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Subject: Re: exequibilidade do Progresso Social


Author:
Luis Blanch
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Date Posted: 26/08/04 11:46
In reply to: José Manuel Correia 's message, "Re: exequibilidade do comunismo" on 25/08/04 19:54

José Manuel Correia, Eu não creio que você alguma vez tenha tido a "fé" no caminhar inelutável para uma sociedade comunista.
Isso para mim já é um bom princípio para se poderem aflorar e até aprofundar certos temas.
De facto a prática tem-se encarregado de repôr umas certas verdades e desfazer conceitos que o próprio Marx , mas sobretudo Lénin, já haviam referido:

o determinismo ,o economicismo, o idealismo, que leva a confundir os nossos desejos com a avaliação da própria realidade concreta e que resvala para posições voluntaristas ,o que provoca resultados politicamente desastrosos.

Os comunistas , os que legitimamente cimentaram a sua opção politica na base do materialismo dialéctico ,não podem deixar de repudiar todos aqueles que alimentam o marxismo com pressupostos de carácter religioso e dogmático.

A compreensão da realidade histórica deve introduzir uma visão não simplista das relações sociais , onde as conexões causais possuam um carácter multiforme, não sendo redutíveis a um único tipo como o materialismo metafísico (por exemplo, o determinismo de Laplace, que atribuia um valor absoluto à causalidade mecânica .)

O materialismo dialéctico defende a tese de que a causalidade possui um carácter objectivo e universal, considera de facto os nexos causais como nexos das proprias coisas, nexos que existem fora da consciência e independentemente dela.
No entanto a observação e análise leva-nos a considerar a não linearidade do processo histórico,onde o homem não é um agente passivo mas ,pelo contrário , inter-age com a sociedade podendo travar ou acelerar a sua dinâmica.

Neste aspecto é central levar em linha de conta os enriquecimentos de Lénin ,relevando o papel de liderança que determinadas figuras poderão desempenhar e desempenharam no quadro de uma interpretação correcta do momento /os) histórico.
Sendo o movimento histórico cheio de sinuosidaes e de avanços e recuos é natural encarar os recuos , os refluxos, como normais.
Mas a história ensina-nos que o homem agindo sobre a vida tem obtido avanços significativos em todos os domínios. Não o executando arbitráriamente ,embora , é possível admitir que o movimento histórico suba para patamares insuspeitados de progresso...








>
>Vamos lá a ver se conseguimos coversar com alguma
>seriedade! Não é necessária cordialidade por aí além,
>dado que você é comunista e eu não sou (embora não me
>mova qualquer espécie de animosidade em relação aos
>comunistas); basta um mínimo de atenção à
>argumentação, à de quem se replica e à nossa, para que
>a discussão possa continuar e todos aprendamos alguma
>coisa, por pouco que seja.
>
>Disse já ter também navegado pela crença no comunismo,
>facto que não renego e de que não me arrependo,
>porque, pura e simplesmente, faz parte da minha vida e
>muito contribuiu para a minha formação (política e
>pessoal); as nossas vidas, são também História, e como
>ela também não podem ser reescritas. Foi
>inclusivamente uma reflexão mais profunda e crítica do
>marxismo que me conduziu ao abandono do projecto
>comunista e da crença pela fé. Pelo facto de há uns
>anos vir a criticar muito da obra de Marx não tenho
>por ela menos apreço: situo-a no devido contexto,
>dou-lhe a merecida importância e aprendo com os erros
>de Marx; tomara que muitos dos que se intitulam
>marxistas lhe rendessem, pelo menos, a homenagem que
>eu lhe rendo.
>
>Ter abandonado o projecto utópico, profético,
>idealista e voluntarista do comunismo não faz de mim
>crente pela fé no que quer que seja; tento ir usando a
>crença pela razão no "materialismo realista", como
>você lhe chama, sabendo das limitações e das
>incertezas a que tal me conduz. Porque não sou
>futurólogo ou profeta, não posso prever se a sociedade
>dividida em classes tem ainda muito ou pouco tempo à
>sua frente e múltiplas formas de se manifestar; mas
>não creio que o capitalismo seja o fim da História. Os
>comunistas é que têm uma visão determinista e
>finalista da História: depois do capitalismo, o
>comunismo; depois dele, sem classes e sem lutas entre
>elas, adeus História!
>
>Você parece uma pessoa inteligente, pelo que as
>confusões conceptuais que faz em relação à
>caracterização do projecto comunista dever-se-ão
>talvez a desatenção. Resumo e desfaço algumas dessas
>confusões. O projecto comunista é profético, por ter
>como base uma profecia, uma verdade axiomática que não
>necessita de demonstração; é idealista, porque se
>baseia no desejo e não na realidade; é voluntarista,
>porque entende que para além do desejo é necessária a
>vontade para concretizá-lo. Se conhecesse
>suficientemente o Marx veria que a sua asserção de que
>o modo como os homens organizam e regulam a produção
>das condições materiais de existência não pendente da
>sua vontade é ainda hoje de grande pertinência.
>
>Para mim, mudar o Mundo não está fora de causa. O
>Mundo está em permanente mudança, e o seu rumo não
>depende das nossas vontades individuais e de grupo
>(por mais extensos que os grupos sejam). São os
>resultados das múltiplas lutas de interesses em
>variadíssimos campos que imprimem à mudança o rumo que
>ela vai tomando, e é por isso que ele não se pode
>prever com segurança. Por isso, basta-me ir lutando
>por interesses concretos, económicos, políticos e
>culturais, dos trabalhadores assalariados, contra as
>injustiças mais gritantes da troca desigual e contra
>as guerras expansionistas ou de pilhagem do
>capitalismo realmente existente. Neste aspecto, como
>em muitos outros, não enfermo do pretensiosismo dos
>comunistas em mudar radicalmente o Mundo.
>
>Por isto, a discussão de processos de transição para o
>comunismo não têm para mim grande interesse, embora
>admita que tenha para outros intervenientes no fórum.
>Não deixo é de interver quando as opiniões expressas
>me parecem basear-se em análises que a realidade
>parece infirmar, ou para corrigir um ou outro aspecto
>de interpretações erradas da História, como foi o caso
>do uso da analogia da NEP com o processo de transição
>para o capitalismo privado actualmente em curso na
>China. Reafirmo, portanto, tudo o que disse sobre esse
>assunto, sobre o qual, verifico com agrado, existem no
>fórum outras contribuições muito interessantes e
>complementares.
>
>Mas este ponto de vista não invalida que tenha
>interesse em discutir formas concretas de organização
>e de expressão dos tais interesses concretos dos
>trabalhadores. Como um tal projecto visa objectivos
>mais prosaicos e defensivos (mesmo quando as pequenas
>ofensivas façam parte da estratégia), os efeitos dos
>erros que se cometam são muito menos dramáticos e as
>discussões podem ser muito menos pretensiosas.
>
>Não sou maniqueísta e não cometo a injustiça de julgar
>que os comunistas chineses estejam deliberadamente a
>pretender substituir o comunismo pelo capitalismo
>privado. Admito até que estejam cheios de boas
>intenções e julguem poder levar por diante, no aperto
>em que se vêem após cinquenta anos de comunismo, a
>convivência fraternal do comunismo com o capitalismo.
>O Gorbatchov e muitos outros protagonistas da História
>também tiveram as melhores intenções! Só que, como
>muito bem disse o Marx, isto não depende da vontade
>dos homens; e, como bem diz o dito popular: "de boas
>intenções está o inferno cheio"!
>
>Por fim, que esta intervenção já vai longa, espero que
>se dê ao trabalho de procurar no dicionário o
>significado de renascer.
>
>JMC.

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