VoyForums
[ Show ]
Support VoyForums
[ Shrink ]
VoyForums Announcement: Programming and providing support for this service has been a labor of love since 1997. We are one of the few services online who values our users' privacy, and have never sold your information. We have even fought hard to defend your privacy in legal cases; however, we've done it with almost no financial support -- paying out of pocket to continue providing the service. Due to the issues imposed on us by advertisers, we also stopped hosting most ads on the forums many years ago. We hope you appreciate our efforts.

Show your support by donating any amount. (Note: We are still technically a for-profit company, so your contribution is not tax-deductible.) PayPal Acct: Feedback:

Donate to VoyForums (PayPal):

Login ] [ Contact Forum Admin ] [ Main index ] [ Post a new message ] [ Search | Check update time | Archives: 123456789 ]
Subject: NÂO Me Atreveria...


Author:
Luis Blanch
[ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ]
Date Posted: 13/12/04 11:34
In reply to: Ângelo Novo 's message, "Correspondência com um jovem comunista (sobre A. Cunhal)" on 11/12/04 23:09

Caro Ângelo - esqueçamos os arrazoados primários... Eu não me atreveria , pese à análise que fazes e que é merecedora de atenção , a fazer este tipo de considerações.
O "Rumo à Vitória" data de princípios dos anos 60 , feito num contexto político ,económico e social muito caracterizados.
O PCP , nesse contexto cheio de contradições e onde a conflitualidade social e a luta contra o neo-fascismo salazarento era práticamente e exclusivamente impulsionada pelo Partido, desenvolvia as suas acções com as limitações decorrentes da clandestinidade e perante uma realidade objectiva cheia de escolhos.


Subjectivamente desparava-se-lhe um trabalho ciclópico ,movimentando-se num quadro de incipiente desenvolvimento do capitalismo e de difícil expressão no movimento operário ,com a consequente debilidade da consciência de classe...

Hoje, com as grandes mutações do capitalismo,pese a conservar os seus factores de uma conflitualidade antagónica, novos elementos qualitativos estão e vão exigir respostas diversas para os velhos problemas.
Todavia, não podemos indissociar essas alterações de ,apesar de tudo, modelos alternativos credíveis.








>Estive a ler o 'Rumo à Vitória'. Pela primeira vez,
>integralmente.
>Sinceramente, é uma bosta. Política e teoricamente.
>De facto, o PCP é um espelho do Cunhal. Desde a treta
>da aliança com a burguesia liberal e as camadas
>anti-monopolistas, até às deturpações do que o Lenine
>disse acerca da tomada do poder de Estado e a fase da
>transição de consolidação do poder operário (estou a
>referir-me só a 'O Estado e a Revolução'), vê-se o
>oportunismo cunhalista. Não é que o que li seja algo
>de novo, mas o contacto directo com aquilo, torna a
>repugnância mais acesa, porque o mito do Cunhal como
>revolucionário marxista e leninista cai por terra.

>
>
>Tudo no PCP é Cunhal, de ponta a ponta. A começar pela
>sua bem fruste teoria e estratágia, naturalmente. Aqui
>não há grandes originalidades. É tudo importado e,
>depois, recauchutado na linguagem teleológica e
>moralista do nosso grande Álvaro. No meu artigo ('PCP:
>os estado das coisas') falei da teoria do capitalismo
>monopolista de Estado. Isso é verdade, mas aquilo que
>no CME é uma construção bem argumentada, em termos de
>economia política, na linguagem do Cunhal passa a ser
>uma sopa indigesta de "aprofundamento da democracia",
>económica, social, cultural, etc.. Ele, em rigor, não
>faz teoria nenhuma. Nunca saíu da sua pena qualquer
>desenvolvimento teórico original no marxismo. O que
>ele é, é uma espécie de visionário milenarista que,
>querendo à força ser materialista, mas sem qualquer
>queda para o trabalho científico, alinha alguns dados
>socio-económicos e embrulha-os depois na linguagem do
>progressivismo e na teoria estalinista da revolução
>por estádios.
>
>Ora, é por demais sabido que a teoria estalinista dos
>estádios é uma falsificação grosseira do que o Lenine
>expôs em 'Duas Tácticas da Social Democracia na
>Revolução Proletária'. Mas Cunhal consegue ainda
>falsificar a falsificação até a tornar irreconhecível.
>Assim, no 'Rumo à Vitória', trata ele da revolução
>democrática e nacional. Depois, numa outra fase, que
>fica para já adiada sine die, teremos a
>revolução socialista. E é assim que as coisas são
>efectivamente colocadas no programa do partido saído
>do congresso de 1965. Faremos a revolução democrática
>e nacional com a união de todos os portugueses
>honrados anti-monopolistas e anti-imperialistas. Muito
>bem. E depois? Depois teremos a revolução socialista,
>de onde resultará a ditadura do proletariado. Mas
>quando? Não sabemos. E quem fará esta revolução?
>Também não sabemos. Sobre isto, o máximo que o
>programa avança é que "alguns dos aliados do
>proletariado na revolução democrática e nacional
>sê-lo-ão também na revolução socialista" (capítulo
>III, 17º parágrafo). Mistério sobre quem serão. E
>depois o programa tem esta ressalva notável, para
>tranquilização antecipada da burguesia: "dada a
>composição de classes da sociedade portuguesa e o peso
>do proletariado industrial e rural, a realização da
>revolução democrática e nacional criará condições
>favoráveis para a conquista do poder pelo proletariado
>sem necessidade de uma nova insurreição". Olá, muito
>bem se canta na sé. Quer dizer: como o proletariado é
>numeroso... não precisará de fazer a revolução. E a
>lógica é uma batata, realmente. Marx aqui tinha
>tendência a pensar precisamente o contrário: à medida
>que os exércitos proletários se engrossam, aproxima-se
>a hora da revolução social. Cunhal é mais generoso,
>para com a burguesia naturalmente. Para ele, o
>proletariado é uma "força tranquila", à Mitterrand,
>que só com a sua presença e garbo impressionará
>certamente a burguesia, fazendo-a logo aderir
>prontamente ao socialismo.
>
>Enfim, com todas estas lacunas e partes gagas, podemos
>contudo afirmar que, até ao 25 de Abril, o PCP foi,
>pelo menos em termos programáticos, um partido
>estalinista ortodoxo. O pior veio depois ainda.
>
>Feita a revolução dos cravos, o PCP foi chamado aos
>governos provisórios, para a transição democrática. E
>sentiu-se na necessidade de fazer logo mais concessões
>programáticas. Convocou assim um Congresso
>extraordinário que se realizou em 20 de Outubro de
>1974. Repara bem, nem um mês tinha passado sobre o
>golpe fascista de Spínola, dito da "maioria
>silenciosa", travado nas ruas por uma admirável
>mobilização popular. As massas estavam permanentemente
>nas ruas e a revolução num poderoso ascenso. E o PCP o
>que faz? Pois revê o seu programa, deitando
>pressurosamente pela borda fora a "ditadura do
>proletariado", um conceito essencial do marxismo.
>Lenine chamou-lhe mesmo a "pedra de toque" do
>marxismo. Mas isso ainda poderia ser tido como uma
>questão meramente terminológica e conceptual. O PCF
>também eliminou do seu programa a ditadura do
>proletariado, uns anos mais tarde, mas aí a coisa não
>se deu sem uma grande discussão teórica e filosófica.
>Aqui em Portugal, nem ninguém reparou muito nisso. O
>problema é que, na situação histórica em que isso
>aconteceu cá, foi extraordinariamente revelador. E
>além do nome eliminou-se a coisa (ou já estava
>eliminada há muito) E não foi só essa a alteração.
>Entre muitos outros amaciamentos, o programa revisto
>em 1974 diz agora que "com a vitória do 25 de Abril e
>a consequente destruição do Estado fascista aumentam
>as possibilidades de se chegar a uma tal situação" (de
>passagem pacífica ao socialismo) (capítulo III, 19º
>parágrafo). Em Outubro de 74 o PCP dá por destruído o
>Estado fascista e diz que está tudo em ordem para uma
>passagem pacífica ao socialismo. Como se viu logo de
>seguida, aliás... Mas diz mais o PCP. Agora dá mais um
>torção subtil na fórmula correspondente de 1965 e diz
>que: "aliados sociais do proletariado na realização
>dos grandes objectivos da revolução democrática e
>nacional sê-lo-ão também na construção do socialismo"
>(capítulo III, 20º parágrafo). A redacção não é
>inequívoca mas se foi alterada foi precisamente para
>dar a ideia que os democratas agora já vão todos (e
>não só "alguns") juntos connosco direitinhos para o
>socialismo. Que é um caminho pacífico, já se vê. Como
>o não seria? Pois se é para fazer juntamente com todos
>os democratas nacionais. Só os fascistas é que se
>oporão, mas esses já ficaram para trás. Ele de facto
>insistia muito nisso: com a unidade de todas as forças
>democráticas, caminharemos em frente para o
>socialismo. Gostaste deste passe de pura mágica? Estas
>questões teóricas fundamentais eram decididas assim,
>sem a mínima discussão, com um ligeiro acerto de frase
>que era depois aprovada pela multidão, com muitas
>palmas, vivas, punhos no ar e "assim se vê a força do
>PC".
>
>E o que é mais curioso é que se continua ainda hoje a
>insistir nesta mesmíssima linha política, após trinta
>anos de desastres e derrotas contínuos e
>ininterruptos.
>
>Está ainda completamente por fazer a história da
>intervenção do PCP - e particularmente de Álvaro
>Cunhal - na revolução de 1974-5. Cunhal entrou pela
>velhice dentro muito preocupado com a "verdade e
>mentira" nesta matéria. Ele é, notoriamente, um
>péssimo servidor da verdade, particularmente em
>questões históricas em que segue com gosto a escola de
>falsificação estalinista, sempre enredado no seu
>labirinto de justificações e contra-justificações
>pessoais para todas as manobras possíveis e
>imaginárias. Mas de ter tentado levar Portugal para
>uma "ditadura comunista" não é ele certamente culpado,
>como o acusa histericamente a direita. Em primeiro
>lugar porque lá do sol radiante do Kremlin se fartaram
>de lhe assinalar com toda a clareza que isto aqui era
>no coração da zona NATO, eles não queriam cá confusões
>e não nos dariam apoio. Em segundo lugar porque toda o
>arrazoado "teórico" do partido apontava para revolução
>democrática, sim, e quanto ao socialismo confiar numa
>transição pacífica a longo prazo. A actuação do PCP
>neste período, pelo que podemos desde já saber, foi a
>todos os títulos lamentável. Participou efectivmente
>na reforma agrária alentejana (enfim, fazia parte da
>revolução "democrática"), depois de os militares do
>COPCON lhe terem escancarado a porta. Mas o movimento
>popular urbano e grande parte da mobilização operária
>(e toda a de cunho anti-capitalista) passou-lhe
>completamente ao lado. Andou basicamente aos papéis e
>a apanhar bonés ao longo de todo o PREC. Como um
>forcado trapalhão, ora tentava aplacar pelos cornos o
>touro da revolta e criatividade popular, ora lhe
>agarrava a cauda deixando-se arrastar um bocadinho. Se
>de facto houve algum esboço de revolução socializante
>isso deveu-se inteiramente à "esquerda militar" do MFA
>(e em especial ao cabeçudo do Vasco Gonçalves), a quem
>o PCP teve que, por algum tempo, dar um apoio muito
>relutante. Assim que o Vasco caíu, o PCP aproveitou
>logo a primeira oportunidade para firmar um acordo de
>rendição muito pouco honroso com o "grupo dos 9". E
>desde então até hoje tem andado sempre, de trincheira
>em trincheira, muito lacrimosamente, a defender as
>"conquistas de Abril" que se vão esvaindo, uma a uma,
>quando na altura própria não quis ou não soube criar
>condições para as defender a todas por junto.
>
>Aliás, houve muitas "conquistas de Abril", das que
>ficaram plasmadas na Constituição de 1976, que nunca
>constaram dos objectivos programáticos do PCP nem
>resultaram da sua iniciativa política efectiva no
>terreno durante a revolução (apropriação colectiva dos
>principais meios de produção, solos e recursos
>naturais; planificação democrática; controlo operário;
>comissões de trabalhadores; cooperativas e autogestão;
>as organizações populares de base territorial, etc.,
>etc.). Numa grande medida, a riqueza extraordinária da
>revolução de 1974-5 colheu de surpresa e passou
>completamente ao lado do PCP, tolhido pelos esquemas
>rígidos cunhalistas e sem qualquer capacidade de
>iniciativa.
>
>Enfim, com o programa da "democracia avançada",
>adoptado em 1988, damos mais um passo no revisionismo
>liquidacionista mais descarado. Agora entre a
>democracia e o socialismo há ainda uma outra coisa,
>que se chama "democracia avançada" (que é um conceito
>copiado dos teóricos dos PCF, mas adoptado aqui muito
>serodiamente, vinte e tal anos depois, quando já não
>faz qualquer sentido histórico e serve apenas para
>enganar os papalvos com palavras grandiloquentes e
>completamente ocas). Ora, é claro que, sem ser
>precisas mais explicações, todos os democratas podem
>ser democratas avançados e todos os democratas
>avançados se podem tornar socialistas. Estamos todos a
>avançar nesse caminho, que é um continuum, sem
>qualquer solução de continuidade. Revoluções para quê?
>O que é preciso é confiar na capacidade de iniciativa
>cívica de todos os cidadãos de boa vontade (menos os
>monopolistas, mas mesmo estes pode ser que, enfim,
>haja um ou outro honesto). E é isto que nos continua
>ensinar este partido "marxista-leninista". É possível
>que nesta última trafulhice já tenha havido
>participação do pessoal do "novo impulso", com quem
>Cunhal andou confiadamente metido durante muito tempo.
>Depois deu-lhe uma crise de velhice e de insegurança,
>lá achou que andavam a querer levá-lo às boas e
>começou a opor-se. Quando foi derrotado partiu por aí
>fora desaforado, a fazer campanha contra o próprio
>partido, que era afinal o seu partido e estavam
>a querer transformar num outro partido, que já não
>seria o seu e muito seu PCP. Uma birra
>infanto-senil que era afinal bem escusada, uma vez que
>todo o caminho até onde se chegou foi sendo sempre
>desbravado, passo a passo, pelo próprio Cunhal, até à
>"democracia avançada" inclusivé. Enfim, teve que se
>refazer a composição dos órgãos executivos, purificar
>o CC e mudar de SG até ficar tudo inteiramente ao seu
>gosto. E agora já pôde, enfim, mandar o seu aceno
>cadavérico e uma mensagem toda babada ao XVII
>congresso, o da reafirmação do "marxismo-leninismo".
>
>A teoria cunhalista impregna tudo no PCP. É uma
>cassete e tanto. O PCP desde a "reorganização" de 1941
>foi sempre um partido de "pensamento único": ou o do
>Fogaça, ou o do Cunhal, o do galo que estiver no
>poleiro. Ali, quem perdia o poder, arredava e ia
>pregar para outra freguesia. Com a ajuda da
>clandestinidade, aquilo funcionava um pouco como os
>gangs da mafia de Chicago. Enfim, era raro as
>coisas serem resolvidas à bala. Era mais pela calúnia,
>por campanhas de isolamento e intoxicação, pela
>intimidação física e moral, etc.. Além disso, o Cunhal
>habituou-se durante décadas a tratar na direcção do
>partido com companheiros muito abaixo das suas
>capacidades intelectuais e sem qualquer formação
>marxista. Pôs e dispôs como muito bem entendeu do
>programa, da estratégia, das alianças, estruturais e
>conjunturais, das tácticas, etc., etc.. Aquela
>rapaziada ouvia e ficava toda a olhar para ele como um
>boi para um palácio.
>
>As teses agora aprovadas no XVII Congresso são,
>naturalmente, um grande ensopado de cunhalismo. O
>discurso do Jerónimo no congresso - uma peça notável,
>no seu género - é um grande condensado de cunhalismo.
>Toda a gente que quer ser alguém no partido tem de
>encornar aquele esquema mental e, depois de bem
>encornado, aquilo inviabiliza qualquer possibilidade
>de desenvolvimento criativo original ou de pensamento
>crítico inovador. O cunhalismo é completamente
>estéril. Um círculo fechado. Se tu entras no
>cunhalismo, já não sais mais. E enquanto lá estás,
>deixa todo o pensamento cá fora. Em todo aquele cone
>que vai do Cunhal até à base do partido há uma zona de
>rarefacção absoluta onde reina o grau zero do
>pensamento independente e da liberdade de espírito.
>Parece o triângulo das Bermudas. E isso é assim porque
>há uma compulsão moral avassaladora para "cerrar
>fileiras". Sabes como são as "formações ordenadas" no
>râguebi? O PCP é assim. O Cunhal à frente e todos
>atrás, de cabeça baixa a empurrar.
>
>É por isso que, aqui em Portugal, quem sabe mesmo
>alguma coisa de marxismo (Barata Moura, António
>Mendonça, João Maria de Freitas Branco, etc.)
>aprendeu-o apesar do PCP e, para poder respirar
>um bocadinho, acaba mas é por ir dar uma curva bem
>larga e fazer de conta que o partido nem existe.
>
>Mas o cunhalismo é mais do que "teoria". Aliás, como
>teoria, é coisa pouca. Aquilo é sobretudo uma moral e,
>nesse campo, faz-me lembrar aquilo que Nietzsche
>chamava de a "moral do rebanho". A moral dominante do
>partido acha que o Eu deve ser punido e humilhado
>ritualmente, em favor do "colectivo". Mas o
>"colectivo" é difuso e obedece naturalmente a um
>centro de gravidade, que só pode ser o super-Eu (não
>confundir com o super-ego freudiano) do guru infalível
>e indiscutível. Esta "moral" colectivística manda que
>não se escolham os mais aptos e capazes para as
>funções de responsabilidade e decisão, porque isso
>seria considerado "elitismo". Mas na verdade essa é
>apenas a justificação "proletária" esfarrapada que a
>moral cunhalista arranjou. O que interessa, de facto,
>é que ninguém na direcção faça sombra ao "pensamento
>único" partidário. Quando, excepcionalmente, se
>escolhe um homem ou mulher capaz e com pensamento
>próprio, fica logo emasculado em "colectivo" com um
>mar de medíocres e sob a direcção de um camarada
>"firme" e de toda a confiança, que reporta
>directamente ao guru. Ali ficará então a ser
>amesquinhado sistemanticamente, submetido ritualmente
>ao império ditatorial da vulgaridade.
>
>Este peculiar conceito "igualitarista" significa
>apenas que o partido odeia o talento, e por isso é
>dominado por gente amarga e ressentida. Quem manda lá
>agora são os Domingos Abrantes, as Luísas Araújos, os
>Franciscos Lopes, as Rosas Rabiais, etc.. Eles odeiam
>a burguesia, realmente, mas do mesmo modo que odeiam
>tudo o que se destaca, que tem brilho próprio e
>qualidade especial. Isto não tem nada a ver com a
>imposição da "regra de ouro" da maioria operária no
>CC, com a qual até concordo. Os operários escolhidos
>também não são os mais talentosos e cultivados. E
>entre os intelectuais, o que se vê lá mais são
>cabeças-de-alho-chocho. Não tem nada a ver com classe
>ou origem social. É entendimento especial, que eu
>diria uma espécie de revanchismo da mediocridade.
>
>Ora, esta peculiar "meritocracia" invertida do PCP
>cria um problema muito grave... quando o guru falhar
>de vez. Quem é que vai pensar, agora? O pensamento é o
>mesmo de sempre, como é óbvio. É o pensamento do
>mestre, aquela sopa indigesta de estalinismo degradado
>que eles insistem em chamar "marxismo-leninismo". Mas
>o problema é que esse pensamento está completamente
>falido, nos seus lineamentos fundamentais. E depois já
>não tem sequer a hipótese de se regenerar, de se
>adaptar dinamicamente a realidades políticas novas e
>cambiantes. Os discípulos não estão programados para
>isso, nem têm o mínimo de massa encefálica necessária
>para o fazer.
>
>Todo o sistema pêcêpista só é sustentável enquanto
>existe o guru, que pensa tudo e tudo orienta. Quando o
>guru faltar, a coisa começa a desagregar-se. Há
>dissidências em massa: de gente que já não está
>disposta a sujeitar-se a outra autoridade menor que a
>do guru genuíno, de gente que acha que os sucessores
>não representam bem o pensamento autêntico do guru,
>enfim, de gente que acha que o pensamento do guru já
>está um bocado fora de moda, etc.. Reunindo os últimos
>fiéis dos fiéis (mais alguns oportunistas sem
>escrúpulos), a coisa pode ainda andar um bocado, em
>piloto automático, como os perus a quem se corta a
>cabeça. Mas a tendência será, como em muitas seitas
>religiosas, para tudo se encaminhar para uma espécie
>de suicídio colectivo. E é nisso que estamos agora,
>enfim. Esperemos que já não demore muito.
>
>
>
>Não me vou alongar sobre isto, foi mesmo só para
>desabafar a necessidade de se romper com as categorias
>de pensamento bafiento e liquidacionista que o PC,
>numa linha cunhalista - versão (mal) recauchutada para
>o século XXI - insiste em prosseguir. Evidentemente,
>não alinho com a corja direitista, ela própria produto
>deformado desse antro de revisionismo que é o PCP.
>Cada vez mais, penso que é um imperativo o pensamento
>crítico, balizado po princípios de honestidade
>intelectual, capacidade de abstracção (tanto na
>construção teórica, como no posicionamento no que toca
>ao nosso objecto de estudo e de intervenção),
>consciência auto-crítica efectiva e ter como eixo
>analítico a necessidade de produção de conhecimento
>científico o mais rigoroso possível, balizado pelo
>marxismo clássico e, tendo como objectivo fundamental,
>a práxis revolucionária da classe trabalhadora.

>
>
>
>Vamos ter muito, muito que fazer.
>
>A começar por varrer para a sucata toda essa tralha
>velha e mais que inútil, tóxica e malsã, que nos
>deixaram de herança. E cuja responsabilidade cabe,
>acima de tudo e todos, a um homem muito concreto.
>Devido ao seu desmesurado orgulho pessoal, ao seu
>estilo de liderança implacavelmente autocrático, à sua
>parca honestidade intelectual, à sua total
>incapacidade auto-crítica, à sua credulidade extrema,
>à sua gritante falta de lucidez, à sua falta de
>sentido prático e de malícia na avaliação de
>caracteres e situações, à sua insuficiente cultura
>marxista, ao seu dogmatismo hierático, à sua rigidez
>intelectual extrema e total falta de criatividade
>teórica e política.
>Por tudo isso, Cunhal foi responsável por erros
>tremendos. E é dele em última análise a
>responsabilidade pela transformação do Partido
>Comunista Português (que não é de modo algum
>propriedade sua) no lamentável despojo que ele hoje é,
>um misto de soviete supremo brejnevista e de Igreja
>Universal do Reino de Deus.
>
>Álvaro Cunhal tem vultuosos serviços prestados ao povo
>português e também aos povos das ex-colónias
>portuguesas. É um personagem histórico. Deve-lhe muito
>o actual regime político português, embora os seus
>dominadores não reconheçam essa dívida nem lhe prestem
>tributo por ela. Cunhal foi um lutador e, sempre que
>chamado a sacrifícios, portou-se como um homem íntegro
>e vertical. Por muitos anos que viva e muitos mais
>erros que cometa ainda, não é concebível que consiga
>enegrecer o seu registo de tal modo que este se torne
>negativo.
>
>Mas o seu passivo é bem real, continua a acumular-se
>de forma preocupante e vai ter de ser avaliado com
>todo o cuidado. Em termos de organização política, não
>nos deixa nada que sirva ou que possa ter algum
>préstimo nos novos tempos. O PCP, ou é para abater
>pura e simplesmente, como um velho navio em doca seca,
>ou então terá de ser integralmente reinventado, de
>popa à proa, do porão à gávea.
>
>Em termos de pensamento político também quase nada nos
>deixa de interesse. Mas há uma outra coisa, muito
>importante.
>
>Se alguém lá da brigada do reumático estalinista lesse
>o que eu escrevi mais acima, diria certamente para
>consigo: este bandido é esperto, mas muito gostava de
>saber o que é que ele vale de facto.
>Sentindo-se incomodado com o que eu digo, e estando na
>minha presença, até seria capaz de crescer para mim e
>olhar-me olhos nos olhos, para ver bem se as minhas
>pupilas estremecem. E eu até acho isso muito bem e
>perfeitamente adequado. Não há coragem alguma que não
>seja, em última instância, coragem física. Tu podes
>ter as ideias mais belas e inteligentes do mundo, mas
>se "rachas" logo à primeira estalada (ou, pior que
>isso, à primeira oferta de emprego), não mereces que
>ninguém te siga. Eles aprenderam por experiência feita
>a importância destas avaliações.
>
>Se quiseres, é isto de facto que é o legado essencial
>e imorredouro deles. A paixão pela liberdade, pela
>solidariedade, e a noção de que as ideias políticas
>que se assumem são para ser encarnadas no próprio
>corpo e levadas até ao limite do risco físico mais
>extremo. Isto é uma coisa importantíssima, essencial
>num revolucionário, e que nestes tempos de calmaria
>"democrática" se perdeu muito infelizmente.
>
>É um pouco trágico este desencontro com o PCP. É lá
>que estão ou estiveram todos os meus (os nossos)
>"cromos". Eu quando era criança coleccionava os
>"cow-boys": o Roy Rogers, o John Wayne, etc.. Quando
>me tornei adolescente vi logo que estes heróis eram de
>plástico, não valiam nada. Depois arranjei outros, os
>quais conservei para toda a vida. São o Pires Jorge, o
>Jaime Serra, o Dias Lourenço, o Octávio Pato e tantos
>outros e outras. Isto de entre os cá da minha terra,
>com são aqueles com quem eu partilho um mesmo
>ethos e aquela especial sentimentalidade
>portuguesa. Às vezes espreitava-os de longe, lá na
>festa do Avante, e sentia um certo estremecimento.
>Nunca os conheci (nem a Álvaro Cunhal), mas sinto uma
>necessidade enorme de pensar que estamos juntos
>nalguma coisa, eu e eles. Que há uma corrente que
>passa deles para nós, mesmo que não nos cheguemos a
>encontrar e a passar palavra pessoalmente. Eu sei que
>eles estão lá e gostava que eles também tivessem a
>certeza de que nós cá estaremos. Mesmo não nos
>entendendo lá muito bem.
>
>O tempo é um rio espesso e malicioso. Deixa sulcos
>profundos, cava abismos intransponíveis. Mas no final
>de todos os finais, se ele existe, tudo vai dar certo.
>E se esse final não existe, como eu suspeito, então a
>luz da esperança vai continuar para sempre a brilhar
>enigmaticamente do fundo do tempo. E os netos dos
>nossos netos serão, por sua vez, chamados a
>excederem-se a si mesmos para a alcançar.
>
>Eh, pá. Lá estou eu outra vez a fazer poesia. Tchau,
>até logo.
>
>
>Ângelo Novo

[ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ]

Replies:
Subject Author Date
Re: NÂO Me Atreveria...Ângelo Novo13/12/04 11:54


Post a message:
This forum requires an account to post.
[ Create Account ]
[ Login ]
[ Contact Forum Admin ]


Forum timezone: GMT+0
VF Version: 3.00b, ConfDB:
Before posting please read our privacy policy.
VoyForums(tm) is a Free Service from Voyager Info-Systems.
Copyright © 1998-2019 Voyager Info-Systems. All Rights Reserved.