| Subject: Re: Um bom partido trabalhista I |
Author:
António Fagundes
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Date Posted: 20/08/04 17:57
In reply to:
Jorge Nascimento Fernandes
's message, "Re: Um bom partido trabalhista I" on 20/08/04 10:36
Fernandes.
Não fiz quaisquer juízos tão definitivos. Aflorei apenas a resistência que os fiéis, em geral, e os marxistas e marxistas-leninistas, em particular, opõem à discussão dos seus dogmas, em meu entender natural, porquanto consideram o debate pura perda de tempo, visto julgarem nada mais terem a aprender.
Tal como para os crentes de outras confissões, para quem depois das escrituras ou dos seus livros sagrados está tudo dito, porque o provir foi já profetizado, também assim para os marxistas e os marxistas-leninistas, para quem depois das obras de Marx e de Lenine nada mais há a dizer, restando, quanto muito, encontrar na realidade analogias plausíveis com a realidade que aqueles no seu tempo analisaram, porque o futuro, esse, está mais do que previsto (ainda por cima de saber certo de ciência feito).
Se uso, para caracterizar a crença no comunismo marxista ou marxista-leninista, a analogia com as crenças religiosas é pela similitude que existe entre elas, e não por qualquer outra razão. Apesar daquela pertencer ao domínio do profano e estas ao domínio do sagrado, ambas baseiam-se na fé e não são produto da razão. Com a agravante de os comunistas ridicularizarem a fé no sagrado (hoje já não tanto), e os que deles são ateus combaterem as religiões, sem se aperceberem que a sua própria fé enferma dos mesmos males. Iludem-se, julgando sobranceiramente ser detentores de uma hipotética supremacia, a qual lhes adviria de auto-atribuírem aos seus dogmas a caução da ciência, sem compreenderem que até o conhecimento produzido pela ciência, quando não errado, é restrito, limitado, incerto (e, como tal, refutável), apenas eficaz porque útil e habitualmente de validade meramente sufragada.
E se designo a revolução proletária e o comunismo por axioma profético, é porque eles são de facto assim entendidos; doutro modo, não seriam admitidos como futuro certo. Porque se há coisa que os comunistas se recusam a discutir é este seu dogma fundamental, não o colocando sequer como hipótese, entre outras, ou tão pouco como possibilidade; quanto muito, admitem que a vitória não é certa em qualquer época, nem garantida para todo o sempre, mas estes são os estreitos limites da dúvida admissível.
Por minha parte, estou disponível para discutir as verdades fundamentais do comunismo e a crítica marxista da economia política (capitalista, acrescento eu, dado que o capitalismo não será certamente o fim da história e da economia política). E, para que a discussão se não quede pela opinião infundamentada ou pela axiomática indemonstrada, aceito fazê-lo tendo por quadro de referência os instrumentos basilares do marxismo: o método crítico, a dialéctica materialista, a análise materialista da história e o rigor conceptual e dedutivo, afinal, as grandes contribuições de Marx para a análise da realidade social.
Se para tal tiver interesse e disponibilidade, sugira os temas.
António Fagundes.
>Caro António Fagundes
>
>Penso que levou muito a sério a minha afirmação sobre
>os referenciais não serem comuns, relativamente à
>possibilidade de se travar aqui um diálogo que
>envolvesse marxistas e não marxistas. Simplesmente,
>como já sou um residente muito antigo neste fórum
>penso que todos os outros o são. Assim, esta minha
>referência ao diálogo e à sua dificuldade reportava-se
>a um texto meu denominado pomposamente “Da
>possibilidade de diálogo” e que era uma reflexão
>histórico-filosófica sobre o assunto, de resposta a um
>pedido de diálogo aqui esboçado por um dos
>intervenientes. Este meu texto encontra-se no arquivo
>1 desta mesma série.
>De facto, vir falar da impossibilidade de diálogo com
>alguém com quem iniciámos um e tendo ainda por cima
>pontos de vista diferentes, mata desde logo a sua
>concretização. Por isso penitencio-me por ter vindo
>recordar aquela minha intervenção fora do contexto.
>Já se sabe que o Fagundes resolveu levar esta minha
>referência à dificuldade de diálogo como eu não querer
>abdicar da minha “fé” e portanto ser impossível
>discutir qualquer assunto relacionado com o marxismo.
>Está enganado, e estou sempre disposto a fazê-lo,
>porque, se percebeu as minhas intervenções, elas
>pretendem ser o mais anti-dogmáticas possíveis,
>tentando no entanto não fugir ao rigor conceptual e
>interpretativo, pelo menos assim estou convencido.
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