Author:
Jorge Nascimento Fernandes
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Date Posted: 19/08/04 0:28
In reply to:
João Manuel
's message, "O que é a Renovação Comunista" on 3/08/04 9:58
O que é a RC e o leninismo II
Porque no "post", como eu gosto desta linguagem informática, veio à baila o leninismo, gostaria também de dar a minha contribuição. Mas, antes de mais, queria responder a alguém que perguntava se a RC era pela revolução armada.
Não repondo pela RC, mas por mim. Diria que se no processo de transformação social e de revolução isso for necessário, porque não. Simplesmente hoje, nas condições das sociedades ocidentais, ou melhor, nas sociedades de capitalismo desenvolvido, tem muito pouco sentido falar-se em revolução armada. Seria preciso que as condições actuais se alterassem extraordinariamente para que isso viesse a suceder. No entanto, na Colômbia onde um movimento revolucionário luta de armas na mão, a revolução armada parece fazer todo o sentido. Não seria a RC que iria criticar os revolucionários colombianos, que arriscam diariamente as suas vidas para dar corpo aquilo que consideram ser justo para o seu país.
Voltemos no entanto ao leninismo.
Na definição clássica que Staline deu do leninismo, este seria o marxismo da época do imperialismo. Quanto a mim isto não diz nada, nem enriquece a obra de Lenine. Por esse motivo, e fugindo a esta definição, eu diria que o mais importante no leninismo é a análise concreta, dum país concreto: a Rússia no final do império czarista, e a capacidade de actuar nessa situação.
Sei que isto não satisfaz ninguém, mas eu penso que o maior legado de Lenine foi essa percepção da realidade, aplicando com extraordinária audácia o marxismo e sendo capaz de nestas circunstâncias empreender a transformação revolucionária do seu país.
Mas vejamos em particular cada um dos pontos que Paulo Fidalgo levanta na metodologia que propõe sobre "Lenine no Século XXI":
1 - a reposição do marxismo face à escolástica e adulteração da IIª Internacional, algo que mostra que a renovação é o caminho e que urge hoje como ontem repor o carácter radical do marxismo no centro das análises e da acção, face à cristalização dos partidos comunistas oficiais...
Penso que é um bocado arriscado a RC apresentar-se hoje como o bolchevismo e posteriormente a Internacional Comunista se apresentavam em relação ao movimento social-democrata prefigurado na II Internacional. No entanto, sem comparações abusivas, penso que a riqueza hoje de um movimento de renovação comunista é de fazer a análise da sociedade portuguesa actual e da sua inserção na Europa comunitária e ser capaz de, utilizando o marxismo e com o objectivo de alcançar uma sociedade socialista, empreender a sua transformação social.
2 - a questão superior do Estado e a Revolução.
Sobre o Estado e a Revolução" hoje, e sem perder de vista alguma da sua riqueza teórica em termos de a quem serve o Estado, temos que elaborar mais profundamente o conceito de democracia e não como o defende Lenine que ela será desnecessária com o desaparecimento do Estado.
A redução do Estado ao domínio de uma classe por outra e a pouca importância dada à democracia estão provavelmente na origem das ditaduras dos Partidos Comunistas. Lamento, mas penso que hoje o Estado e a Revolução têm que ser vistos à luz do que foi a experiência passada das sociedades socialistas e do que foi a contribuição da luta política dos Partidos Comunistas nas democracias ocidentais. Não esqueçamos que por força das circunstâncias o PCP teve que abandonar o termo ditadura do proletariado, mas não o conceito, como garantiu sempre a manutenção do sistema multipartidário e das mais amplas liberdades. São adquiridos que se devem manter.
3 - a questão da NEP, isto é, do uso do mercado e do próprio capitalismo num dado modelo de transição.
Sei que a NEP foi importante. No entanto, penso que Lenine não teorizou o suficiente sobre ela, pois já a apanhou no final da sua vida e num estado de debilidade física muito grande. Por outro lado, esta experiência, com todas as virtudes que pode ter, correspondeu a uma situação muito particular dos campos russos no final da Guerra Civil na nascente União Soviética.
4 - a questão do programa anti-imperialista respeitante a muitas áreas do planeta.
Penso que esta é de facto uma das grandes originalidades de Lenine, em relação a Marx e a muitos dos homens da II Internacional. No entanto, o mundo evolui hoje muito. A independência da maioria dos países submetidos ao jugo colonial modificou os dados do problema. A globalização e a ascensão de novos países ao capitalismo mundial vieram igualmente alterar a situação. No entanto, como não sou um especialista na matéria, deixo para o Statter este problema.
5 - a questão nacional e os mecanismos de integração supranacionais - o exemplo da URSS é uma importante referência.
Aplica-se aqui um pouco que foi referido para a questão anterior. É igualmente uma das originalidades do leninismo, mas Staline é que era o especialista nas questões nacionais, até porque inicialmente foi o Comissário do Povo para as nacionalidades.
Penso que sendo importante, não é aqui que está a centralidade do leninismo.
6 - a questão crucial da acção política dedicada, acima dos expontaneismo sindical economista
Podemos dizer que esta é a questão central, juntamente com o Estado e a Revolução, do leninismo. É o Partido como órgão de acção da classe operária e o modo como ele está organizado.
Lamento, mas penso que hoje, como já de certo modo no seu tempo (vejam-se as críticas de Rosa Luxemburgo), é o que está mais envelhecido no leninismo. Hoje o modo de organização partidária, os revolucionários a tempo inteiro (veja-se no que deu os funcionários políticos do PCP), tem que ser repensado à luz da prática política em democracia multipartidária.
Concluindo, parece-me que o mais perene em Lenine é a sua correcta abordagem da realidade, é a sua capacidade de utilizar a dialéctica marxista como prática e guia para a acção. É a sua capacidade de formular conceitos em política como Marx nunca tinha feito. Por isso, ao sermos comunistas não podemos ignorar a contribuição de Lenine, mas não o podemos endeusar, ficando preso à totalidade dos seus conceitos.
Este assunto, aqui abordado pela rama, merece uma maior discussão e aprofundamento e, acima de tudo, muito estudo e reler as obras principais de Lenine.
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