Author:
Jorge Nascimento Fernandes
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Date Posted: 15/12/04 17:12
O 25 de Novembro e o compromisso com os 9
Li alguns dos artigos do Ângelo Novo e na altura achei que eram reflexões com um mínimo de interesse, apesar de virem do lado esquerdo, do “esquerdismo” em alguns casos, coisa que já ninguém usa, se exceptuarmos os seus amigos da “Política Operária” e o seu inspirador mor, o Francisco Martins Rodrigues, onde o Ângelo Novo foi beber a prosa contra o Cunhal, o seu inimigo de estimação.
Mas a crítica à tal carta, que ninguém percebe onde começa e acaba e que o Ângelo nos tenta vender como se fosse a de um jovem revolucionário, fica para outra altura. Analisemos agora esta interessantíssima discussão que se está aqui a travar a propósito do 25 de Novembro e do livro de Cunhal, “A Verdade e a Mentira da Revolução de Abril”.
Sobre aquilo que o Ângelo Novo diz, que vem direitinho do pior esquerdismo, reservo, tal como a carta, para outra altura, até porque o Ângelo, com 13 anos, não sabia nada do que se passava. Só lhe lembro algumas idiotices dos “esquerdistas”, como aquela, ainda há uns anos recordada na TSF, com grande ênfase, pelo Carlos Antunes ou pela Isabel do Carmo, que foi a reunião no Palácio Foz com o Otelo, em que aqueles dois tentavam pressionar este a tomar o poder e dali partiram, qual tropa fandanga, para Belém, onde o Costa Gomes com aquela matreirice que se lhe reconhecia, enrolou rapidamente o Otelo e a tomada do poder morreu nessa noite.
Ou então quando a rapaziada da UDP, acolitada à época pelo Francisco Martins, propunha que se fuzilasse o Spínola, depois da sua participação no 11 de Março. Passámos uma tarde no Ministério da Educação, numa Reunião Geral, a convencer aquela rapaziada, que num país onde não havia pena de morte isso não fazia sentido. Ou o assalto à Embaixada de Espanha onde eu vi um dos próceres da UDP dessa época a comandar uma rapaziada que rapidamente saqueou e roubou, um lustre vi eu ser arrastado pela Avenida da Liberdade, não sei se para proveito próprio ou se para subsidiar o “movimento revolucionário”, o ouro e as pratas lá encontrados. Dir-se-ia, que episódios como estes foram muitos, e resultaram da época revolucionária em que se vivia, mas o mal que eles fizeram às forças revolucionárias da época e que contribuíram para afastar amplas camadas da população do processo revolucionário, é evidente. Quem teve a responsabilidade disso foram sem dúvida alguma os esquerdistas e toda a ideologia que lamentavelmente transparece das palavras do Sr. Ângelo Novo.
No entanto, e porque o 25 de Novembro e o livro do Álvaro Cunhal, que li, foi chamado à colação, gostaria de dizer algumas coisa.
Em todo o livro Álvaro Cunhal tenta provar que houve de facto uma clara colaboração do PS com a direita, ou seja, de que o PS no seu afã de combater o avanço revolucionário comandado pelo PCP, tudo fez, aliando-se à direita ou a alguns esquerdistas, para limitar e desactivar o processo revolucionário. Sobre o 25 de Novembro, ninguém tem dúvidas daquilo que o PS, com a colaboração da direita e até das forças militares afascistadas, estava a preparar. Isso é confirmado por um recente livro com uma entrevista ao Melo Antunes. Toda a gente sabe que, naquela data, aquele que primeiro saísse estava tramado, mas desgraçadamente foi a esquerda e o esquerdismo que saiu, e por isso foram imediatamente derrotados. O que o PCP conseguiu nesse dia foi retirar-se, com o apoio do Grupo dos 9, e principalmente do Melo Antunes, para que a direita não explorasse, até à vingança, a vitória alcançada. Cunhal sempre teve como referência, e uma referência justa, o que tinha acontecido ao Partido Comunista da Indonésia, que teve pelo menos 500 mil mortos, porque se tinha deixado arrastar por uma provocação. No entanto, não tenhamos dúvidas que a esquerda militar e a extrema-esquerda apostaram nos pára-quedistas no 25 de Novembro. Eu fui convocado a meio da manhã daquele dia para o Centro de Trabalho que o PCP tinha em Alfama, com a afirmação de que aquilo que se estava à espera tinha acontecido nesse dia, com a ocupação de bases militares pelos pára-quedistas. E durante essa tarde ainda foram enviados para Monsanto, para resistir ao Jaime Neves, alguns militantes, que a única coisa de que dispunham era dos carros pesados de uma empresa de construção da época. Há noite, apesar das grandes discussões que se travaram em Alfama, o Partido dá ordem para nos retirarmos e irmos cada um para sua casa. A revolução estava terminada, tínhamos saído pelo menos sem mortos e ainda com grande influência política. Penso que no dia a seguir, no meu local de trabalho, os esquerdistas da UDP convocam os trabalhadores para irem resistir aos Comandos para as portas do quartel da Polícia Militar, na Ajuda. Foi um fiasco, e aí sim, verificaram-se mortos.
Esta foi a minha experiência do 25 de Novembro.
Mas voltemos ao livro referido. A acumulação de dados, que diga-se de passagem são todos retirados de declarações que os participantes nos acontecimentos foram fazendo ao longo do tempo, não deixa dúvidas a ninguém sobre quem estava contra Revolução, mas o que o Álvaro Cunhal se esquece de dizer foi a responsabilidade que o PCP teve no avanço do processo revolucionário. Quem o ler pensará que, na proclamação inicial do MFA, estava já tudo incluído e que o PCP, qual fiel intérprete dela, a ia progressivamente cumprindo, se não fosse a conspiração do PS, aliado ou não à direita. E é interessante anotar o que o “Observador atento” diz a determinada altura da discussão: “ajuda a perceber que o que estava em causa era...a Constituição da República Portuguesa, que apesar do 25 de Novembro se conseguiu pela acção conjunta do PCP e do Grupo dos 9 levar a bom porto...”. Ou seja, mais uma vez, não era o avanço da revolução, nem a alteração da correlação de forças a nosso favor que estava em causa no 25 de Novembro, mas era única e simplesmente a defesa da Constituição da República. Lamentavelmente, é esta ainda hoje a leitura que o PCP faz daqueles acontecimentos: nós sempre estivemos na legalidade a defender, ora o programa do MFA ora a Constituição e os outros é que conspiravam contra ela. Cunhal nunca admite, e era isso que a maioria dos militantes do PCP pensava, que se estava a avançar, aproveitando as circunstâncias favoráveis do processo revolucionário, para uma alteração revolucionária da sociedade portuguesa, que, se de facto começou pela Revolução nacional e democrática, estava rapidamente a evoluir para uma possível revolução socialista. Ao contrário do que ainda hoje alguns velhos (novos) nostálgicos nos querem fazer querer, não foi a traição do PCP que impediu essa evolução, foi a correlação de forças que não nos foi favorável. Nem era possível, com 12% de votos na eleições para a Constituinte, nem com o Norte todo em polvorosa e virado contra a esquerda, iniciar um projecto em que estávamos claramente em minoria. Quando se tentou de facto negociar uma saída, o mais progressista possível, já era tarde e o PS, os 9 e a direita, já tinham vencido em Tancos, em Setembro, e Vasco Gonçalves já tinha caído, com ajuda da carta do Otelo e do esquerdismo militar. Depois foi esse cavalgar até Novembro, com o esquerdismo a comandar as operações, como aquela célebre manifestação contra “os dois imperialismos”, o americano e o soviético, com ameaças físicas a quem só gritasse contra um imperialismo. Foi a o assalto à Embaixada de Espanha, o cerco à Assembleia Constituinte, que Álvaro Cunhal finge que não percebe, mas em que o PCP teve, uma clara intervenção, ou o juramento de bandeira no RALIS e os SUV de cara encarapuçada. Tínhamos cavalgado a besta esquerdista e só provavelmente o tino do Cunhal e a seriedade de homens como o Melo Antunes tornou possível sairmos desse confronto com o mínimo de mossas possível.
Dir-me-ão que isto são histórias passadas, mas ainda hoje têm um peso em certas formações de esquerda, que dificilmente se libertarão delas. Voltarei para mais comentários.
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