Vamos lá a ver se conseguimos coversar com alguma seriedade! Não é necessária cordialidade por aí além, dado que você é comunista e eu não sou (embora não me mova qualquer espécie de animosidade em relação aos comunistas); basta um mínimo de atenção à argumentação, à de quem se replica e à nossa, para que a discussão possa continuar e todos aprendamos alguma coisa, por pouco que seja.
Disse já ter também navegado pela crença no comunismo, facto que não renego e de que não me arrependo, porque, pura e simplesmente, faz parte da minha vida e muito contribuiu para a minha formação (política e pessoal); as nossas vidas, são também História, e como ela também não podem ser reescritas. Foi inclusivamente uma reflexão mais profunda e crítica do marxismo que me conduziu ao abandono do projecto comunista e da crença pela fé. Pelo facto de há uns anos vir a criticar muito da obra de Marx não tenho por ela menos apreço: situo-a no devido contexto, dou-lhe a merecida importância e aprendo com os erros de Marx; tomara que muitos dos que se intitulam marxistas lhe rendessem, pelo menos, a homenagem que eu lhe rendo.
Ter abandonado o projecto utópico, profético, idealista e voluntarista do comunismo não faz de mim crente pela fé no que quer que seja; tento ir usando a crença pela razão no "materialismo realista", como você lhe chama, sabendo das limitações e das incertezas a que tal me conduz. Porque não sou futurólogo ou profeta, não posso prever se a sociedade dividida em classes tem ainda muito ou pouco tempo à sua frente e múltiplas formas de se manifestar; mas não creio que o capitalismo seja o fim da História. Os comunistas é que têm uma visão determinista e finalista da História: depois do capitalismo, o comunismo; depois dele, sem classes e sem lutas entre elas, adeus História!
Você parece uma pessoa inteligente, pelo que as confusões conceptuais que faz em relação à caracterização do projecto comunista dever-se-ão talvez a desatenção. Resumo e desfaço algumas dessas confusões. O projecto comunista é profético, por ter como base uma profecia, uma verdade axiomática que não necessita de demonstração; é idealista, porque se baseia no desejo e não na realidade; é voluntarista, porque entende que para além do desejo é necessária a vontade para concretizá-lo. Se conhecesse suficientemente o Marx veria que a sua asserção de que o modo como os homens organizam e regulam a produção das condições materiais de existência não pendente da sua vontade é ainda hoje de grande pertinência.
Para mim, mudar o Mundo não está fora de causa. O Mundo está em permanente mudança, e o seu rumo não depende das nossas vontades individuais e de grupo (por mais extensos que os grupos sejam). São os resultados das múltiplas lutas de interesses em variadíssimos campos que imprimem à mudança o rumo que ela vai tomando, e é por isso que ele não se pode prever com segurança. Por isso, basta-me ir lutando por interesses concretos, económicos, políticos e culturais, dos trabalhadores assalariados, contra as injustiças mais gritantes da troca desigual e contra as guerras expansionistas ou de pilhagem do capitalismo realmente existente. Neste aspecto, como em muitos outros, não enfermo do pretensiosismo dos comunistas em mudar radicalmente o Mundo.
Por isto, a discussão de processos de transição para o comunismo não têm para mim grande interesse, embora admita que tenha para outros intervenientes no fórum. Não deixo é de interver quando as opiniões expressas me parecem basear-se em análises que a realidade parece infirmar, ou para corrigir um ou outro aspecto de interpretações erradas da História, como foi o caso do uso da analogia da NEP com o processo de transição para o capitalismo privado actualmente em curso na China. Reafirmo, portanto, tudo o que disse sobre esse assunto, sobre o qual, verifico com agrado, existem no fórum outras contribuições muito interessantes e complementares.
Mas este ponto de vista não invalida que tenha interesse em discutir formas concretas de organização e de expressão dos tais interesses concretos dos trabalhadores. Como um tal projecto visa objectivos mais prosaicos e defensivos (mesmo quando as pequenas ofensivas façam parte da estratégia), os efeitos dos erros que se cometam são muito menos dramáticos e as discussões podem ser muito menos pretensiosas.
Não sou maniqueísta e não cometo a injustiça de julgar que os comunistas chineses estejam deliberadamente a pretender substituir o comunismo pelo capitalismo privado. Admito até que estejam cheios de boas intenções e julguem poder levar por diante, no aperto em que se vêem após cinquenta anos de comunismo, a convivência fraternal do comunismo com o capitalismo. O Gorbatchov e muitos outros protagonistas da História também tiveram as melhores intenções! Só que, como muito bem disse o Marx, isto não depende da vontade dos homens; e, como bem diz o dito popular: "de boas intenções está o inferno cheio"!
Por fim, que esta intervenção já vai longa, espero que se dê ao trabalho de procurar no dicionário o significado de renascer.