| Subject: São amendoins, senhores |
Author:
Inês Pedrosa
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Date Posted: 27/09/04 18:37
In reply to:
Jorge Nascimento Fernandes
's message, "A aliança entre burocratas e sindicalistas" on 27/09/04 12:28
O último relatório da OCDE veio repetir, para nossa vergonha, as clássicas conclusões sobre Portugal: um país de baixo nível de vida, em consequência de baixa produtividade, em consequência de péssima formação. Ou seja: um país desesperadamente necessitado de elevar a qualidade do seu ensino.
Serão os nossos professores a nata da ciência e do saber? Só nos casos esporádicos de uma vocação insana, capaz de persistir no meio do caos, da miséria concreta e da injustiça gritante que domina todos os níveis da Educação em Portugal.
A ausência de condições de trabaJho minimamente dignas (em termos de salários, progressão na carreira e equipamentos escolares) tem transformado o Ensino num escoadouro de maus licenciados. No que se refere ao ensino do Português, que é o que melhor conheço, a situação é quase catastrófica: a maioria dos professores de hoje é constituída por pessoas que ontem não tiveram média para entrar em cursos com saídas profissionais mais amplas. Pessoas que alegam que não têm tempo para ler. Pessoas que nunca leram nada a não ser o estritamente obrigatório do programa - e, mesmo isso, leram-no nos livros de resumo ou de «apoio didáctico». Decoraram meia dúzia de palavras caras do «didactês» que substitui o português transparente de quem ama os textos literários e, com essas muletas, vão atravessando o país, sistema de ensino e a vida. E são exactamente tão mal pagos como os outros, os de excepção, que atraem as crianças e os jovens para o prazer árduo da literatura, que gastam os seus tempos livres a levar os meninos ao teatro e aos museus, que os ensinam a olhar para dentro de uma pintura e a ler em voz alta.
Claro: seleccionar e distinguir sai caro. É caro criar quadros de nrofessores nas escolas - a começar pelas do primeiro ciclo, porque é nos primeiros anos que o futuro de um estudante se decide, e a relação afectiva que a criança estabelece com o professor é essencial para o sucesso da aprendizagem. É caro e politicamente doloroso, porque isso significa convencer os professores a fixarem-se nas escolas que ninguém quer - as do interior, as dos maus subúrbios. Essa colocação seria certamente mais fácil através de incentivos salariais específicos - isto é, pagando melhor aos professores colocados nas áreas por todos indesejadas. Reduzir-se-ia ao mínimo esta desgraçada dança anual de professores.
Claro que seria mais caro ter um corpo de professores efectivos, aos quais se pagam catorze salários por ano e as regalias correspondentes, do que um batalhão de contratados sem carreira, que se despede em Junho e se volta a contratar em Setembro. Até nessa instituição de promoção da qualidade de vida dos trabalhadores que é o lnatel, os professores de educação física estão todos a recibo verde, sem direito a férias pagas - alguns há 20 anos. Quando os alunos pretendem inscrever-se na aula do professor A., dizem-lhes que ali não há nomes - que se inscrevam numa aula qualquer, e depois trocam. Assim se anula o reconhecimento do mérito individual, e fica tudo mais barato. Barato? Mas então e os milhares que se pagam aos gestores públicos? O dinheiro que se gasta na contínua troca das frotas de automóveis de luxo dos ministérios e empresas públicas? Os hotéis de dezasseis estrelas onde se aloja qualquer governante em trânsito? Respondem-nos que tudo isso são «peanuts», amendoins. Que não é por aí. Resignamo-nos à demagogia da realidade. Amendoins. E o povo olha para os macacos, embasbacado, a ver se aprende a ser tão macaco como eles.
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