíamos ter seguido o exemplo das
línguas francesa e inglesa que, apesar da longa
tradição de brigas por reformas ortográficas, se
mantêm há séculos sem grandes mudanças. Mas
entramos em um caminho errado. Isso ocorre
porque, para entender a ortografia, precisamos
saber que a leitura não é transcrição fonética
nem semântica, portanto basta reconhecer na
escrita o que o usuário fala. A ortografia foi
criada para neutralizar a variação lingüística:
não interessa se você fala "tia" ou "tchia". A
escrita é uma só: tia. A letra "A" representa o
som de todos os "As" falados em todos os dialetos
em todas as palavras da língua. Assim, na palavra
"acharam", que se pronuncia "acharu", o "A" tem o som de "U".

Agência FAPESP – Quanto tempo uma reforma dessas
deve levar para ser assimilada pelas populações?

Cagliari – Em relação à reforma de 1919,
constatamos que somente na segunda metade do
século 20 as pessoas aderiram de fato. E nem
todas. As publicações só adotaram a reforma 50
anos depois. Nas reformas posteriores, a
intervenção do Ministério da Educação nas
escolas, nos livros e nas editoras foi
ameaçadora, como é hoje: ou tudo ou nada. Com
relação às pessoas cultas, a reforma começa logo,
por força social. Na escola, é um grande problema
para os professores e menor para os alunos, que
não precisam modificar o que sabiam antes. Para o
povo, pouco interessa. Muitos continuarão
escrevendo fora de qualquer padrão tradicional ou
imposto por lei, mas de acordo com hipóteses que
fazem de como podem escrever para alguém ler e
entender o que eles querem dizer.

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