| Subject: Re: O dia depois de amanhã... |
Author:
Ângelo Novo
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Date Posted: 13/12/04 16:27
In reply to:
Fernando Penim Redondo
's message, "O dia depois de amanhã..." on 12/12/04 16:07
>A vida já mostrou que não vale a pena forçar os
>acontecimentos históricos sem assegurar a adesão das
>pessoas.
Aqui estamos completamente de acordo. Se "as pessoas" (eu diria as classes oprimidas e exploradas) não vêm necessidade de mudança, não sentem nas suas
entranhas um desejo irreprimível de libertação, pois nada feito.
Não é um punhado de "iluminados" que lhes poderá impor à força um nova utopia pronto-a-vestir, à la Blanqui.
Outra coisa é "as pessoas" sentirem esse desejo, olharem desesperadamente à sua volta e não encontrarem alternativas.
Aí a responsabilidade é nossa, dos pensadores revolucionários. Aí nós não estamos a mais, a criar dramas e desgraças escusadas, como dizem pressurosamente os pensadores da ordem. Aí estamos mas é a menos, a fazer cruelmente falta.
Concordo que não é esse o caso presentemente, em Portugal. Isto aqui, enfim, vai andando, na sua parda pasmaceira, com bolsas de pobreza aflitivas, uma corrupção medonha, mas sem dramas sociais insustentáveis. Para já.
Mas é bem esse o caso em muitos países em África, na Ásia e na América Latina (Argentina, Bolívia, Equador, Perú, para só nomear casos recentes de insurreições populares espontâneas, abortadas por falta de alternativas
políticas articuladas e organizadas).
Ora, eu penso que os problemas do mundo de hoje têm que ser vistos no plano global.
Tenho muito orgulho em ser português, gosto disto aqui, mas, politicamente, Portugal não me interessa por aí além.
Em primeiro lugar, precisamente, porque não há aqui um problema urgente e grave para ser resolvido. Em segundo lugar porque, quaisquer problemas que surjam ou se agudizem no futuro, não podem hoje ter soluções puramente nacionais.
Hoje já não temos nada que "salvar a pátria" (outra coisa que o PCP, pelos vistos, jamais há-de chegar a entender). A "salvação" tem de ser global. Ou não será.
>Nunca houve nenhuma mudança de sistema social, ou modo
>de produção, que resultasse de um acto insurreccional.
>O mais que se consegue pela força é adequar as
>instituições às modificações que a realidade social e
>económica já consagrou.
Aqui, parece-me que temos concepções do materialismo histórico bastante diferentes.
Do meu ponto de vista, a realidade social e económica não evolui por si só, espontaneamente, e depois de vez em quando deita fora a sua "superestrutura" política e ideológica, como as cobras vão mudando de pele quando esta
envelhece. Isto é uma visão muito evolucionista da história, que deixa muito pouco lugar para a intervenção consciente nela.
Se isso fosse assim, então mais valia deixar andar, que os problemas haviam de resolver-se todos por si naturalmente. Confiemos na evolução das forças produtivas.
Eu acho que as coisas se passam de uma forma bem mais complexa, na qual a luta de classes desempenha um papel central.
É claro que o leque de possibilidades de mudança social é delimitado pelos recursos disponíveis em saber técnico e organizativo. Mas a via que vamos seguir efectivamente, essa será resultado da constante guerra de atricção
que os actores sociais mantém entre si. Dessa guerra de posições (que oferece periodicamente episódios de guerra de movimento e ruptura profunda) é que resultarão as novas organizações políticas e sociais. E estas serão
tanto mais bem sucedidas e terão, por assim dizer, maior sucesso "reprodutivo" (em sentido quasi darwiniano) e expansivo quanto conseguirem organizar de forma óptima (o "one best way", se quiser) os recursos técnicos, organizativos e de saber científico disponíveis e mobilizáveis socialmente.
Espero ter-me feito entender, assim de improviso. Isto é, naturalmente, uma matéria que tinha que ser exposta com outro desenvolvimento e sobre a qual aliás os meus pensamentos ainda não se fixaram de uma forma definitiva.
>O problema do PCP não é defender modos pacíficos de
>transição, fases antes do socialismo, ou qualquer
>outra questão de método; o problema do PCP, e
>também do Ângelo Novo, é que mesmo que
>conquistasse o poder não sabia o que fazer; não têm
>qualquer ideia de como organizar a produção em
>sociedade de forma mais eficiente que o capitalismo e
>de forma que naturalmente se auto-reproduza na prática
>de milhões de homens.
>
>O descalabro da URSS ainda não foi resolvido; a
>inépcia, a preguiça ou o aturdimento têm impedido que
>se faça o trabalho de reconfigurar a utopia comunista.
Ah, sim, aí está o problema.
Dentro das minhas modestas forças, julgo que tenho estado a trabalhar nele. Provavelmente vai ser trabalho para toda a minha vida. E sozinho não vou a lado nenhum, de certeza.
Sinceramente, não me estou a ver a sair do banho um dia e gritar "eureka", "eureka", venham comigo que vamos já dar cabo disto tudo e criar um mundo novo. Podemos ficar todos mais sossegados e tranquilos (eu sobretudo), porque o Ângelo Novo não vai de certeza "tomar o poder". Eu sou um personagem muito reservado, que nem gosta de exposição pública.
Agora, tenho a firme convicção de que os problemas que enfrenta o mundo contemporâneo só terão solução mediante a revolução social. Não tenho problema nenhum em dizê-lo desde já, mesmo enquanto não tenho eu próprio nenhum plano completo (para além de uns esboços muito genéricos) para alterar o presente estado de coisas. Não estou a fazer sedição nem a incitar à revolta. Estou a pensar alto, mais nada.
Um abraço para si também.
Ângelo Novo
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