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Subject: Re: PCP: O Estado das Coisas e o culto da personalidade


Author:
Ângelo Novo
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Date Posted: 17/09/04 15:37
In reply to: José Gama 's message, "Re: PCP: O Estado das Coisas e o culto da personalidade" on 17/09/04 0:40

>Não tenho qualquer dúvida de que pelo PCP passaram,
>durante a ditadura, os melhores de todos nós: os mais
>generosos e os mais abnegados a ponto de serem capazes
>de dar a vida pelos outros. Muitos destes ficarão no
>entanto sempre incógnitos porque não eram nem
>dirigentes (nem queriam ser) nem nunca foram figuras
>públicas (intelectuais ou de outros estratos
>privilegiados).
>Não é pois justo falar dos que ficaram na história sem
>referir também estes. O culto da personalidade e a
>necessidade de protagonismo é aliás um assunto que
>deveria ser debatido, sem preconceitos, pelos que
>continuam a reclamar-se da esquerda.
>JG


Percebo a sua observação.

No primeiro parágrafo do meu artigo eu cito de facto uma série de "personalidades", vultos do mundo das artes, da intelectualidade ou da política ligados à história do PCP. Mas logo ali digo que os menciono a título de exemplo (e mesmo aí, só de entre os já falecidos).
Estava muito, muito longe das minhas intenções criar uma espécie de teoria das elites, talhada especificamente à medida do universo comunista português.

É evidente, como todos sabemos, que o PCP é, antes de tudo o mais, o produto da luta de massas, e da resistência anónima popular à ditadura fascista. Essa é que é a sua essência e o seu núcleo vital, que ainda hoje podemos observar ao vivo na festa do Avante, por exemplo. As "personalidades" vêm depois. Umas aderem, outras formam-se mesmo nesse meio e, devido aos seus talentos particulares, algumas deixaram-nos obras de relevo. Nem que seja só por um exemplo de coragem. Poderia ter falado de Catarina Eufémia, p. ex.. Ora, eu usei os nomes de algumas dessas personalidades não para lhes atribuir a elas a criação do comunismo português, mas para dar exemplos de alguns dos seus produtos e expressões mais relevantes.

Agora que reflicto um pouco sobre isso, e para falar com toda a franqueza, houve mesmo talvez um outro motivo subterrâneo para eu ter feito aquele elenco de personalidades. E esse motivo foi, precisamente, que eu quis à minha maneira combater aquele "culto de personalidade" que existe realmente no PCP. Um culto de personalidade que não é menos real por ser oculto, sussurrado, não assumido.

No fundo, eu estava a querer dizer que houve mais, muito mais PCP para além de Álvaro Cunhal, que é aquele que, para imensa gente, ainda hoje é o detentor da imagem "canónica" do partido. A meu ver, a clique de "desperados" que, à sombra da memória de Álvaro Cunhal (com ou sem a aquiescência do próprio), se prepara para afundar partido na irrelevância, está a atraiçoar o esforço, o sacrifício e o trabalho acumulado de muitas gerações, tanto de gente anónima como de gente conseguiu deixar gravado o seu nome para a posteridade. Se eu usei o nome de alguns destes últimos, foi como amostra representativa de todos os outros.

Não é assim muito importante deixar um nome para a posteridade. Como dizia José Martí, toda glória e a riqueza do mundo cabem bem num grão de arroz. O que é importante é, dentro dos limites das capacidades próprias, conduzir a sua vida de uma forma que faça sentido e ilumine caminhos para quem vem a seguir.

A. Novo

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Replies:
Subject Author Date
Sobre Álvaro CunhalÂngelo Novo17/09/04 19:54


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