VoyForums
[ Show ]
Support VoyForums
[ Shrink ]
VoyForums Announcement: Programming and providing support for this service has been a labor of love since 1997. We are one of the few services online who values our users' privacy, and have never sold your information. We have even fought hard to defend your privacy in legal cases; however, we've done it with almost no financial support -- paying out of pocket to continue providing the service. Due to the issues imposed on us by advertisers, we also stopped hosting most ads on the forums many years ago. We hope you appreciate our efforts.

Show your support by donating any amount. (Note: We are still technically a for-profit company, so your contribution is not tax-deductible.) PayPal Acct: Feedback:

Donate to VoyForums (PayPal):

Login ] [ Contact Forum Admin ] [ Main index ] [ Post a new message ] [ Search | Check update time | Archives: 1234[5]6789 ]
Subject: Re: São amendoins, senhores


Author:
Firmino Macedo
[ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ]
Date Posted: 28/09/04 15:11
In reply to: Inês Pedrosa 's message, "São amendoins, senhores" on 27/09/04 18:37

Na excitação de tanta indignação, a interveniente acaba por dizer umas quantas coisas sem sentido, ou até contraditórias, à mistura com alguns desabafos sensatos.

"O último relatório da OCDE veio repetir, para nossa vergonha, as clássicas conclusões sobre Portugal: um país de baixo nível de vida, em consequência de baixa produtividade, em consequência de péssima formação. Ou seja: um país desesperadamente necessitado de elevar a qualidade do seu ensino".

Constitui um mero chavão, repetição do paleio também repetido à exaustão pelo discurso da burguesia, dizer-se que o baixo nível de vida dos portugueses é consequência da baixa produtividade derivada de péssima formação. Antes de mais, o baixo nível de vida é devido a salários baixos - porque se o salário mal der para pagar a conta do merceeiro não sobra para outras coisas - e de há muito se sabe que a principal causa da baixa produtividade é precisamente o salário baixo, nomeadamente, porque se o salário não pressiona a taxa de lucro os capitalistas não investem de modo a alterarem significativamente a composição orgânica do capital, ela, sim, susceptível de elevar a produtividade e a competitividade.

Derivando essencialmente da baixa composição orgânica do capital, a baixa produtividade não é consequência de péssima formação. Com tantos jovens no desemprego com o ensino secundário e a licenciatura, parece não haver falta de formação; quando muito, poderia haver um certo desfasamento entre os tipos de formação proporcionados pelo ensino e as necessidades da economia; mas só seria correcto falar em péssima formação se os empresários estivessem a braços com a falta de operários e técnicos qualificados, de modo a terem necessidade de importá-los, e o que se verifica é que a mão-de-obra imigrante é constituída fundamentalmente por trabalhadores não qualificados (ou alguns qualificados em demasia para as necessidades da economia...), cuja função é conter qualquer elevação significativa do salário médio.

O País deveria elevar a qualidade do seu ensino, também me parece, mas não pelas razões que invoca. Se fosse por elas, o patronato já teria tido mais do que uma palavra a dizer (e a impor) sobre as sucessivas reformas do ensino que têm sido ensaiadas nos últimos anos. Acontece que para um patronato apostado em gerar lucro à custa de salários baixos, o nível do ensino é questão secundária. Até aqui, as poucas empresas com tecnologia de ponta e com verdadeira necessidade de operários e de técnicos qualificados têm-na suprido com a formação interna (em geral subsidiada por fundos comunitários ou do Estado português); e as pequenas e médias empresas, ao que parece, não têm grande falta desse tipo de mão-de-obra qualificada (dado que muitas são negócios pessoais ou familiares, a tecnologia raia o artesanato e os próprios empresários têm níveis de qualificação técnica ou de gestão baixíssimos). Basta consultar os jornais, ou as listas dos Centros de Emprego, sobre as ofertas de emprego para constatar que o País não está carente de mão-de-obra qualificada. E esta falta de procura, ela, sim, tem reflexos na forma como a escola é encarada e nas taxas de insucesso que lá ocorrem. Sem grandes perspectivas de mobilidade social ascendente através do ensino, a escola (digo, o esforço exigido para o sucesso na aprendizagem) constitui algo pouco menos do que penoso para uma boa parte dos que a frequentam; daí que ela seja facilmente transformada em local de convívio e de lazer, e a qualidade das aprendizagens e os níveis de sucesso sejam tão baixos (e os níveis de insucesso não são maiores, apesar da baixa qualidade, porque muitos professores e… professoras são indulgentes em demasia).

Não se compreende muito bem como a ”ausência de condições de trabalho minimamente dignas (em termos de salários, progressão na carreira e equipamentos escolares) tem transformado o Ensino num escoadouro de maus licenciados”. Por um lado, o ensino não é só escoadouro de maus licenciados, mas de jovens licenciados (uns bons, outros maus) que não encontram emprego noutras actividades (pelas razões já acima expostas); e foi-o, embora hoje já não o seja tanto, devido à explosão escolar ocorrida durante o fim da década de setenta e durante toda a década de oitenta; por este facto, todos os anos cresce o número de candidatos à profissão de professor que fica de fora nos concursos de colocação. Por outro lado, os salários não são tão baixos como tudo isso, nomeadamente, a partir do meio da carreira, e a progressão é meramente feita à base da passagem do tempo e de uns quantos créditos de formação sem qualquer maçada de maior e sem a mínima qualidade ou interesse para a proficiência profissional. Se muitos professores hoje são maus profissionais isso deve-se, em grande parte, por um lado, à forma como a profissão é exercida (os professores não trabalham na escola, vão à escola dar umas aulas, o que é muito diferente…) e ao autêntico descalabro que é a gestão de pessoal, a começar pela admissão centralizada num concurso sem prestação de provas e a findar na gestão burocrática e corporativa, que transforma a maioria dos professores em autênticos irresponsáveis pela qualidade do trabalho que desenvolvem; por outro lado, ao acomodamento e à falta de incentivos traduzidos na forma de progressão na carreira (de que lhes vale o mérito se ele não é recompensado?); por fim, ao risco que o exercício da profissão encerra hoje, devido ao crescimento da indisciplina (também com múltiplas causas, a que não será alheia a desmotivação pela inutilidade da escola como instrumento de mobilidade social), à perda de autoridade e à excessiva feminização do corpo docente (cujas características específicas diminuem a capacidade de resolução de conflitos ou de exercício da autoridade entre uma população escolar constituída por adolescentes cada vez mais indisciplinados, agressivos, irresponsáveis e mal-educados).

Firmino Macedo


>O último relatório da OCDE veio repetir, para nossa
>vergonha, as clássicas conclusões sobre Portugal: um
>país de baixo nível de vida, em consequência de baixa
>produtividade, em consequência de péssima formação. Ou
>seja: um país desesperadamente necessitado de elevar a
>qualidade do seu ensino.
>
>Serão os nossos professores a nata da ciência e do
>saber? Só nos casos esporádicos de uma vocação insana,
>capaz de persistir no meio do caos, da miséria
>concreta e da injustiça gritante que domina todos os
>níveis da Educação em Portugal.
>
>A ausência de condições de trabaJho minimamente dignas
>(em termos de salários, progressão na carreira e
>equipamentos escolares) tem transformado o Ensino num
>escoadouro de maus licenciados. No que se refere ao
>ensino do Português, que é o que melhor conheço, a
>situação é quase catastrófica: a maioria dos
>professores de hoje é constituída por pessoas que
>ontem não tiveram média para entrar em cursos com
>saídas profissionais mais amplas. Pessoas que alegam
>que não têm tempo para ler. Pessoas que nunca leram
>nada a não ser o estritamente obrigatório do programa
>- e, mesmo isso, leram-no nos livros de resumo ou de
>«apoio didáctico». Decoraram meia dúzia de palavras
>caras do «didactês» que substitui o português
>transparente de quem ama os textos literários e, com
>essas muletas, vão atravessando o país, sistema de
>ensino e a vida. E são exactamente tão mal pagos como
>os outros, os de excepção, que atraem as crianças e os
>jovens para o prazer árduo da literatura, que gastam
>os seus tempos livres a levar os meninos ao teatro e
>aos museus, que os ensinam a olhar para dentro de uma
>pintura e a ler em voz alta.
>
>Claro: seleccionar e distinguir sai caro. É caro criar
>quadros de nrofessores nas escolas - a começar pelas
>do primeiro ciclo, porque é nos primeiros anos que o
>futuro de um estudante se decide, e a relação afectiva
>que a criança estabelece com o professor é essencial
>para o sucesso da aprendizagem. É caro e politicamente
>doloroso, porque isso significa convencer os
>professores a fixarem-se nas escolas que ninguém quer
>- as do interior, as dos maus subúrbios. Essa
>colocação seria certamente mais fácil através de
>incentivos salariais específicos - isto é, pagando
>melhor aos professores colocados nas áreas por todos
>indesejadas. Reduzir-se-ia ao mínimo esta desgraçada
>dança anual de professores.
>
>Claro que seria mais caro ter um corpo de professores
>efectivos, aos quais se pagam catorze salários por ano
>e as regalias correspondentes, do que um batalhão de
>contratados sem carreira, que se despede em Junho e se
>volta a contratar em Setembro. Até nessa instituição
>de promoção da qualidade de vida dos trabalhadores que
>é o lnatel, os professores de educação física estão
>todos a recibo verde, sem direito a férias pagas -
>alguns há 20 anos. Quando os alunos pretendem
>inscrever-se na aula do professor A., dizem-lhes que
>ali não há nomes - que se inscrevam numa aula
>qualquer, e depois trocam. Assim se anula o
>reconhecimento do mérito individual, e fica tudo mais
>barato. Barato? Mas então e os milhares que se pagam
>aos gestores públicos? O dinheiro que se gasta na
>contínua troca das frotas de automóveis de luxo dos
>ministérios e empresas públicas? Os hotéis de
>dezasseis estrelas onde se aloja qualquer governante
>em trânsito? Respondem-nos que tudo isso são
>«peanuts», amendoins. Que não é por aí. Resignamo-nos
>à demagogia da realidade. Amendoins. E o povo olha
>para os macacos, embasbacado, a ver se aprende a ser
>tão macaco como eles.

[ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ]

Replies:
Subject Author Date
Re: São amendoins, senhoresJosé de Sousa28/09/04 18:07


Post a message:
This forum requires an account to post.
[ Create Account ]
[ Login ]
[ Contact Forum Admin ]


Forum timezone: GMT+0
VF Version: 3.00b, ConfDB:
Before posting please read our privacy policy.
VoyForums(tm) is a Free Service from Voyager Info-Systems.
Copyright © 1998-2019 Voyager Info-Systems. All Rights Reserved.