| Subject: NÂO Me Atreveria... |
Author:
Luis Blanch
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Date Posted: 13/12/04 11:34
In reply to:
Ângelo Novo
's message, "Correspondência com um jovem comunista (sobre A. Cunhal)" on 11/12/04 23:09
Caro Ângelo - esqueçamos os arrazoados primários... Eu não me atreveria , pese à análise que fazes e que é merecedora de atenção , a fazer este tipo de considerações.
O "Rumo à Vitória" data de princípios dos anos 60 , feito num contexto político ,económico e social muito caracterizados.
O PCP , nesse contexto cheio de contradições e onde a conflitualidade social e a luta contra o neo-fascismo salazarento era práticamente e exclusivamente impulsionada pelo Partido, desenvolvia as suas acções com as limitações decorrentes da clandestinidade e perante uma realidade objectiva cheia de escolhos.
Subjectivamente desparava-se-lhe um trabalho ciclópico ,movimentando-se num quadro de incipiente desenvolvimento do capitalismo e de difícil expressão no movimento operário ,com a consequente debilidade da consciência de classe...
Hoje, com as grandes mutações do capitalismo,pese a conservar os seus factores de uma conflitualidade antagónica, novos elementos qualitativos estão e vão exigir respostas diversas para os velhos problemas.
Todavia, não podemos indissociar essas alterações de ,apesar de tudo, modelos alternativos credíveis.
>Estive a ler o 'Rumo à Vitória'. Pela primeira vez,
>integralmente.
>Sinceramente, é uma bosta. Política e teoricamente.
>De facto, o PCP é um espelho do Cunhal. Desde a treta
>da aliança com a burguesia liberal e as camadas
>anti-monopolistas, até às deturpações do que o Lenine
>disse acerca da tomada do poder de Estado e a fase da
>transição de consolidação do poder operário (estou a
>referir-me só a 'O Estado e a Revolução'), vê-se o
>oportunismo cunhalista. Não é que o que li seja algo
>de novo, mas o contacto directo com aquilo, torna a
>repugnância mais acesa, porque o mito do Cunhal como
>revolucionário marxista e leninista cai por terra.
>
>
>Tudo no PCP é Cunhal, de ponta a ponta. A começar pela
>sua bem fruste teoria e estratágia, naturalmente. Aqui
>não há grandes originalidades. É tudo importado e,
>depois, recauchutado na linguagem teleológica e
>moralista do nosso grande Álvaro. No meu artigo ('PCP:
>os estado das coisas') falei da teoria do capitalismo
>monopolista de Estado. Isso é verdade, mas aquilo que
>no CME é uma construção bem argumentada, em termos de
>economia política, na linguagem do Cunhal passa a ser
>uma sopa indigesta de "aprofundamento da democracia",
>económica, social, cultural, etc.. Ele, em rigor, não
>faz teoria nenhuma. Nunca saíu da sua pena qualquer
>desenvolvimento teórico original no marxismo. O que
>ele é, é uma espécie de visionário milenarista que,
>querendo à força ser materialista, mas sem qualquer
>queda para o trabalho científico, alinha alguns dados
>socio-económicos e embrulha-os depois na linguagem do
>progressivismo e na teoria estalinista da revolução
>por estádios.
>
>Ora, é por demais sabido que a teoria estalinista dos
>estádios é uma falsificação grosseira do que o Lenine
>expôs em 'Duas Tácticas da Social Democracia na
>Revolução Proletária'. Mas Cunhal consegue ainda
>falsificar a falsificação até a tornar irreconhecível.
>Assim, no 'Rumo à Vitória', trata ele da revolução
>democrática e nacional. Depois, numa outra fase, que
>fica para já adiada sine die, teremos a
>revolução socialista. E é assim que as coisas são
>efectivamente colocadas no programa do partido saído
>do congresso de 1965. Faremos a revolução democrática
>e nacional com a união de todos os portugueses
>honrados anti-monopolistas e anti-imperialistas. Muito
>bem. E depois? Depois teremos a revolução socialista,
>de onde resultará a ditadura do proletariado. Mas
>quando? Não sabemos. E quem fará esta revolução?
>Também não sabemos. Sobre isto, o máximo que o
>programa avança é que "alguns dos aliados do
>proletariado na revolução democrática e nacional
>sê-lo-ão também na revolução socialista" (capítulo
>III, 17º parágrafo). Mistério sobre quem serão. E
>depois o programa tem esta ressalva notável, para
>tranquilização antecipada da burguesia: "dada a
>composição de classes da sociedade portuguesa e o peso
>do proletariado industrial e rural, a realização da
>revolução democrática e nacional criará condições
>favoráveis para a conquista do poder pelo proletariado
>sem necessidade de uma nova insurreição". Olá, muito
>bem se canta na sé. Quer dizer: como o proletariado é
>numeroso... não precisará de fazer a revolução. E a
>lógica é uma batata, realmente. Marx aqui tinha
>tendência a pensar precisamente o contrário: à medida
>que os exércitos proletários se engrossam, aproxima-se
>a hora da revolução social. Cunhal é mais generoso,
>para com a burguesia naturalmente. Para ele, o
>proletariado é uma "força tranquila", à Mitterrand,
>que só com a sua presença e garbo impressionará
>certamente a burguesia, fazendo-a logo aderir
>prontamente ao socialismo.
>
>Enfim, com todas estas lacunas e partes gagas, podemos
>contudo afirmar que, até ao 25 de Abril, o PCP foi,
>pelo menos em termos programáticos, um partido
>estalinista ortodoxo. O pior veio depois ainda.
>
>Feita a revolução dos cravos, o PCP foi chamado aos
>governos provisórios, para a transição democrática. E
>sentiu-se na necessidade de fazer logo mais concessões
>programáticas. Convocou assim um Congresso
>extraordinário que se realizou em 20 de Outubro de
>1974. Repara bem, nem um mês tinha passado sobre o
>golpe fascista de Spínola, dito da "maioria
>silenciosa", travado nas ruas por uma admirável
>mobilização popular. As massas estavam permanentemente
>nas ruas e a revolução num poderoso ascenso. E o PCP o
>que faz? Pois revê o seu programa, deitando
>pressurosamente pela borda fora a "ditadura do
>proletariado", um conceito essencial do marxismo.
>Lenine chamou-lhe mesmo a "pedra de toque" do
>marxismo. Mas isso ainda poderia ser tido como uma
>questão meramente terminológica e conceptual. O PCF
>também eliminou do seu programa a ditadura do
>proletariado, uns anos mais tarde, mas aí a coisa não
>se deu sem uma grande discussão teórica e filosófica.
>Aqui em Portugal, nem ninguém reparou muito nisso. O
>problema é que, na situação histórica em que isso
>aconteceu cá, foi extraordinariamente revelador. E
>além do nome eliminou-se a coisa (ou já estava
>eliminada há muito) E não foi só essa a alteração.
>Entre muitos outros amaciamentos, o programa revisto
>em 1974 diz agora que "com a vitória do 25 de Abril e
>a consequente destruição do Estado fascista aumentam
>as possibilidades de se chegar a uma tal situação" (de
>passagem pacífica ao socialismo) (capítulo III, 19º
>parágrafo). Em Outubro de 74 o PCP dá por destruído o
>Estado fascista e diz que está tudo em ordem para uma
>passagem pacífica ao socialismo. Como se viu logo de
>seguida, aliás... Mas diz mais o PCP. Agora dá mais um
>torção subtil na fórmula correspondente de 1965 e diz
>que: "aliados sociais do proletariado na realização
>dos grandes objectivos da revolução democrática e
>nacional sê-lo-ão também na construção do socialismo"
>(capítulo III, 20º parágrafo). A redacção não é
>inequívoca mas se foi alterada foi precisamente para
>dar a ideia que os democratas agora já vão todos (e
>não só "alguns") juntos connosco direitinhos para o
>socialismo. Que é um caminho pacífico, já se vê. Como
>o não seria? Pois se é para fazer juntamente com todos
>os democratas nacionais. Só os fascistas é que se
>oporão, mas esses já ficaram para trás. Ele de facto
>insistia muito nisso: com a unidade de todas as forças
>democráticas, caminharemos em frente para o
>socialismo. Gostaste deste passe de pura mágica? Estas
>questões teóricas fundamentais eram decididas assim,
>sem a mínima discussão, com um ligeiro acerto de frase
>que era depois aprovada pela multidão, com muitas
>palmas, vivas, punhos no ar e "assim se vê a força do
>PC".
>
>E o que é mais curioso é que se continua ainda hoje a
>insistir nesta mesmíssima linha política, após trinta
>anos de desastres e derrotas contínuos e
>ininterruptos.
>
>Está ainda completamente por fazer a história da
>intervenção do PCP - e particularmente de Álvaro
>Cunhal - na revolução de 1974-5. Cunhal entrou pela
>velhice dentro muito preocupado com a "verdade e
>mentira" nesta matéria. Ele é, notoriamente, um
>péssimo servidor da verdade, particularmente em
>questões históricas em que segue com gosto a escola de
>falsificação estalinista, sempre enredado no seu
>labirinto de justificações e contra-justificações
>pessoais para todas as manobras possíveis e
>imaginárias. Mas de ter tentado levar Portugal para
>uma "ditadura comunista" não é ele certamente culpado,
>como o acusa histericamente a direita. Em primeiro
>lugar porque lá do sol radiante do Kremlin se fartaram
>de lhe assinalar com toda a clareza que isto aqui era
>no coração da zona NATO, eles não queriam cá confusões
>e não nos dariam apoio. Em segundo lugar porque toda o
>arrazoado "teórico" do partido apontava para revolução
>democrática, sim, e quanto ao socialismo confiar numa
>transição pacífica a longo prazo. A actuação do PCP
>neste período, pelo que podemos desde já saber, foi a
>todos os títulos lamentável. Participou efectivmente
>na reforma agrária alentejana (enfim, fazia parte da
>revolução "democrática"), depois de os militares do
>COPCON lhe terem escancarado a porta. Mas o movimento
>popular urbano e grande parte da mobilização operária
>(e toda a de cunho anti-capitalista) passou-lhe
>completamente ao lado. Andou basicamente aos papéis e
>a apanhar bonés ao longo de todo o PREC. Como um
>forcado trapalhão, ora tentava aplacar pelos cornos o
>touro da revolta e criatividade popular, ora lhe
>agarrava a cauda deixando-se arrastar um bocadinho. Se
>de facto houve algum esboço de revolução socializante
>isso deveu-se inteiramente à "esquerda militar" do MFA
>(e em especial ao cabeçudo do Vasco Gonçalves), a quem
>o PCP teve que, por algum tempo, dar um apoio muito
>relutante. Assim que o Vasco caíu, o PCP aproveitou
>logo a primeira oportunidade para firmar um acordo de
>rendição muito pouco honroso com o "grupo dos 9". E
>desde então até hoje tem andado sempre, de trincheira
>em trincheira, muito lacrimosamente, a defender as
>"conquistas de Abril" que se vão esvaindo, uma a uma,
>quando na altura própria não quis ou não soube criar
>condições para as defender a todas por junto.
>
>Aliás, houve muitas "conquistas de Abril", das que
>ficaram plasmadas na Constituição de 1976, que nunca
>constaram dos objectivos programáticos do PCP nem
>resultaram da sua iniciativa política efectiva no
>terreno durante a revolução (apropriação colectiva dos
>principais meios de produção, solos e recursos
>naturais; planificação democrática; controlo operário;
>comissões de trabalhadores; cooperativas e autogestão;
>as organizações populares de base territorial, etc.,
>etc.). Numa grande medida, a riqueza extraordinária da
>revolução de 1974-5 colheu de surpresa e passou
>completamente ao lado do PCP, tolhido pelos esquemas
>rígidos cunhalistas e sem qualquer capacidade de
>iniciativa.
>
>Enfim, com o programa da "democracia avançada",
>adoptado em 1988, damos mais um passo no revisionismo
>liquidacionista mais descarado. Agora entre a
>democracia e o socialismo há ainda uma outra coisa,
>que se chama "democracia avançada" (que é um conceito
>copiado dos teóricos dos PCF, mas adoptado aqui muito
>serodiamente, vinte e tal anos depois, quando já não
>faz qualquer sentido histórico e serve apenas para
>enganar os papalvos com palavras grandiloquentes e
>completamente ocas). Ora, é claro que, sem ser
>precisas mais explicações, todos os democratas podem
>ser democratas avançados e todos os democratas
>avançados se podem tornar socialistas. Estamos todos a
>avançar nesse caminho, que é um continuum, sem
>qualquer solução de continuidade. Revoluções para quê?
>O que é preciso é confiar na capacidade de iniciativa
>cívica de todos os cidadãos de boa vontade (menos os
>monopolistas, mas mesmo estes pode ser que, enfim,
>haja um ou outro honesto). E é isto que nos continua
>ensinar este partido "marxista-leninista". É possível
>que nesta última trafulhice já tenha havido
>participação do pessoal do "novo impulso", com quem
>Cunhal andou confiadamente metido durante muito tempo.
>Depois deu-lhe uma crise de velhice e de insegurança,
>lá achou que andavam a querer levá-lo às boas e
>começou a opor-se. Quando foi derrotado partiu por aí
>fora desaforado, a fazer campanha contra o próprio
>partido, que era afinal o seu partido e estavam
>a querer transformar num outro partido, que já não
>seria o seu e muito seu PCP. Uma birra
>infanto-senil que era afinal bem escusada, uma vez que
>todo o caminho até onde se chegou foi sendo sempre
>desbravado, passo a passo, pelo próprio Cunhal, até à
>"democracia avançada" inclusivé. Enfim, teve que se
>refazer a composição dos órgãos executivos, purificar
>o CC e mudar de SG até ficar tudo inteiramente ao seu
>gosto. E agora já pôde, enfim, mandar o seu aceno
>cadavérico e uma mensagem toda babada ao XVII
>congresso, o da reafirmação do "marxismo-leninismo".
>
>A teoria cunhalista impregna tudo no PCP. É uma
>cassete e tanto. O PCP desde a "reorganização" de 1941
>foi sempre um partido de "pensamento único": ou o do
>Fogaça, ou o do Cunhal, o do galo que estiver no
>poleiro. Ali, quem perdia o poder, arredava e ia
>pregar para outra freguesia. Com a ajuda da
>clandestinidade, aquilo funcionava um pouco como os
>gangs da mafia de Chicago. Enfim, era raro as
>coisas serem resolvidas à bala. Era mais pela calúnia,
>por campanhas de isolamento e intoxicação, pela
>intimidação física e moral, etc.. Além disso, o Cunhal
>habituou-se durante décadas a tratar na direcção do
>partido com companheiros muito abaixo das suas
>capacidades intelectuais e sem qualquer formação
>marxista. Pôs e dispôs como muito bem entendeu do
>programa, da estratégia, das alianças, estruturais e
>conjunturais, das tácticas, etc., etc.. Aquela
>rapaziada ouvia e ficava toda a olhar para ele como um
>boi para um palácio.
>
>As teses agora aprovadas no XVII Congresso são,
>naturalmente, um grande ensopado de cunhalismo. O
>discurso do Jerónimo no congresso - uma peça notável,
>no seu género - é um grande condensado de cunhalismo.
>Toda a gente que quer ser alguém no partido tem de
>encornar aquele esquema mental e, depois de bem
>encornado, aquilo inviabiliza qualquer possibilidade
>de desenvolvimento criativo original ou de pensamento
>crítico inovador. O cunhalismo é completamente
>estéril. Um círculo fechado. Se tu entras no
>cunhalismo, já não sais mais. E enquanto lá estás,
>deixa todo o pensamento cá fora. Em todo aquele cone
>que vai do Cunhal até à base do partido há uma zona de
>rarefacção absoluta onde reina o grau zero do
>pensamento independente e da liberdade de espírito.
>Parece o triângulo das Bermudas. E isso é assim porque
>há uma compulsão moral avassaladora para "cerrar
>fileiras". Sabes como são as "formações ordenadas" no
>râguebi? O PCP é assim. O Cunhal à frente e todos
>atrás, de cabeça baixa a empurrar.
>
>É por isso que, aqui em Portugal, quem sabe mesmo
>alguma coisa de marxismo (Barata Moura, António
>Mendonça, João Maria de Freitas Branco, etc.)
>aprendeu-o apesar do PCP e, para poder respirar
>um bocadinho, acaba mas é por ir dar uma curva bem
>larga e fazer de conta que o partido nem existe.
>
>Mas o cunhalismo é mais do que "teoria". Aliás, como
>teoria, é coisa pouca. Aquilo é sobretudo uma moral e,
>nesse campo, faz-me lembrar aquilo que Nietzsche
>chamava de a "moral do rebanho". A moral dominante do
>partido acha que o Eu deve ser punido e humilhado
>ritualmente, em favor do "colectivo". Mas o
>"colectivo" é difuso e obedece naturalmente a um
>centro de gravidade, que só pode ser o super-Eu (não
>confundir com o super-ego freudiano) do guru infalível
>e indiscutível. Esta "moral" colectivística manda que
>não se escolham os mais aptos e capazes para as
>funções de responsabilidade e decisão, porque isso
>seria considerado "elitismo". Mas na verdade essa é
>apenas a justificação "proletária" esfarrapada que a
>moral cunhalista arranjou. O que interessa, de facto,
>é que ninguém na direcção faça sombra ao "pensamento
>único" partidário. Quando, excepcionalmente, se
>escolhe um homem ou mulher capaz e com pensamento
>próprio, fica logo emasculado em "colectivo" com um
>mar de medíocres e sob a direcção de um camarada
>"firme" e de toda a confiança, que reporta
>directamente ao guru. Ali ficará então a ser
>amesquinhado sistemanticamente, submetido ritualmente
>ao império ditatorial da vulgaridade.
>
>Este peculiar conceito "igualitarista" significa
>apenas que o partido odeia o talento, e por isso é
>dominado por gente amarga e ressentida. Quem manda lá
>agora são os Domingos Abrantes, as Luísas Araújos, os
>Franciscos Lopes, as Rosas Rabiais, etc.. Eles odeiam
>a burguesia, realmente, mas do mesmo modo que odeiam
>tudo o que se destaca, que tem brilho próprio e
>qualidade especial. Isto não tem nada a ver com a
>imposição da "regra de ouro" da maioria operária no
>CC, com a qual até concordo. Os operários escolhidos
>também não são os mais talentosos e cultivados. E
>entre os intelectuais, o que se vê lá mais são
>cabeças-de-alho-chocho. Não tem nada a ver com classe
>ou origem social. É entendimento especial, que eu
>diria uma espécie de revanchismo da mediocridade.
>
>Ora, esta peculiar "meritocracia" invertida do PCP
>cria um problema muito grave... quando o guru falhar
>de vez. Quem é que vai pensar, agora? O pensamento é o
>mesmo de sempre, como é óbvio. É o pensamento do
>mestre, aquela sopa indigesta de estalinismo degradado
>que eles insistem em chamar "marxismo-leninismo". Mas
>o problema é que esse pensamento está completamente
>falido, nos seus lineamentos fundamentais. E depois já
>não tem sequer a hipótese de se regenerar, de se
>adaptar dinamicamente a realidades políticas novas e
>cambiantes. Os discípulos não estão programados para
>isso, nem têm o mínimo de massa encefálica necessária
>para o fazer.
>
>Todo o sistema pêcêpista só é sustentável enquanto
>existe o guru, que pensa tudo e tudo orienta. Quando o
>guru faltar, a coisa começa a desagregar-se. Há
>dissidências em massa: de gente que já não está
>disposta a sujeitar-se a outra autoridade menor que a
>do guru genuíno, de gente que acha que os sucessores
>não representam bem o pensamento autêntico do guru,
>enfim, de gente que acha que o pensamento do guru já
>está um bocado fora de moda, etc.. Reunindo os últimos
>fiéis dos fiéis (mais alguns oportunistas sem
>escrúpulos), a coisa pode ainda andar um bocado, em
>piloto automático, como os perus a quem se corta a
>cabeça. Mas a tendência será, como em muitas seitas
>religiosas, para tudo se encaminhar para uma espécie
>de suicídio colectivo. E é nisso que estamos agora,
>enfim. Esperemos que já não demore muito.
>
>
>
>Não me vou alongar sobre isto, foi mesmo só para
>desabafar a necessidade de se romper com as categorias
>de pensamento bafiento e liquidacionista que o PC,
>numa linha cunhalista - versão (mal) recauchutada para
>o século XXI - insiste em prosseguir. Evidentemente,
>não alinho com a corja direitista, ela própria produto
>deformado desse antro de revisionismo que é o PCP.
>Cada vez mais, penso que é um imperativo o pensamento
>crítico, balizado po princípios de honestidade
>intelectual, capacidade de abstracção (tanto na
>construção teórica, como no posicionamento no que toca
>ao nosso objecto de estudo e de intervenção),
>consciência auto-crítica efectiva e ter como eixo
>analítico a necessidade de produção de conhecimento
>científico o mais rigoroso possível, balizado pelo
>marxismo clássico e, tendo como objectivo fundamental,
>a práxis revolucionária da classe trabalhadora.
>
>
>
>Vamos ter muito, muito que fazer.
>
>A começar por varrer para a sucata toda essa tralha
>velha e mais que inútil, tóxica e malsã, que nos
>deixaram de herança. E cuja responsabilidade cabe,
>acima de tudo e todos, a um homem muito concreto.
>Devido ao seu desmesurado orgulho pessoal, ao seu
>estilo de liderança implacavelmente autocrático, à sua
>parca honestidade intelectual, à sua total
>incapacidade auto-crítica, à sua credulidade extrema,
>à sua gritante falta de lucidez, à sua falta de
>sentido prático e de malícia na avaliação de
>caracteres e situações, à sua insuficiente cultura
>marxista, ao seu dogmatismo hierático, à sua rigidez
>intelectual extrema e total falta de criatividade
>teórica e política.
>Por tudo isso, Cunhal foi responsável por erros
>tremendos. E é dele em última análise a
>responsabilidade pela transformação do Partido
>Comunista Português (que não é de modo algum
>propriedade sua) no lamentável despojo que ele hoje é,
>um misto de soviete supremo brejnevista e de Igreja
>Universal do Reino de Deus.
>
>Álvaro Cunhal tem vultuosos serviços prestados ao povo
>português e também aos povos das ex-colónias
>portuguesas. É um personagem histórico. Deve-lhe muito
>o actual regime político português, embora os seus
>dominadores não reconheçam essa dívida nem lhe prestem
>tributo por ela. Cunhal foi um lutador e, sempre que
>chamado a sacrifícios, portou-se como um homem íntegro
>e vertical. Por muitos anos que viva e muitos mais
>erros que cometa ainda, não é concebível que consiga
>enegrecer o seu registo de tal modo que este se torne
>negativo.
>
>Mas o seu passivo é bem real, continua a acumular-se
>de forma preocupante e vai ter de ser avaliado com
>todo o cuidado. Em termos de organização política, não
>nos deixa nada que sirva ou que possa ter algum
>préstimo nos novos tempos. O PCP, ou é para abater
>pura e simplesmente, como um velho navio em doca seca,
>ou então terá de ser integralmente reinventado, de
>popa à proa, do porão à gávea.
>
>Em termos de pensamento político também quase nada nos
>deixa de interesse. Mas há uma outra coisa, muito
>importante.
>
>Se alguém lá da brigada do reumático estalinista lesse
>o que eu escrevi mais acima, diria certamente para
>consigo: este bandido é esperto, mas muito gostava de
>saber o que é que ele vale de facto.
>Sentindo-se incomodado com o que eu digo, e estando na
>minha presença, até seria capaz de crescer para mim e
>olhar-me olhos nos olhos, para ver bem se as minhas
>pupilas estremecem. E eu até acho isso muito bem e
>perfeitamente adequado. Não há coragem alguma que não
>seja, em última instância, coragem física. Tu podes
>ter as ideias mais belas e inteligentes do mundo, mas
>se "rachas" logo à primeira estalada (ou, pior que
>isso, à primeira oferta de emprego), não mereces que
>ninguém te siga. Eles aprenderam por experiência feita
>a importância destas avaliações.
>
>Se quiseres, é isto de facto que é o legado essencial
>e imorredouro deles. A paixão pela liberdade, pela
>solidariedade, e a noção de que as ideias políticas
>que se assumem são para ser encarnadas no próprio
>corpo e levadas até ao limite do risco físico mais
>extremo. Isto é uma coisa importantíssima, essencial
>num revolucionário, e que nestes tempos de calmaria
>"democrática" se perdeu muito infelizmente.
>
>É um pouco trágico este desencontro com o PCP. É lá
>que estão ou estiveram todos os meus (os nossos)
>"cromos". Eu quando era criança coleccionava os
>"cow-boys": o Roy Rogers, o John Wayne, etc.. Quando
>me tornei adolescente vi logo que estes heróis eram de
>plástico, não valiam nada. Depois arranjei outros, os
>quais conservei para toda a vida. São o Pires Jorge, o
>Jaime Serra, o Dias Lourenço, o Octávio Pato e tantos
>outros e outras. Isto de entre os cá da minha terra,
>com são aqueles com quem eu partilho um mesmo
>ethos e aquela especial sentimentalidade
>portuguesa. Às vezes espreitava-os de longe, lá na
>festa do Avante, e sentia um certo estremecimento.
>Nunca os conheci (nem a Álvaro Cunhal), mas sinto uma
>necessidade enorme de pensar que estamos juntos
>nalguma coisa, eu e eles. Que há uma corrente que
>passa deles para nós, mesmo que não nos cheguemos a
>encontrar e a passar palavra pessoalmente. Eu sei que
>eles estão lá e gostava que eles também tivessem a
>certeza de que nós cá estaremos. Mesmo não nos
>entendendo lá muito bem.
>
>O tempo é um rio espesso e malicioso. Deixa sulcos
>profundos, cava abismos intransponíveis. Mas no final
>de todos os finais, se ele existe, tudo vai dar certo.
>E se esse final não existe, como eu suspeito, então a
>luz da esperança vai continuar para sempre a brilhar
>enigmaticamente do fundo do tempo. E os netos dos
>nossos netos serão, por sua vez, chamados a
>excederem-se a si mesmos para a alcançar.
>
>Eh, pá. Lá estou eu outra vez a fazer poesia. Tchau,
>até logo.
>
>
>Ângelo Novo
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