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Subject: exequibilidade do comunismo


Author:
paulo fidalgo
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Date Posted: 25/08/04 0:45
In reply to: José Manuel Correia 's message, "Re: Discussão sobre a China (tirado do tema "O que é a Renovação Comunista"" on 24/08/04 19:15

é óbvio que o Correia já não é um homem de fé e que não acredita no utopismo idealista da transformação voluntarista. Voluntarista porque não tem em conta o realismo mas apenas por se ser fiel ao profeta que terá decretado que ao capitalismo sucederia o comunismo.

Talvez por ter navegado nos terrenos da fé comunista é que a perdeu. Eu não nego aspectos de fé e de religiosidade na acção comunista colectiva. O problema é ficar-se muito por esse terreno intuitivo e afectivo a que se chama fé. Depois ela perde-se por que com facilidade outras fés podem tomar o lugar.

Em qualquer caso o Correia, ao utopismo comunista, "idealista" e voluntarista, opõe quem sabe se o "materialismo" realista do conceito de que a humanidade chegou ao fim da história.

De qualquer forma, o ponto é que esta intervenção arregimenta o argumento bastante comum, de resto, de : "o comunismo é muito bonito mas não funciona".

E vai daí arremete contra todas as experiências e "tergiversasões" porque foram ou saltos sem rede ou recuos e paragens para atenuar estragos de experiências desajustadas.Para Correia discutir modelos e tácticas de transição não faz coerentemente sentido porque ninguém se põe a transitar para uma coisa errada.

E determina que nada permite comparar a China segundo a orientação de Deng, com a NEP de Lenine, nem o período especial de Cuba de Fidel de Castro com a dita NEP. E porque é que não se pode compará-las? Porquê? Porque a NEP foi tão-só um recuo táctico - para a progressão para o socialismo para dar tempo a fazer as pazes com os camponeses - enquanto que a opção de Deng é um recuo estratégico - isto é, seria um abandono do desígnio comunista e a deliberada opção pelo capitalismo.

Mesmo que Correia tenha razão e toda a retórica do discurso de Deng e do actual comité central do PCCh seja uma completa mistificação, isso não altera aquilo que eu afirmei; são processos em que convivem modos estatais e até socialistas com capitalistas, mais mercado como expediente distribuidor em vez do todo poderoso omnipresente plano, concessões a privados e estímulo ao investimento estranjeiro. Se num caso parecia mais claro que se estava ainda numa lógica de ganhar balanço para o socialismo e no outro, a despeito do discurso, o que se estará é a tratar da vidinha para a ganhuça capitalista, isso não altera de modo algum o problema. Isto é, ambas as situações percorrem parâmetros sobreponíveis na essência, ainda que em grau porventura muito diferente. E, se nos ativermos ao seu início e justificação, que não ao seu desenrolar, as semelhanças ainda são maiores.

De qualquer forma, o que me interessa nesta discussão é confrontar a táctica comunista com o seguinte: a transição pode prescindir de formas e de métodos NEP? Não pode a meu ver! Entrar em compromissos com forças da pequena-burguesia e alianças sociais que incluam mercado, atracção do investimento estranjeiro, nem pensar, parece dizer o Correia, porque tem demasiados riscos, senão olhem para a China. Eu acho que o estudo do método e programa para essa alianças é central.

Se para o Correia estes pontos de vista são intuitivos pois que até a questão primordial de querer mudar o mundo está fora de causa, quanto mais andar a arranjar caminhos para lá chegar, para os comunistas que ainda têm "fé" esta questão do lugar da NEP é absolutamente fulcral pois de uma resposta adequada ao seu lugar e papel depende a viabilidade do projecto. E possa crer que o assunto vai cada vez estar mais na ordem do dia comunista, incluindo em Portugal.

Aliás, se for ler por exemplo a moção ao Congresso do PS pelo Manuel Alegre, verá que estão lá bastos pontos a carecer de profundas relflexões e de contra-propostas cuja adequação depende exactamente da ponderação em torno das múltiplas NEPs que andam por aí.

Isto é, para se formar um governo de coligação, os comunistas precisariam de ter boas ideias sobre os temas que hoje são orientação dos seguidores de Deng e dos que ontem morreram por defender a NEP - Bukharine e Preobrajensky.

Vários intervenientes ajuizaram que a minha argumentação defendia a actual orientação chinesa. Isso é uma ideia errada.

O que eu defendo é a consideração sem perconceitos das possibilidades de usar soluções "a la NEP". Reconheci já em vários momentos os riscos que isso comporta, os quais de resto não se comparam desfavoravelmente com os riscos contrários - os de tentar prosseguir a todo o custo o "comunismo de guerra". Reafirmo que o grau, a profundidade do recurso ao capitalismo na China me deixa profundamente descrente da orientação do PCCh, para além de desconfiado sobre a sinceridade do seu discurso. Isso não altera o facto de que na sua origem e pressupostos, a política de abertura chinesa é uma NEP remodelada à maneira chinesa.

Como todos os lançamentos, é vulgar que a vida de um projecto escape completamente ao que os seus autores pensavam. Quando os dirigentes dizem que optam por NEPS têm sempre mais ou menos dito que são opções de recurso. Por acaso, nas posições de Deng este aspecto, o do discurso do recurso ou recuo, não me lembro de estar assim presente. Ele tem uma atitude muito mais positiva acerca do caminho que estava a traçar.

Lembro-me de uma interessante e longa entrevista de Fidel à TIME, acerca do período especial a que Cuba recorreu aquando da derrocada de 89 da URSS. Foi para aí em 90. Fidel dizia mais ou menos isto: os dollars, o estímulo ao turismo, ao capital estrangeiro, a autorização para negócios privados são coisas absolutamente necessários para Cuba enfrentar a situação da queda da URSS. E acrescentava - não gostamos destas medidas, mas temos de as tomar! E esperamos que logo que a situação se equilibre, se volte à orientação de acordo com a revolução cubana. Não terá sido por estas palavras, mas foi este o sentido de Fidel.

Na altura, já eu estava muito interessado sobre a questão mercantil na transição, e dei por mim a pensar: ainda o Fidel vai ter que reconhecer que aquilo que não gosta é algo que não só não será assim tão transitório, e que poderá afinal servir para Cuba alcançar condições melhores no futuro para o socialismo. Isto porque, o desenvolvimento é, de acordo com uma velha ideia de Marx, a melhor das condições para se transitar para o socialismo. Assim, em vez de Fidel andar a dizer que não gosta do dollar, o que devia era estudar, sem perconceitos, e muito menos sem referências de catecismo (eu por acso acho que o Fidel não é de catecismo e tem excelente ginástica para responder com acerto), para estudar dizia o quão o dollar pode interessar a uma política de transição para o socialismo.

Passados não sei quantos anos, o período especial de Cuba lá continua e eterniza-se e, por outro lado, o papel do dollar aumenta e não diminui na economia cubana. Portanto, as promessas acerca do carácter transitório da NEP cubana esfumam-se. E muito bem porque a realidade sobrepõem-se à mais bela das intenções e construções. Ooque me preocupa é que a teoria para este período especial esteja tão estagnada. É perigoso não acompnhar medidas práticas de uma profunda reflexão teórica. Isso pode fazer as coisas deslizar para um pragamatismo sem coluna vertebral e para o oportunismo.

Mas apesar desta evolução de Cuba há uma coisa que o Correia tem de admitir, apesar de já não ser comunista: alguma especial há em Cuba que se aguenta e apresenta até alguns parãmetros de sucesso na sua sociedade, por comparação com toda a américa latina. O que é interessante é que aquilo a que podemos chamar de NEP cubana tem permitido a Cuba ir resolvendo alguns problemas. E não é para já evidente que eles estejam à beira da (ainda digo suposta) grande "traição" chinesa. Por isso, a NEP pode servir para chegar ao capitalismo, mas também pode dar para o seu contrário. Compete aos que querem transformar o mundo encontrar a medida e o lugar adequado da NEP.

Correia diz que é descabido comparar o "período especial" de Cuba com opção do tipo NEP porque o comunismo cubano é atrasado. É um argumento que carece, pelo menos para mim, de mais explicação. Não entendo como é que o atraso se opõe a escolhas do tipo NEP. Se o atraso é mental, nas ideias, então como explicar as medidas que tomaram? Foi adiantamento mental?

O Correia diz que a direcção chinesa se aliou à burguesia nacional para lançar a "política de abertura". Que eu saiba, quando Deng sobe ao poder, não havia já burguesia, e menos ainda nacional. Os únicos sítios seriam em Taiwan e Hong Kong. Se a frase fosse "resolveram criar uma burguesia nacional" ainda poderia concordar, mas fazer com uma burguesia pré-existente, parece-me inverosímil. Depois do bando dos quatro, não estou ver como andava esse grupo social a que se chama burguesia.

Finalmente, Correia diz que os comunistas que andam, erradamente, à proocura de transições, estão a querer ir por um caminho mais gradual, etc, E alteram por isso a linha de tomada do poder em vigor no passado. Há portanto aqui a noção de que alguns comunistas pelo menos, andam a ensaiar uma espécie de reformismo quando a via insurrecional terá deixado de ser viável. Quero precisar, por que o assunto é muito sensível para comunistas vacinados contra o revisionismo - Bernestein teorizou sobre o abandono da revolução a favor da ideia que o desenvolvimento do capitalismo levaria "natural e gradualmente ao socialismo" sem necessidades de revolução - quero precisar que uma revolução tanto respeita à esfera do poder como à tranformação do modo de produção..Por outro lado, uma revolução tanto pode levar a uma mudança de poder, como uma mudança de poder, obtida por exemplo por via eleitoral, pode dar origem a uma revolução. O caso de Salvador Allende por exemplo. Por isso, a discussão que aqui estamos a travar não deve ser confundida com a outra questão que parece Correia levantar que é a da via reformista versus a revolucionária

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A Dificuldade em aceitar a RealidadeLuis Blanch25/08/04 12:28
Re: exequibilidade do comunismo e FátimaLuis Blanch25/08/04 16:55
Re: exequibilidade do comunismoJosé Manuel Correia25/08/04 19:54


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