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Subject: A Dificuldade em aceitar a Realidade


Author:
Luis Blanch
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Date Posted: 25/08/04 12:28
In reply to: paulo fidalgo 's message, "exequibilidade do comunismo" on 25/08/04 0:45

Já se chegou à fase de "chover no molhado".
A realidade mostra-nos que as contradições na China actual são mais que muitas. Mas ainda que o processo histórico não seja linear há factos objectivas que desmentem essas crenças de que a China caminha para a consolidação do socialismo em direcção ao comunismo.
O que parece existir é uma nomenklatura "vermelha" que está a gostar, e de que maneira, de conservar a fachada socialista para se eternizar no Poder.
"É simples é Barato e dá-lhes milhões..."parafraseando o slogan do hipermercado.





>é óbvio que o Correia já não é um homem de fé e que
>não acredita no utopismo idealista da transformação
>voluntarista. Voluntarista porque não tem em conta o
>realismo mas apenas por se ser fiel ao profeta que
>terá decretado que ao capitalismo sucederia o
>comunismo.
>
>Talvez por ter navegado nos terrenos da fé comunista é
>que a perdeu. Eu não nego aspectos de fé e de
>religiosidade na acção comunista colectiva. O problema
>é ficar-se muito por esse terreno intuitivo e afectivo
>a que se chama fé. Depois ela perde-se por que com
>facilidade outras fés podem tomar o lugar.
>
>Em qualquer caso o Correia, ao utopismo comunista,
>"idealista" e voluntarista, opõe quem sabe se o
>"materialismo" realista do conceito de que a
>humanidade chegou ao fim da história.
>
>De qualquer forma, o ponto é que esta intervenção
>arregimenta o argumento bastante comum, de resto, de :
>"o comunismo é muito bonito mas não funciona".
>
>E vai daí arremete contra todas as experiências e
>"tergiversasões" porque foram ou saltos sem rede ou
>recuos e paragens para atenuar estragos de
>experiências desajustadas.Para Correia discutir
>modelos e tácticas de transição não faz coerentemente
>sentido porque ninguém se põe a transitar para uma
>coisa errada.
>
>E determina que nada permite comparar a China segundo
>a orientação de Deng, com a NEP de Lenine, nem o
>período especial de Cuba de Fidel de Castro com a dita
>NEP. E porque é que não se pode compará-las? Porquê?
>Porque a NEP foi tão-só um recuo táctico - para a
>progressão para o socialismo para dar tempo a fazer as
>pazes com os camponeses - enquanto que a opção de Deng
>é um recuo estratégico - isto é, seria um abandono do
>desígnio comunista e a deliberada opção pelo
>capitalismo.
>
>Mesmo que Correia tenha razão e toda a retórica do
>discurso de Deng e do actual comité central do PCCh
>seja uma completa mistificação, isso não altera aquilo
>que eu afirmei; são processos em que convivem modos
>estatais e até socialistas com capitalistas, mais
>mercado como expediente distribuidor em vez do todo
>poderoso omnipresente plano, concessões a privados e
>estímulo ao investimento estranjeiro. Se num caso
>parecia mais claro que se estava ainda numa lógica de
>ganhar balanço para o socialismo e no outro, a
>despeito do discurso, o que se estará é a tratar da
>vidinha para a ganhuça capitalista, isso não altera de
>modo algum o problema. Isto é, ambas as situações
>percorrem parâmetros sobreponíveis na essência, ainda
>que em grau porventura muito diferente. E, se nos
>ativermos ao seu início e justificação, que não ao seu
>desenrolar, as semelhanças ainda são maiores.
>
>De qualquer forma, o que me interessa nesta discussão
>é confrontar a táctica comunista com o seguinte: a
>transição pode prescindir de formas e de métodos NEP?
>Não pode a meu ver! Entrar em compromissos com forças
>da pequena-burguesia e alianças sociais que incluam
>mercado, atracção do investimento estranjeiro, nem
>pensar, parece dizer o Correia, porque tem demasiados
>riscos, senão olhem para a China. Eu acho que o estudo
>do método e programa para essa alianças é central.
>
>Se para o Correia estes pontos de vista são intuitivos
>pois que até a questão primordial de querer mudar o
>mundo está fora de causa, quanto mais andar a arranjar
>caminhos para lá chegar, para os comunistas que ainda
>têm "fé" esta questão do lugar da NEP é absolutamente
>fulcral pois de uma resposta adequada ao seu lugar e
>papel depende a viabilidade do projecto. E possa crer
>que o assunto vai cada vez estar mais na ordem do dia
>comunista, incluindo em Portugal.
>
>Aliás, se for ler por exemplo a moção ao Congresso do
>PS pelo Manuel Alegre, verá que estão lá bastos pontos
>a carecer de profundas relflexões e de
>contra-propostas cuja adequação depende exactamente da
>ponderação em torno das múltiplas NEPs que andam por
>aí.
>
>Isto é, para se formar um governo de coligação, os
>comunistas precisariam de ter boas ideias sobre os
>temas que hoje são orientação dos seguidores de Deng e
>dos que ontem morreram por defender a NEP - Bukharine
>e Preobrajensky.
>
>Vários intervenientes ajuizaram que a minha
>argumentação defendia a actual orientação chinesa.
>Isso é uma ideia errada.
>
>O que eu defendo é a consideração sem perconceitos das
>possibilidades de usar soluções "a la NEP". Reconheci
>já em vários momentos os riscos que isso comporta, os
>quais de resto não se comparam desfavoravelmente com
>os riscos contrários - os de tentar prosseguir a todo
>o custo o "comunismo de guerra". Reafirmo que o grau,
>a profundidade do recurso ao capitalismo na China me
>deixa profundamente descrente da orientação do PCCh,
>para além de desconfiado sobre a sinceridade do seu
>discurso. Isso não altera o facto de que na sua origem
>e pressupostos, a política de abertura chinesa é uma
>NEP remodelada à maneira chinesa.
>
>Como todos os lançamentos, é vulgar que a vida de um
>projecto escape completamente ao que os seus autores
>pensavam. Quando os dirigentes dizem que optam por
>NEPS têm sempre mais ou menos dito que são opções de
>recurso. Por acaso, nas posições de Deng este aspecto,
>o do discurso do recurso ou recuo, não me lembro de
>estar assim presente. Ele tem uma atitude muito mais
>positiva acerca do caminho que estava a traçar.
>
>Lembro-me de uma interessante e longa entrevista de
>Fidel à TIME, acerca do período especial a que Cuba
>recorreu aquando da derrocada de 89 da URSS. Foi para
>aí em 90. Fidel dizia mais ou menos isto: os dollars,
>o estímulo ao turismo, ao capital estrangeiro, a
>autorização para negócios privados são coisas
>absolutamente necessários para Cuba enfrentar a
>situação da queda da URSS. E acrescentava - não
>gostamos destas medidas, mas temos de as tomar! E
>esperamos que logo que a situação se equilibre, se
>volte à orientação de acordo com a revolução cubana.
>Não terá sido por estas palavras, mas foi este o
>sentido de Fidel.
>
>Na altura, já eu estava muito interessado sobre a
>questão mercantil na transição, e dei por mim a
>pensar: ainda o Fidel vai ter que reconhecer que
>aquilo que não gosta é algo que não só não será assim
>tão transitório, e que poderá afinal servir para Cuba
>alcançar condições melhores no futuro para o
>socialismo. Isto porque, o desenvolvimento é, de
>acordo com uma velha ideia de Marx, a melhor das
>condições para se transitar para o socialismo. Assim,
>em vez de Fidel andar a dizer que não gosta do dollar,
>o que devia era estudar, sem perconceitos, e muito
>menos sem referências de catecismo (eu por acso acho
>que o Fidel não é de catecismo e tem excelente
>ginástica para responder com acerto), para estudar
>dizia o quão o dollar pode interessar a uma política
>de transição para o socialismo.
>
>Passados não sei quantos anos, o período especial de
>Cuba lá continua e eterniza-se e, por outro lado, o
>papel do dollar aumenta e não diminui na economia
>cubana. Portanto, as promessas acerca do carácter
>transitório da NEP cubana esfumam-se. E muito bem
>porque a realidade sobrepõem-se à mais bela das
>intenções e construções. Ooque me preocupa é que a
>teoria para este período especial esteja tão
>estagnada. É perigoso não acompnhar medidas práticas
>de uma profunda reflexão teórica. Isso pode fazer as
>coisas deslizar para um pragamatismo sem coluna
>vertebral e para o oportunismo.
>
>Mas apesar desta evolução de Cuba há uma coisa que o
>Correia tem de admitir, apesar de já não ser
>comunista: alguma especial há em Cuba que se aguenta e
>apresenta até alguns parãmetros de sucesso na sua
>sociedade, por comparação com toda a américa latina. O
>que é interessante é que aquilo a que podemos chamar
>de NEP cubana tem permitido a Cuba ir resolvendo
>alguns problemas. E não é para já evidente que eles
>estejam à beira da (ainda digo suposta) grande
>"traição" chinesa. Por isso, a NEP pode servir para
>chegar ao capitalismo, mas também pode dar para o seu
>contrário. Compete aos que querem transformar o mundo
>encontrar a medida e o lugar adequado da NEP.
>
>Correia diz que é descabido comparar o "período
>especial" de Cuba com opção do tipo NEP porque o
>comunismo cubano é atrasado. É um argumento que
>carece, pelo menos para mim, de mais explicação. Não
>entendo como é que o atraso se opõe a escolhas do tipo
>NEP. Se o atraso é mental, nas ideias, então como
>explicar as medidas que tomaram? Foi adiantamento
>mental?
>
>O Correia diz que a direcção chinesa se aliou à
>burguesia nacional para lançar a "política de
>abertura". Que eu saiba, quando Deng sobe ao poder,
>não havia já burguesia, e menos ainda nacional. Os
>únicos sítios seriam em Taiwan e Hong Kong. Se a frase
>fosse "resolveram criar uma burguesia nacional" ainda
>poderia concordar, mas fazer com uma burguesia
>pré-existente, parece-me inverosímil. Depois do bando
>dos quatro, não estou ver como andava esse grupo
>social a que se chama burguesia.
>
>Finalmente, Correia diz que os comunistas que andam,
>erradamente, à proocura de transições, estão a querer
>ir por um caminho mais gradual, etc, E alteram por
>isso a linha de tomada do poder em vigor no passado.
>Há portanto aqui a noção de que alguns comunistas pelo
>menos, andam a ensaiar uma espécie de reformismo
>quando a via insurrecional terá deixado de ser viável.
>Quero precisar, por que o assunto é muito sensível
>para comunistas vacinados contra o revisionismo -
>Bernestein teorizou sobre o abandono da revolução a
>favor da ideia que o desenvolvimento do capitalismo
>levaria "natural e gradualmente ao socialismo" sem
>necessidades de revolução - quero precisar que uma
>revolução tanto respeita à esfera do poder como à
>tranformação do modo de produção..Por outro lado, uma
>revolução tanto pode levar a uma mudança de poder,
>como uma mudança de poder, obtida por exemplo por via
>eleitoral, pode dar origem a uma revolução. O caso de
>Salvador Allende por exemplo. Por isso, a discussão
>que aqui estamos a travar não deve ser confundida com
>a outra questão que parece Correia levantar que é a da
>via reformista versus a revolucionária

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Replies:
Subject Author Date
Re: exequibilidade do comunismo e FátimaLuis Blanch25/08/04 16:55


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