| Subject: Correspondência com um jovem comunista (sobre A. Cunhal) |
Author:
Ângelo Novo
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Date Posted: 11/12/04 23:09
Estive a ler o 'Rumo à Vitória'. Pela primeira vez, integralmente.
Sinceramente, é uma bosta. Política e teoricamente.
De facto, o PCP é um espelho do Cunhal. Desde a treta da aliança com a burguesia liberal e as camadas anti-monopolistas, até às deturpações do que o Lenine disse acerca da tomada do poder de Estado e a fase da transição de consolidação do poder operário (estou a referir-me só a 'O Estado e a Revolução'), vê-se o oportunismo cunhalista. Não é que o que li seja algo de novo, mas o contacto directo com aquilo, torna a repugnância mais acesa, porque o mito do Cunhal como revolucionário marxista e leninista cai por terra.
Tudo no PCP é Cunhal, de ponta a ponta. A começar pela sua bem fruste teoria e estratágia, naturalmente. Aqui não há grandes originalidades. É tudo importado e, depois, recauchutado na linguagem teleológica e moralista do nosso grande Álvaro. No meu artigo ('PCP: os estado das coisas') falei da teoria do capitalismo monopolista de Estado. Isso é verdade, mas aquilo que no CME é uma construção bem argumentada, em termos de economia política, na linguagem do Cunhal passa a ser uma sopa indigesta de "aprofundamento da democracia", económica, social, cultural, etc.. Ele, em rigor, não faz teoria nenhuma. Nunca saíu da sua pena qualquer desenvolvimento teórico original no marxismo. O que ele é, é uma espécie de visionário milenarista que, querendo à força ser materialista, mas sem qualquer queda para o trabalho científico, alinha alguns dados socio-económicos e embrulha-os depois na linguagem do progressivismo e na teoria estalinista da revolução por estádios.
Ora, é por demais sabido que a teoria estalinista dos estádios é uma falsificação grosseira do que o Lenine expôs em 'Duas Tácticas da Social Democracia na Revolução Proletária'. Mas Cunhal consegue ainda falsificar a falsificação até a tornar irreconhecível. Assim, no 'Rumo à Vitória', trata ele da revolução democrática e nacional. Depois, numa outra fase, que fica para já adiada sine die, teremos a revolução socialista. E é assim que as coisas são efectivamente colocadas no programa do partido saído do congresso de 1965. Faremos a revolução democrática e nacional com a união de todos os portugueses honrados anti-monopolistas e anti-imperialistas. Muito bem. E depois? Depois teremos a revolução socialista, de onde resultará a ditadura do proletariado. Mas quando? Não sabemos. E quem fará esta revolução? Também não sabemos. Sobre isto, o máximo que o programa avança é que "alguns dos aliados do proletariado na revolução democrática e nacional sê-lo-ão também na revolução socialista" (capítulo III, 17º parágrafo). Mistério sobre quem serão. E depois o programa tem esta ressalva notável, para tranquilização antecipada da burguesia: "dada a composição de classes da sociedade portuguesa e o peso do proletariado industrial e rural, a realização da revolução democrática e nacional criará condições favoráveis para a conquista do poder pelo proletariado sem necessidade de uma nova insurreição". Olá, muito bem se canta na sé. Quer dizer: como o proletariado é numeroso... não precisará de fazer a revolução. E a lógica é uma batata, realmente. Marx aqui tinha tendência a pensar precisamente o contrário: à medida que os exércitos proletários se engrossam, aproxima-se a hora da revolução social. Cunhal é mais generoso, para com a burguesia naturalmente. Para ele, o proletariado é uma "força tranquila", à Mitterrand, que só com a sua presença e garbo impressionará certamente a burguesia, fazendo-a logo aderir prontamente ao socialismo.
Enfim, com todas estas lacunas e partes gagas, podemos contudo afirmar que, até ao 25 de Abril, o PCP foi, pelo menos em termos programáticos, um partido estalinista ortodoxo. O pior veio depois ainda.
Feita a revolução dos cravos, o PCP foi chamado aos governos provisórios, para a transição democrática. E sentiu-se na necessidade de fazer logo mais concessões programáticas. Convocou assim um Congresso extraordinário que se realizou em 20 de Outubro de 1974. Repara bem, nem um mês tinha passado sobre o golpe fascista de Spínola, dito da "maioria silenciosa", travado nas ruas por uma admirável mobilização popular. As massas estavam permanentemente nas ruas e a revolução num poderoso ascenso. E o PCP o que faz? Pois revê o seu programa, deitando pressurosamente pela borda fora a "ditadura do proletariado", um conceito essencial do marxismo. Lenine chamou-lhe mesmo a "pedra de toque" do marxismo. Mas isso ainda poderia ser tido como uma questão meramente terminológica e conceptual. O PCF também eliminou do seu programa a ditadura do proletariado, uns anos mais tarde, mas aí a coisa não se deu sem uma grande discussão teórica e filosófica. Aqui em Portugal, nem ninguém reparou muito nisso. O problema é que, na situação histórica em que isso aconteceu cá, foi extraordinariamente revelador. E além do nome eliminou-se a coisa (ou já estava eliminada há muito) E não foi só essa a alteração. Entre muitos outros amaciamentos, o programa revisto em 1974 diz agora que "com a vitória do 25 de Abril e a consequente destruição do Estado fascista aumentam as possibilidades de se chegar a uma tal situação" (de passagem pacífica ao socialismo) (capítulo III, 19º parágrafo). Em Outubro de 74 o PCP dá por destruído o Estado fascista e diz que está tudo em ordem para uma passagem pacífica ao socialismo. Como se viu logo de seguida, aliás... Mas diz mais o PCP. Agora dá mais um torção subtil na fórmula correspondente de 1965 e diz que: "aliados sociais do proletariado na realização dos grandes objectivos da revolução democrática e nacional sê-lo-ão também na construção do socialismo" (capítulo III, 20º parágrafo). A redacção não é inequívoca mas se foi alterada foi precisamente para dar a ideia que os democratas agora já vão todos (e não só "alguns") juntos connosco direitinhos para o socialismo. Que é um caminho pacífico, já se vê. Como o não seria? Pois se é para fazer juntamente com todos os democratas nacionais. Só os fascistas é que se oporão, mas esses já ficaram para trás. Ele de facto insistia muito nisso: com a unidade de todas as forças democráticas, caminharemos em frente para o socialismo. Gostaste deste passe de pura mágica? Estas questões teóricas fundamentais eram decididas assim, sem a mínima discussão, com um ligeiro acerto de frase que era depois aprovada pela multidão, com muitas palmas, vivas, punhos no ar e "assim se vê a força do PC".
E o que é mais curioso é que se continua ainda hoje a insistir nesta mesmíssima linha política, após trinta anos de desastres e derrotas contínuos e ininterruptos.
Está ainda completamente por fazer a história da intervenção do PCP - e particularmente de Álvaro Cunhal - na revolução de 1974-5. Cunhal entrou pela velhice dentro muito preocupado com a "verdade e mentira" nesta matéria. Ele é, notoriamente, um péssimo servidor da verdade, particularmente em questões históricas em que segue com gosto a escola de falsificação estalinista, sempre enredado no seu labirinto de justificações e contra-justificações pessoais para todas as manobras possíveis e imaginárias. Mas de ter tentado levar Portugal para uma "ditadura comunista" não é ele certamente culpado, como o acusa histericamente a direita. Em primeiro lugar porque lá do sol radiante do Kremlin se fartaram de lhe assinalar com toda a clareza que isto aqui era no coração da zona NATO, eles não queriam cá confusões e não nos dariam apoio. Em segundo lugar porque toda o arrazoado "teórico" do partido apontava para revolução democrática, sim, e quanto ao socialismo confiar numa transição pacífica a longo prazo. A actuação do PCP neste período, pelo que podemos desde já saber, foi a todos os títulos lamentável. Participou efectivmente na reforma agrária alentejana (enfim, fazia parte da revolução "democrática"), depois de os militares do COPCON lhe terem escancarado a porta. Mas o movimento popular urbano e grande parte da mobilização operária (e toda a de cunho anti-capitalista) passou-lhe completamente ao lado. Andou basicamente aos papéis e a apanhar bonés ao longo de todo o PREC. Como um forcado trapalhão, ora tentava aplacar pelos cornos o touro da revolta e criatividade popular, ora lhe agarrava a cauda deixando-se arrastar um bocadinho. Se de facto houve algum esboço de revolução socializante isso deveu-se inteiramente à "esquerda militar" do MFA (e em especial ao cabeçudo do Vasco Gonçalves), a quem o PCP teve que, por algum tempo, dar um apoio muito relutante. Assim que o Vasco caíu, o PCP aproveitou logo a primeira oportunidade para firmar um acordo de rendição muito pouco honroso com o "grupo dos 9". E desde então até hoje tem andado sempre, de trincheira em trincheira, muito lacrimosamente, a defender as "conquistas de Abril" que se vão esvaindo, uma a uma, quando na altura própria não quis ou não soube criar condições para as defender a todas por junto.
Aliás, houve muitas "conquistas de Abril", das que ficaram plasmadas na Constituição de 1976, que nunca constaram dos objectivos programáticos do PCP nem resultaram da sua iniciativa política efectiva no terreno durante a revolução (apropriação colectiva dos principais meios de produção, solos e recursos naturais; planificação democrática; controlo operário; comissões de trabalhadores; cooperativas e autogestão; as organizações populares de base territorial, etc., etc.). Numa grande medida, a riqueza extraordinária da revolução de 1974-5 colheu de surpresa e passou completamente ao lado do PCP, tolhido pelos esquemas rígidos cunhalistas e sem qualquer capacidade de iniciativa.
Enfim, com o programa da "democracia avançada", adoptado em 1988, damos mais um passo no revisionismo liquidacionista mais descarado. Agora entre a democracia e o socialismo há ainda uma outra coisa, que se chama "democracia avançada" (que é um conceito copiado dos teóricos dos PCF, mas adoptado aqui muito serodiamente, vinte e tal anos depois, quando já não faz qualquer sentido histórico e serve apenas para enganar os papalvos com palavras grandiloquentes e completamente ocas). Ora, é claro que, sem ser precisas mais explicações, todos os democratas podem ser democratas avançados e todos os democratas avançados se podem tornar socialistas. Estamos todos a avançar nesse caminho, que é um continuum, sem qualquer solução de continuidade. Revoluções para quê? O que é preciso é confiar na capacidade de iniciativa cívica de todos os cidadãos de boa vontade (menos os monopolistas, mas mesmo estes pode ser que, enfim, haja um ou outro honesto). E é isto que nos continua ensinar este partido "marxista-leninista". É possível que nesta última trafulhice já tenha havido participação do pessoal do "novo impulso", com quem Cunhal andou confiadamente metido durante muito tempo. Depois deu-lhe uma crise de velhice e de insegurança, lá achou que andavam a querer levá-lo às boas e começou a opor-se. Quando foi derrotado partiu por aí fora desaforado, a fazer campanha contra o próprio partido, que era afinal o seu partido e estavam a querer transformar num outro partido, que já não seria o seu e muito seu PCP. Uma birra infanto-senil que era afinal bem escusada, uma vez que todo o caminho até onde se chegou foi sendo sempre desbravado, passo a passo, pelo próprio Cunhal, até à "democracia avançada" inclusivé. Enfim, teve que se refazer a composição dos órgãos executivos, purificar o CC e mudar de SG até ficar tudo inteiramente ao seu gosto. E agora já pôde, enfim, mandar o seu aceno cadavérico e uma mensagem toda babada ao XVII congresso, o da reafirmação do "marxismo-leninismo".
A teoria cunhalista impregna tudo no PCP. É uma cassete e tanto. O PCP desde a "reorganização" de 1941 foi sempre um partido de "pensamento único": ou o do Fogaça, ou o do Cunhal, o do galo que estiver no poleiro. Ali, quem perdia o poder, arredava e ia pregar para outra freguesia. Com a ajuda da clandestinidade, aquilo funcionava um pouco como os gangs da mafia de Chicago. Enfim, era raro as coisas serem resolvidas à bala. Era mais pela calúnia, por campanhas de isolamento e intoxicação, pela intimidação física e moral, etc.. Além disso, o Cunhal habituou-se durante décadas a tratar na direcção do partido com companheiros muito abaixo das suas capacidades intelectuais e sem qualquer formação marxista. Pôs e dispôs como muito bem entendeu do programa, da estratégia, das alianças, estruturais e conjunturais, das tácticas, etc., etc.. Aquela rapaziada ouvia e ficava toda a olhar para ele como um boi para um palácio.
As teses agora aprovadas no XVII Congresso são, naturalmente, um grande ensopado de cunhalismo. O discurso do Jerónimo no congresso - uma peça notável, no seu género - é um grande condensado de cunhalismo. Toda a gente que quer ser alguém no partido tem de encornar aquele esquema mental e, depois de bem encornado, aquilo inviabiliza qualquer possibilidade de desenvolvimento criativo original ou de pensamento crítico inovador. O cunhalismo é completamente estéril. Um círculo fechado. Se tu entras no cunhalismo, já não sais mais. E enquanto lá estás, deixa todo o pensamento cá fora. Em todo aquele cone que vai do Cunhal até à base do partido há uma zona de rarefacção absoluta onde reina o grau zero do pensamento independente e da liberdade de espírito. Parece o triângulo das Bermudas. E isso é assim porque há uma compulsão moral avassaladora para "cerrar fileiras". Sabes como são as "formações ordenadas" no râguebi? O PCP é assim. O Cunhal à frente e todos atrás, de cabeça baixa a empurrar.
É por isso que, aqui em Portugal, quem sabe mesmo alguma coisa de marxismo (Barata Moura, António Mendonça, João Maria de Freitas Branco, etc.) aprendeu-o apesar do PCP e, para poder respirar um bocadinho, acaba mas é por ir dar uma curva bem larga e fazer de conta que o partido nem existe.
Mas o cunhalismo é mais do que "teoria". Aliás, como teoria, é coisa pouca. Aquilo é sobretudo uma moral e, nesse campo, faz-me lembrar aquilo que Nietzsche chamava de a "moral do rebanho". A moral dominante do partido acha que o Eu deve ser punido e humilhado ritualmente, em favor do "colectivo". Mas o "colectivo" é difuso e obedece naturalmente a um centro de gravidade, que só pode ser o super-Eu (não confundir com o super-ego freudiano) do guru infalível e indiscutível. Esta "moral" colectivística manda que não se escolham os mais aptos e capazes para as funções de responsabilidade e decisão, porque isso seria considerado "elitismo". Mas na verdade essa é apenas a justificação "proletária" esfarrapada que a moral cunhalista arranjou. O que interessa, de facto, é que ninguém na direcção faça sombra ao "pensamento único" partidário. Quando, excepcionalmente, se escolhe um homem ou mulher capaz e com pensamento próprio, fica logo emasculado em "colectivo" com um mar de medíocres e sob a direcção de um camarada "firme" e de toda a confiança, que reporta directamente ao guru. Ali ficará então a ser amesquinhado sistemanticamente, submetido ritualmente ao império ditatorial da vulgaridade.
Este peculiar conceito "igualitarista" significa apenas que o partido odeia o talento, e por isso é dominado por gente amarga e ressentida. Quem manda lá agora são os Domingos Abrantes, as Luísas Araújos, os Franciscos Lopes, as Rosas Rabiais, etc.. Eles odeiam a burguesia, realmente, mas do mesmo modo que odeiam tudo o que se destaca, que tem brilho próprio e qualidade especial. Isto não tem nada a ver com a imposição da "regra de ouro" da maioria operária no CC, com a qual até concordo. Os operários escolhidos também não são os mais talentosos e cultivados. E entre os intelectuais, o que se vê lá mais são cabeças-de-alho-chocho. Não tem nada a ver com classe ou origem social. É entendimento especial, que eu diria uma espécie de revanchismo da mediocridade.
Ora, esta peculiar "meritocracia" invertida do PCP cria um problema muito grave... quando o guru falhar de vez. Quem é que vai pensar, agora? O pensamento é o mesmo de sempre, como é óbvio. É o pensamento do mestre, aquela sopa indigesta de estalinismo degradado que eles insistem em chamar "marxismo-leninismo". Mas o problema é que esse pensamento está completamente falido, nos seus lineamentos fundamentais. E depois já não tem sequer a hipótese de se regenerar, de se adaptar dinamicamente a realidades políticas novas e cambiantes. Os discípulos não estão programados para isso, nem têm o mínimo de massa encefálica necessária para o fazer.
Todo o sistema pêcêpista só é sustentável enquanto existe o guru, que pensa tudo e tudo orienta. Quando o guru faltar, a coisa começa a desagregar-se. Há dissidências em massa: de gente que já não está disposta a sujeitar-se a outra autoridade menor que a do guru genuíno, de gente que acha que os sucessores não representam bem o pensamento autêntico do guru, enfim, de gente que acha que o pensamento do guru já está um bocado fora de moda, etc.. Reunindo os últimos fiéis dos fiéis (mais alguns oportunistas sem escrúpulos), a coisa pode ainda andar um bocado, em piloto automático, como os perus a quem se corta a cabeça. Mas a tendência será, como em muitas seitas religiosas, para tudo se encaminhar para uma espécie de suicídio colectivo. E é nisso que estamos agora, enfim. Esperemos que já não demore muito.
Não me vou alongar sobre isto, foi mesmo só para desabafar a necessidade de se romper com as categorias de pensamento bafiento e liquidacionista que o PC, numa linha cunhalista - versão (mal) recauchutada para o século XXI - insiste em prosseguir. Evidentemente, não alinho com a corja direitista, ela própria produto deformado desse antro de revisionismo que é o PCP. Cada vez mais, penso que é um imperativo o pensamento crítico, balizado po princípios de honestidade intelectual, capacidade de abstracção (tanto na construção teórica, como no posicionamento no que toca ao nosso objecto de estudo e de intervenção), consciência auto-crítica efectiva e ter como eixo analítico a necessidade de produção de conhecimento científico o mais rigoroso possível, balizado pelo marxismo clássico e, tendo como objectivo fundamental, a práxis revolucionária da classe trabalhadora.
Vamos ter muito, muito que fazer.
A começar por varrer para a sucata toda essa tralha velha e mais que inútil, tóxica e malsã, que nos deixaram de herança. E cuja responsabilidade cabe, acima de tudo e todos, a um homem muito concreto. Devido ao seu desmesurado orgulho pessoal, ao seu estilo de liderança implacavelmente autocrático, à sua parca honestidade intelectual, à sua total incapacidade auto-crítica, à sua credulidade extrema, à sua gritante falta de lucidez, à sua falta de sentido prático e de malícia na avaliação de caracteres e situações, à sua insuficiente cultura marxista, ao seu dogmatismo hierático, à sua rigidez intelectual extrema e total falta de criatividade teórica e política.
Por tudo isso, Cunhal foi responsável por erros tremendos. E é dele em última análise a responsabilidade pela transformação do Partido Comunista Português (que não é de modo algum propriedade sua) no lamentável despojo que ele hoje é, um misto de soviete supremo brejnevista e de Igreja Universal do Reino de Deus.
Álvaro Cunhal tem vultuosos serviços prestados ao povo português e também aos povos das ex-colónias portuguesas. É um personagem histórico. Deve-lhe muito o actual regime político português, embora os seus dominadores não reconheçam essa dívida nem lhe prestem tributo por ela. Cunhal foi um lutador e, sempre que chamado a sacrifícios, portou-se como um homem íntegro e vertical. Por muitos anos que viva e muitos mais erros que cometa ainda, não é concebível que consiga enegrecer o seu registo de tal modo que este se torne negativo.
Mas o seu passivo é bem real, continua a acumular-se de forma preocupante e vai ter de ser avaliado com todo o cuidado. Em termos de organização política, não nos deixa nada que sirva ou que possa ter algum préstimo nos novos tempos. O PCP, ou é para abater pura e simplesmente, como um velho navio em doca seca, ou então terá de ser integralmente reinventado, de popa à proa, do porão à gávea.
Em termos de pensamento político também quase nada nos deixa de interesse. Mas há uma outra coisa, muito importante.
Se alguém lá da brigada do reumático estalinista lesse o que eu escrevi mais acima, diria certamente para consigo: este bandido é esperto, mas muito gostava de saber o que é que ele vale de facto. Sentindo-se incomodado com o que eu digo, e estando na minha presença, até seria capaz de crescer para mim e olhar-me olhos nos olhos, para ver bem se as minhas pupilas estremecem. E eu até acho isso muito bem e perfeitamente adequado. Não há coragem alguma que não seja, em última instância, coragem física. Tu podes ter as ideias mais belas e inteligentes do mundo, mas se "rachas" logo à primeira estalada (ou, pior que isso, à primeira oferta de emprego), não mereces que ninguém te siga. Eles aprenderam por experiência feita a importância destas avaliações.
Se quiseres, é isto de facto que é o legado essencial e imorredouro deles. A paixão pela liberdade, pela solidariedade, e a noção de que as ideias políticas que se assumem são para ser encarnadas no próprio corpo e levadas até ao limite do risco físico mais extremo. Isto é uma coisa importantíssima, essencial num revolucionário, e que nestes tempos de calmaria "democrática" se perdeu muito infelizmente.
É um pouco trágico este desencontro com o PCP. É lá que estão ou estiveram todos os meus (os nossos) "cromos". Eu quando era criança coleccionava os "cow-boys": o Roy Rogers, o John Wayne, etc.. Quando me tornei adolescente vi logo que estes heróis eram de plástico, não valiam nada. Depois arranjei outros, os quais conservei para toda a vida. São o Pires Jorge, o Jaime Serra, o Dias Lourenço, o Octávio Pato e tantos outros e outras. Isto de entre os cá da minha terra, com são aqueles com quem eu partilho um mesmo ethos e aquela especial sentimentalidade portuguesa. Às vezes espreitava-os de longe, lá na festa do Avante, e sentia um certo estremecimento. Nunca os conheci (nem a Álvaro Cunhal), mas sinto uma necessidade enorme de pensar que estamos juntos nalguma coisa, eu e eles. Que há uma corrente que passa deles para nós, mesmo que não nos cheguemos a encontrar e a passar palavra pessoalmente. Eu sei que eles estão lá e gostava que eles também tivessem a certeza de que nós cá estaremos. Mesmo não nos entendendo lá muito bem.
O tempo é um rio espesso e malicioso. Deixa sulcos profundos, cava abismos intransponíveis. Mas no final de todos os finais, se ele existe, tudo vai dar certo. E se esse final não existe, como eu suspeito, então a luz da esperança vai continuar para sempre a brilhar enigmaticamente do fundo do tempo. E os netos dos nossos netos serão, por sua vez, chamados a excederem-se a si mesmos para a alcançar.
Eh, pá. Lá estou eu outra vez a fazer poesia. Tchau, até logo.
Ângelo Novo
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