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Subject: A República dos Professores


Author:
HELENA MATOS
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Date Posted: 17/10/04 10:24
In reply to: Fernando Penim Redondo 's message, "Canonizemos São Marcelo" on 8/10/04 20:51

Há duas semanas que se discute o "fait divers" Rebelo de Sousa. Detrás das moitas saltam agora outros colunistas gritando que também eles foram vítimas de perseguições e creio mesmo que, de agora em diante, qualquer colunista fará do caso Marcelo o seu seguro de vida. Claro que nem todos os comentadores podem contar com a benesse dumas declarações como as de Gomes da Silva que estendem sob os pés do mais inócuo o tapete vermelho da perseguição, última etapa antes da consagração no panteão dos intocáveis. Marcelo tirou e tirará o proveito político que puder desta situação e estranho seria que não tirasse. O que faz Marcelo Rebelo de Sousa senão política? Aliás Marcelo protagoniza um estatuto que é invejável para os políticos: tornou-se Professor. O termo Professor quando maiusculado gráfica ou foneticamente e aplicado a um político não tem nada a ver com actividades lectivas. Não interessa nada o que, na sua vida profissional, faz o Professor porque o estatuto do Professor implica, em Portugal, uma espécie de imaterialidade que o livra dessas coisas comezinhas do dia-a-dia como os vencimentos. Neste imaginário associa-se o Professor a alguém que, na esfera intelectual, é muito bem remunerado graças a actividades difusas como pareceres e colóquios. De alguma forma na questão do dinheiro o Professor assemelha-se ao Artista ou ao Poeta (também eles gráfica e foneticamente maiusculados): o seu valor não é objectivo mas subjectivamente está implícito que, por mais que se lhe pague, esses montantes serão sempre uma mesquinha expressão material face a tanto Saber e Génio. Por exemplo, recorde-se a escolha do secretário-geral do PS. Quantos artigos foram feitos sobre os rendimentos de Sócrates? E quantos sobre o mesmo tema foram dedicados a Manuel Alegre? Manuel Alegre é um Poeta, logo até parece acintoso abordar-se essa temática acerca de si. Já quanto a Sócrates, que segue o teleponto e não as Musas!, antes pelo contrário, está agarrado às coisas mesquinhas do mundo.

Uma das características mais interessantes deste estatuto do Professor prende-se com o facto de elevar os poucos que dele usufruem acima dos outros comuns políticos. Estes, por contraste, ficam transfigurados numa espécie de turma irrequieta, preguiçosa e bulhenta. Os Professores apresentam-se como vultos não movidos pela paixão, nem pelo desejo de ganhar os combates políticos. As soluções indicadas pelos Professores são ungidas pelo Saber e estão livres da mácula da política. O Professor funciona no imaginário português como a Câmara dos Lordes ou os senados. Assim se explica também que sendo professores alguns políticos no activo eles só comecem a ser referidos pelo majestático Professor quando oficialmente deixam a política activa e, na verdade, a trocam por outra forma de fazer política. Deixam de ser "o Cavaco", "o Marcelo", "o Freitas"... e tornam-se no Professor. Esta passagem não é fácil e poucos conseguem cumprir os rituais de investidura. Mas uma vez superadas todas as barreiras entra-se no Olimpo.

Tal como acontecia na Antiga Grécia, também este heróis têm os seus seguidores, aqueles que, quais sacerdotisas de antiquíssimos oráculos, lhes interpretam as mais simples frases, os silêncios, os olhares. Mesmo os jornalistas, sobretudo aqueles que cultivam um ar pesporrento face aos outros políticos, quando entrevistam os Professores parecem ter acabado de sair dum anúncio da Tele2 e, a cada olhar, interrogar-se e interrogarmo-nos: "Como é possível que ainda não tenhamos levado este homem em ombros até ao lugar que lhe compete?" Sim, porque a grande lição de todos os Professores é essa: eles sabem qual é o lugar que merecem na sociedade. Aparentemente não mexem um dedo para chegar lá. Somos nós que não só lhes temos de pedir que, em nome do bem comum e do país, abandonem essa espécie de retiro intelectual e espiritual em que são felizes, como ainda penitenciarmo-nos por não o termos feito antes. Em Portugal, esta trata-se duma estratégia com reconhecido sucesso para conquistar o Poder - basta pensar em Salazar ou Marcelo Caetano. Mas não só. Os Professores são os nossos grandes sobreviventes políticos. Essa espécie de desprendimento dos lados mesquinhos da vida de que beneficiam leva a que nunca fiquem em absoluto comprometidos com o seu passado: Veiga Simão, Adriano Moreira, José Hermano Saraiva... provam-nos que, aos Professores, não só lhes é mais fácil a reconciliação com os novos tempos como mais provável que acabem incensados pelos seus antigos detractores.

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Subject Author Date
O MÁRTIRO Inimigo Público18/10/04 18:41


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