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Subject: Re: Cosmopolitismos


Author:
Ângelo Novo
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Date Posted: 13/09/04 15:31
In reply to: Jorge Nascimento Fernandes 's message, "Cosmopolitismos" on 13/09/04 12:35

>Cosmopolitismos
>
>Não sei se este texto do Ângelo Novo foi introduzido
>pelo próprio ou por alguém sem citar a fonte. Volto ao
>problema já levantado pelo Fagundes, a que sou de
>facto sensível.


Fui eu próprio que o introduzi aqui, acabadinho de concluir. Em princípio será publicado na próxima 'Política Operária'. De facto, esta revista tem uma tiragem muito limitada (1.100 suponho) quase toda ela distribuída por assinantes. Mas é a única publicação portuguesa na qual sei que posso sempre escrever exactamente aquilo que eu penso e divulgar as investigações e reflexões às quais escolhi dedicar a minha vida. Não é coisa pequena.


“O Estado
>das Coisas” no PCP. Não será agora que irei fazer a
>crítica a este seu artigo, mas desde já lhe chamo a
>atenção, que sendo justa a crítica que faz, ela se
>insere numa muita antiga divergência, que remonta à
>cisão do Francisco Martins Rodrigues, actual director
>da “Política Operária” e o primeiro maoista
>português, quando nos anos 60 fundou a FAP, em
>divergência com o PCP.
>Já tenho feito referência a isso aqui no dotecome,
>como os “esquerdistas”, dos anos 60, defendiam que o
>derrube do fascismo passava pela revolução socialista,
>contra as teses do PCP que defendia a revolução
>democrática e nacional, que tinha como objectivo a
>aliança de todas as camadas antifascistas, que em
>termos objectivos se traduzia na aliança entre o
>proletariado, o campesinato, a pequena-burguesia e a
>intelectualidade, com vista ao derrube do fascismo. As
>divergências são antigas e remontam, como já muito bem
>sublinhou o Francisco Martins Rodrigues à época das
>Frentes Populares, no seu libro o “Anti-Dimitrov”.




Eu sou muito mais novo que o Francisco Martins Rodrigues, e se fosse da idade dele não é nada seguro que tivesse feito o mesmo percurso. Nunca fui maoísta (embora respeite Mao como grande dirigente revolucionário), nem m-l, etc.. Aliás, olhando para épocas passadas (que não vivi), a minha avaliação também não coincide sempre com a que teve esta corrente, mesmo na parte que ela mantém ainda hoje ter estado correcta.

Eu aproximei-me da JCP, enquanto estudante, na época da crise dos mísseis na Europa (Pershing II). Fui secretário da redacção da revista Vértice ainda em Coimbra, tendo convivido com o Vital Moreira, o Gomes Canotilho, o Orlando de Carvalho e toda aquela esquerda coimbrã. A minha formação foi muito diferente da dos "esquerdistas". Saí do PC ainda no tempo do Gorbatchov. Enquanto uns saíam pela direita, eu saí pela esquerda, completamente sozinho. Andei pelas literaturas mas depois comecei a investigar uma linha de regeneração de um marxismo de recorte clássico para os nossos tempos, atento aos problemas de hoje. Vi logo que isso era um campo imensamente promissor. Praticamente, bastava limpar a patine histórica acumulada (os ismos sucessivos) e os horizontes abriam-se logo desmesuradamente. Bastava fazer umas correcções aqui, umas reavaliações ali, uns reequacionamentos acolá. O "velho" Marx via muito mal ao perto, politicamente, mas como perscrutador de horizontes distantes é fabuloso. Isso foi nos anos 1990-95, enquanto ninguém pensava nisto. Agora já há imensa gente a pensar assim. Sobretudo no mundo anglo-saxónico há um grande movimento por um marxismo "clássico", com uma boa dúzia de publicações muito boas.

E é isso que eu sou, um marxista independente. Não sou um grande dirigente da classe operária nem aspiro a sê-lo. Portanto, a minha associação com a corrente da 'Política Operária' é um tanto acidental, embora tenha muito carinho e até certa cumplicidade intelectual com o Chico e outros lá.




>Mas este meu texto vem a propósito de uma pequena nota
>do artigo do Ãngelo Novo, a (3) , que remete para um
>artigo muito recente do Albano Nunes, no Militante,
>que defende que a tarefa urgente é combater “o
>cosmopolitismo”.
>Ora eu, há tempos, encontrei no dotecome uma denúncia
>do cosmopolitismo, feita por algum “ortodoxo”, de que
>já não me recordo o nome, a propósito da candidatura
>do Bloco de Esquerda às eleições para o PE. Fiquei
>bastante impressionado porque a denúncia do
>cosmopolitismo remontava aos finais dos anos 40, do
>século passado, e tinha sido desencadeada pelos
>estalinistas, contra o capitalismo ocidental, mas
>também contra os judeus, e visava expurgar da arte e
>da ideologia soviética tudo o que eles classificavam
>como cosmopolitista. Esse “ortodoxo” ficou muito
>indignado com estas minhas acusações, lá vem outra vez
>a acusação de que eu era homem de muitas leituras, e
>pelo desenrolar da conversa pareceu-me que tinha sido
>o Miguel Portas a fazer a defesa do cosmopolitismo.
>Percebi então porque estavam tão encarniçados. Hoje,
>ao ver um peso pesado como o Albano Nunes vir outra
>vez atacar o “cosmopolitismo”, penso que não estamos
>perante um pequeno reflexo em relação a uma frase sem
>muito significado do Miguel Portas, mas sim com um
>objectivo bem determinado e que ressuscita a velha
>campanha estalinista.
>Continua.


Eu também quando li esta crítica ao "cosmopolitismo" logo me lembrei da campanha estalinista. Acho impossível que o Albano Nunes não se tenha lembrado dela também quando usou a expressão. A menos que a cultura histórica dele seja muito diferente da nossa. Esse episódio do Miguel Portas não conheço.

Seja como for, eis o que diz Albano Nunes:

"A prática internacionalista do PCP passa pelo firme combate tanto à estreiteza nacional e ao nacionalismo, como ao cosmopolitismo sem raiz de classe e sem princípios que a ideologia burguesa incessantemente alimenta, para desenraizar, diluir e neutralizar os partidos revolucionários, e que hoje constitui um dos mais sérios factores de perturbação no caminho do reforço dos partidos comunistas"

E o meu comentário é:

Para Nunes, exactamente ao contrário de Marx, a classe trabalhadora é por natureza nacional. Por isso é que, para ele, o “cosmopolitismo”, que só pode ser burguês, tem como efeito necessário dissolver a identidade de classe dos partidos operários e comunistas.

Cordiais saudações,

Ângelo Novo

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Replies:
Subject Author Date
Cosmopolitismos IIJorge Nascimento Fernandes13/09/04 16:46
Re: CosmopolitismosAntónio Fagundes16/09/04 22:47


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