Author:
Guilherme Statter
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Date Posted: 25/08/04 14:32
Começo por aconselhar (vivamente!...) a leitura do texto de José Manuel Correia (ver neste forum em "Textos/Documentos").
Embora se trate de um texto muito denso (até pesado, para quem não gosta de "matemáticas", eh eh eh...), mas que vale a pena ler e reler.
Até para melhor se perceber a floresta de enganos em que por vezes se convertem muitas discussões sobre "marxismo".
Devo também confessar que não sou muito dado a discussões "meta-literárias" sobre o que disse ou deixou de dizer Marx e alguns dos seus mais conhecidos "discípulos". Digamos que entre ler o Eça de Queiroz e ler o que dizem os críticos literários queirosianos, não hesito: Prefiro o Eça!!! Ou seja, de Marx retenho a teoria do valor e a análise do processo de exploração. E depois procuro partir para análise da realidade social e económica que encontro à minha volta.
Mas voltando ao texto de José Manuel Correia, confesso que fiquei algo desapontado, não por uma qualquer falta de qualidade (pelo contrário) mas sim pelas expectativas em termos daquilo que me pareceu sugerido por um diálogo anterior. Isto, porque fui levado a pensar (culpa minha, claro...) que o texto de J.M.Correia discutiria também a teoria do valor. E porque, naquele “diálogo” (que veio a propósito do tema da exploração (lembro!...), J.M.Correia argumentou que a teoria da exploração seria um equívoco e que Marx estaria enganado na sua Teoria do Valor (que explica a dita cuja “exploração”). A certa altura diz J.M.Correia explícitamente
“A teoria marxista da exploração através da apropriação do produto excedente criado pela força de trabalho não tem consistência. Na concepção marxista, que aqui em nada difere da dos economistas... etc”
Pelo que fui à procura da discussão sobre “exploração” e “teoria do valor”.
Mas não. O texto de J.M.Correia é dedicado (quase que exclusivamente) ao clássico tema do equilíbrio entre os dois grandes sectores da produção capitalista: a produção de bens de consumo e a produção de bens de produção. Embora não seja (de todo) uma questão bizantina, é certamente um problema derivado (diria mesmo “secundário”), em relação ao problema “primário” da realização das mais-valias (ou sobreproduto colectivo), produzidas mas ainda não convertidas “de volta” em capital-dinheiro.
O problema da minimização dos custos (maximização da produtividade) é comum a ambos os sectores e se há desequilíbrio (há sempre desequilíbrio... o equilíbrio (estático ou dinâmico) é uma útil ficção teórica), se há desequilíbrio, (quer dizer se se produz mais do que o mercado quer consumir (em bens de produção ou em bens de consumo), os proprietários e gestores das empresas fazem aquilo que sempre fizeram: saldos... “Debitando” os respectivos custos ao novo ciclo de produção. Ou abrindo falência e “debitando” os respectivos custos à sociedade como um todo...
Parece que alguns autores “marxistas” procuraram explicar “A CRISE” recorrendo à discussão analítica das relações entre aqueles dois sectores da produção (em vez da discussão daquilo que é comum aos dois sectores... estranho, não é?...).
Um livro de António Mendonça (autor referido por J.M.Correia) tem aliás o título de “A Crise Económica e a sua Forma Contemporânea” (Editorial Caminho, Lisboa 1987). Refiro este autor apenas porque tive ocasião de com ele discutir este tema, não porque o livro referido seja sobre “exclusivamente” sobre esta abordagem (dos dois sectores...). Já agora acrescento que Mendonça também afirma, como J.M.Correia, que “isto tudo” (em particular a queda tendencial da taxa de lucro) é “uma indeterminação”. E que os capitalistas já aprenderam a viver com ela. Estando nós de acordo quanto a este último ponto.
Por agora fico-me por aqui. Espero voltar ao tema...
Cordiais saudações,
Guilherme Statter
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