| Subject: DESENVOLVIMENTO DESIGUAL |
Author:
Luis Blanch
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Date Posted: 31/08/04 9:44
In reply to:
Guilherme Statter
's message, "TROCA DESIGUAL E EVOLUÇÃO SOCIAL - 1" on 25/08/04 14:32
Para Marx e Engels ,como saberemos , a construção do socialismo podia e devia ter lugar nos países desenvolvidos pela acção do proletariado mais numeroso , mais activo e mais instruido.
Ora, por força do principio do desenvolvimento desigual, no quadro da noção da "formação económico-social"( retomada e aprofundada por Lénin )é aflorado muito explicitamente o principio da sobrevivência na estrutura capitalista,das formações e estruturas anteriores.
Lénin percepcionou que os grandes países capitalistas não avançam regularmente, nas mesma fila , ao mesmo nível, com o mesmo passo.No mesmo momento da história da formação económico-social há ,pelo contrário ,países em que o capitalismo estava a nascer e outros onde atingira um grau elevado de desenvolvimento.
E se, à escala mundial ,coexistiam (e coexistem) níneis diferentes de desenvolvimento muito diferentes ,as mesmas diferenças encontram-se também em cada país capitalista ,e frequentemente no mesmo ramo de produção.
Daqui as relações, verdadeiramente prodigiosas, entrelaçadas que Lénin verifica : entre os países capitalistas desenvolvidos - entre os países desenvolvidos e os países menos ou não desenvolvidos- entre os diversos ramos da produção ou sectores produtivos.
Toda a obra de Lénin, com grande actualidade , foi a análise destas desigualdades. Os trabalhos que escreveu sobre a questão agrária revelam ,ao mesmo tempo, a penetração do capitalismo na agricultura, o atraso desta em relação à indústria e as desigualdades de desenvolvimento específicas da agricultura. Com fenómenos novos , que Marx não pudera conhecer, a noção de desenvolvimento desigual adquiriu uma uma profundidade cada vez maior, tornando-se ,de facto , essencial e universal e até ultrapassando em muito o seu tempo , vide a actualidade...Ela estende-se aos países ,às regiões ,às classes ,às indústrias. Tornou-se uma lei ,
a meu vêr ,-a lei das dificuldades do capitalismo ,de crises não suicidárias como se pensou,da desigualdade convulsiva,ziguezagueante aos safanões e com períodos de fluxos de expansão.
A ideia da construção do socialismo num curto espaço de tempo e simultâneamente levou ,graças ao grande pensador russo e soviético, à reconsideração dos princípios revolucionários do marxismo no sentido não de uma Revisão mas de um aprofundamento.
Foi preciso que o imperialismo se desenvolvesse e que rebentasse a guerra mundial para que Lénin se apercebesse da amplitude dos novos fenómenos ,do desenvolvimento das potencias imperiais , para se aperceber da amplitude das desigualdades e dos novos fenómenos do capitalismo moderno e as suas relações , especialmente as da parte mais activa e mais parasitária desse capitalismo,o capital financeiro , com os países menos desenvolvidos,com os outros países capitalistas.
n>Começo por aconselhar (vivamente!...) a leitura do
>texto de José Manuel Correia (ver neste forum em
>"Textos/Documentos").
>Embora se trate de um texto muito denso (até pesado,
>para quem não gosta de "matemáticas", eh eh eh...),
>mas que vale a pena ler e reler.
>Até para melhor se perceber a floresta de enganos em
>que por vezes se convertem muitas discussões sobre
>"marxismo".
>Devo também confessar que não sou muito dado a
>discussões "meta-literárias" sobre o que disse ou
>deixou de dizer Marx e alguns dos seus mais conhecidos
>"discípulos". Digamos que entre ler o Eça de Queiroz e
>ler o que dizem os críticos literários queirosianos,
>não hesito: Prefiro o Eça!!! Ou seja, de Marx retenho
>a teoria do valor e a análise do processo de
>exploração. E depois procuro partir para análise da
>realidade social e económica que encontro à minha
>volta.
>Mas voltando ao texto de José Manuel Correia, confesso
>que fiquei algo desapontado, não por uma qualquer
>falta de qualidade (pelo contrário) mas sim pelas
>expectativas em termos daquilo que me pareceu sugerido
>por um diálogo anterior. Isto, porque fui levado a
>pensar (culpa minha, claro...) que o texto de
>J.M.Correia discutiria também a teoria do valor. E
>porque, naquele “diálogo” (que veio a propósito do
>tema da exploração (lembro!...), J.M.Correia
>argumentou que a teoria da exploração seria um
>equívoco e que Marx estaria enganado na sua Teoria do
>Valor (que explica a dita cuja “exploração”). A certa
>altura diz J.M.Correia explícitamente
>“A teoria marxista da exploração através da
>apropriação do produto excedente criado pela força de
>trabalho não tem consistência. Na concepção marxista,
>que aqui em nada difere da dos economistas... etc”
>Pelo que fui à procura da discussão sobre “exploração”
>e “teoria do valor”.
>Mas não. O texto de J.M.Correia é dedicado (quase que
>exclusivamente) ao clássico tema do equilíbrio entre
>os dois grandes sectores da produção capitalista: a
>produção de bens de consumo e a produção de bens de
>produção. Embora não seja (de todo) uma questão
>bizantina, é certamente um problema derivado (diria
>mesmo “secundário”), em relação ao problema “primário”
>da realização das mais-valias (ou sobreproduto
>colectivo), produzidas mas ainda não convertidas “de
>volta” em capital-dinheiro.
>O problema da minimização dos custos (maximização da
>produtividade) é comum a ambos os sectores e se há
>desequilíbrio (há sempre desequilíbrio... o equilíbrio
>(estático ou dinâmico) é uma útil ficção teórica), se
>há desequilíbrio, (quer dizer se se produz mais do que
>o mercado quer consumir (em bens de produção ou em
>bens de consumo), os proprietários e gestores das
>empresas fazem aquilo que sempre fizeram: saldos...
>“Debitando” os respectivos custos ao novo ciclo de
>produção. Ou abrindo falência e “debitando” os
>respectivos custos à sociedade como um todo...
>Parece que alguns autores “marxistas” procuraram
>explicar “A CRISE” recorrendo à discussão analítica
>das relações entre aqueles dois sectores da produção
>(em vez da discussão daquilo que é comum aos dois
>sectores... estranho, não é?...).
>Um livro de António Mendonça (autor referido por
>J.M.Correia) tem aliás o título de “A Crise Económica
>e a sua Forma Contemporânea” (Editorial Caminho,
>Lisboa 1987). Refiro este autor apenas porque tive
>ocasião de com ele discutir este tema, não porque o
>livro referido seja sobre “exclusivamente” sobre esta
>abordagem (dos dois sectores...). Já agora acrescento
>que Mendonça também afirma, como J.M.Correia, que
>“isto tudo” (em particular a queda tendencial da taxa
>de lucro) é “uma indeterminação”. E que os
>capitalistas já aprenderam a viver com ela. Estando
>nós de acordo quanto a este último ponto.
>Por agora fico-me por aqui. Espero voltar ao tema...
>Cordiais saudações,
>Guilherme Statter
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