Author:
Jorge Nascimento Fernandes
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Date Posted: 10/09/04 11:15
In reply to:
Cidadão Comum
's message, "Função Pública torra 80% dos impostos" on 4/09/04 10:57
Ao “cidadão comum” Parte II
Tal como tinha prometido irei fazer nesta intervenção uma análise ao conteúdo das afirmações do nosso “cidadão comum”. A primeira parte referia-se à utilização, conjuntamente com um discurso de direita, da designação de “cidadão comum”, que infelizmente na história recente da vida política europeia está relacionado com alguns movimentos da extrema-direita.
Comecemos por alguns extractos retirados das suas diferentes intervenções, que me parecem significativos das afirmações do “cidadão comum”:
- “Os ministérios são essencialmente mediadores dos interesses profissionais de classe. Por exemplo o "da Educação" deveria chamar-se "dos Professores" e o "da Saúde" deveria chamar-se "dos Médicos". Os interesses nacionais mais gerais dos milhões de utentes estão permanentemente reféns das guerrilhas profissionais, usadas como arma de arremesso político.
A intervenção do Senhor Fidalgo é bem típica da chantagem habitual; ou se aceita a escalada sindical na administração pública, e se trava qualquer esforço de melhoria da eficiência dos serviços, ou se fica inevitavelmente à mercê dos interesses privados.
Todos os anos ou a esquerda ou a direita, conforme a cor do governo, usam esta questão como arma de arremesso com total desprezo pelos alunos e pelo ensino.
Porque é que os professores são a única, repito única, classe profissional objecto deste tratamento de luxo ?
Eu penso que o sistema actual é o resultado da conjugação do anseio de poder da burocracia do Ministério com o interesse dos sindicatos em disporem de uma mega- luta.
Ele mostra precisamente que não temos um Estado Social para a generalidade da população mas apenas para a casta dos políticos e dos funcionários públicos.
Trata-se de uma política de classe (em que se aliam os empresários, os funcionários e as profissões liberais) e cujas vítimas são:
- os trabalhadores por conta de outrem que pagam o sistema
- os idosos reduzidos à miséria pelas baixíssimas reformas
- os cidadãos em geral pelas enormes deficiências dos serviços públicos.
Isto de pensar nos interesses do conjunto do povo é um grande pecado...tudo está bem desde que não se toque no "status quo"...
Os próprios funcionários deviam ser os primeiros a criticar o sistema e a lutar para o corrigir em vez de, pensando que se defendem, recusar qualquer tentativa de correcção com medo que lhes toquem no bolso...” -.
O que denotam estas afirmações é uma grande raiva contra os funcionários públicos, que aparecem como uma casta associada aos políticos e às profissões liberais. Há mistura, aparecem os sindicatos das profissões referidas associados com os burocratas dos Ministérios, que se passariam assim a denominar dos “Professores” e dos “Médicos”.
Ora este é o típico discurso de direita que, incapaz de perceber qual é a realidade da exploração e quem são os nossos inimigos, inventa um conjunto deles, que passam a suportar o odioso de todos os males que afligem a Nação.
Conhecemos este discurso. Os nazis invocavam os judeus e os comunistas como os responsáveis pela derrota da Alemanha na I Guerra Mundial e pela inflação e desemprego que a vinham destruindo. Hoje a extrema-direita europeia recorre aos negros e aos emigrantes, responsabilizando-os pelas desgraças e insegurança que afectam os seus países, e o Sr. Bush, para justificar as guerras de agressão e pilhagem em que está envolvido, utiliza o terrorismo internacional como justificação.
Neste texto do “cidadão comum” não há a mais pequena referência à ofensiva do patronato, aos despedimentos colectivos, às fábricas a fecharem, aos salários em atraso, à modificação da legislação do trabalho, etc.. Há a referência à casta dos funcionários públicos como um dos grandes aproveitadores do sistema, esquecendo que a função pública é um enorme e complexo emaranhado de relações de trabalho que não pode ser analisada com o simplismo e facilidade com que é feita.
Há igualmente, como não podia deixar de ser, a referência aos políticos, esquecendo-se que estes não são todos iguais, que apesar de defenderem a maioria das vezes os seus privilégios, estão lá para defender os interesses de quem os lá pôs, que em muitos casos não é de certeza o povo. Que os sindicatos há muito que estão arredados da decisão política e que aqueles de quem se diz mal (professores, médicos, enfermeiros, etc.) são os únicos que ainda hoje têm força para impor as suas reivindicações. Etc., etc., etc..
Ou seja, aproveitando, uma análise interesseira e completamente alinhada com as posições dominantes relativamente à função pública e ao sistema administrativo do Estado feita pelo Sr. Medina Carreira, vêm-se destilar a raiva pequena-burguesa contra outros trabalhadores, que são igualmente vítimas da ofensiva da direita e do patronato.
É contra isto que argumento, não podendo fechar os olhos a que no “dotecome” um senhor intitulado “cidadão comum” venha destilar o velho veneno da divisão entre trabalhadores, esgrimindo ataques contra moinhos de vento inexistentes e deixando de lado o nosso principal inimigo que é o Governo de Direita do Sr. Santana Lopes e do patronato que o apoia.
PS. Este texto não é ainda a resposta às recentes afirmações do Sr. “cidadão comum”
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